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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
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Oscar D´Ambrosio

A Versatilidade das Tintas de Darcy Cruz

Há pintores impressionistas e expressionistas, figurativos e abstratos e naïfs e acadêmicos. Existe, entretanto, um tipo de artista muito especial, que reúne o raro talento de pintar aquilo que deseja no estilo que acha mais apropriado. É o caso de Darcy Cruz, que surpreende pela versatilidade no manejo das mais variadas técnicas e na abordagem de diversos temas.

Nascido em Avaí, a cerca de 30 km de Bauru, SP, em 1931, e falecido em Mogi das Cruzes, SP, em 5 de fevereiro de 2007, Darcy começou a gostar de arte com o avô, construtor que tinha um hotel e fazia a decoração com estilo naïf. Ainda criança, ajudava-o a misturar as tintas e ficava maravilhado ao ver como numa parede branca iam surgindo bois, casinhas e frutas.

Darcy reconhece que aquilo foi um incentivo para que ele gostasse de desenhar e pintar. Em 1929, com a crise da Bolsa de Nova York, a região de Avaí, produtora de café, entrou em decadência. O tio, que morava em São Paulo, convidou a família para ir para a Capital.

A primeira incursão mais séria no mundo das artes aconteceu quando atuava numa oficina de conserto de veículos. Com os funileiros, conseguiu tábuas que usou como suporte e tintas a óleo que, devido ao preço, por serem importadas, lhe eram até então inacessíveis. Trabalhou ainda com tapeçaria, mas também pintava para alguns clientes objetos para decoração de casas, letreiros, salões de carnaval e painéis para carros alegóricos de escolas de samba.

Darcy Cruz se manteve em Mogi, sempre se aperfeiçoando no ato de pintar. Autodidata, quando morava em São Paulo, ia a uma galeria por semana. Ficava horas analisando os quadros e aprendendo com as obras dos outros. Não olhava apenas o conteúdo, mas como a tela tinha sido elaborada, como era dada a pincelada e como o artista tinha conseguido dar aquele brilho e jogo de cores.

As festas populares são o ponto forte da produção de Darcy.
Destacam-se, por exemplo, duas cenas da Bandeira do Divino, uma à noite e outra de dia. Colocadas lado a lado, revelam o controle do pintor sobre nuances de cores e de sombras, criando duas atmosferas distintas a partir da mesma situação.

Se suas telas sobre folclore, principalmente as que enfocam procissões, o tornaram mais conhecido, isso se deve à falta de conhecimento do público da versatilidade do criador paulista. Ao pintar com óleo e tinta acrílica, sobre tela ou sobre cascas de árvores e num estilo acadêmico ou naïf, o artista não escolhe meios ou formas.

A extrema delicadeza é visível em suas pinceladas. Suas festas e procissões brotam da alma e expressam o sentimento de um povo que ele conhece muito bem. Em suas melhores telas, vale-se de uma peculiar inventividade para construir o diálogo entre as imagens que cria a partir da realidade que ele conhece e do universo mental sedento de sonhos do espectador. Somente artistas da qualidade de Darcy Cruz conseguem preencher essa lacuna.
Darcy Cruz
O Vendedor de Cocada
Óleo sobre tela
70 x 50 cm

Oscar D´Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

19 de dezembro de 2008

 


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