instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
003
 
 
 
 
 
Léo Mendes

 

Para Não Esquecer de Adriana

Num país, onde as telenovelas são o principal meio de difusão do trabalho dos seus atores e atrizes, há um caso raro de alguém que abriu mão de atuar na TV para ser apenas uma atriz de cinema: Adriana Prieto. Nascida na Argentina, filha de um diplomata chileno e mãe brasileira, Adriana chegou ao Brasil aos quatro anos de idade, naturalizando-se brasileira, mais especificamente carioca, aos 21 anos. Revelada por Nelson Pereira dos Santos em “El Justicero”, de 1966, aos 16 anos, numa atuação marcante que lhe valeu o Prêmio Governador do Estado do Rio de Janeiro de atriz coadjuvante, a jovem debutante logo passou a ser uma das atrizes mais requisitadas, participando de 19 filmes ao longo de sua breve carreira, vários deles sob a direção de alguns dos mais renomados cineastas brasileiros. Nem todos esses trabalhos estiveram à altura de seu potencial e versatilidade, o que várias vezes resultou em performances que não combinavam com o seu tipo sofisticado e enigmático. Mesmo assim, é possível destacar realizações memoráveis, proporcionadas por diretores que viam nela muito mais que uma garota linda e sensual. Sim, a sua beleza era inquestionável. Não era alta, nem possuía formas generosas, mas crescia diante da câmera, com seus cabelos louros e grandes olhos claros, num rosto renascentista, de proporções muito harmoniosas. O sorriso perfeito tinha algo de infantil, porém, quando fechava a expressão, deixava revelar um certo ar melancólico, o que a deixava ainda mais interessante. Essa combinação, acrescida de uma sensualidade inocente, levava multidões aos cinemas para vê-la em comédias populares, entre elas “A Viúva Virgem” e “Ainda Agarro Essa Vizinha”, ou dramas românticos, com doses de erotismo, como “Soninha Toda Pura”, “A Penúltima Donzela” e “Uma Mulher Para Sábado”. Ela chegou a participar de uma única novela, “Tempo de Viver” (1972), na TV Tupi, mas não gostou da experiência. No teatro, participou de “Os Espectros”, de Ibsen, “Álbum de Família”, de Nelson Rodrigues, e de “Marido Magro, Mulher Chata”, de Augusto Boal.
A sua força dramática foi melhor conduzida por Walter Hugo Khouri, em “O Palácio dos Anjos”, que representou o Brasil no Festival de Cannes, em 1970. O filme não trouxe prêmios, mas chamou a atenção por lá. Outros momentos felizes vieram com “As Duas Faces da Moeda”, de Domingos de Oliveira, e “Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa”, um inventivo filme policial, adaptado de um conto homônimo de Ruben Fonseca, somado a outro conto, “O Caso Morel”, do mesmo autor, e dirigido por David Neves, com o qual ela ganhou o prêmio Air France de melhor atuação feminina do ano. Devido ao estrondoso sucesso alcançado com “Toda Nudez Será Castigada”, que deu a Darlene Glória o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim, Arnaldo Jabor animou-se em adaptar para o cinema outra obra de Nelson Rodrigues, “O Casamento”, em parceria com Paulo Portho, ator do filme anterior e já escalado para viver o pai de “Glorinha”, a heroína do novo projeto que começava a ganhar forma. Ao saber notícias dessa produção, a determinada Adriana, que estava passando férias em Paris, telefonou imediatamente para Portho, seu grande amigo e conselheiro, pedindo-lhe que reservasse para ela o lugar de protagonista. Ele, que acumulava também o cargo de produtor do filme, convenceu Jabor a aceitar o apelo, descartando a idéia de convidar uma outra atriz já idealizada para o papel, a também jovem e bela Renée de Vielmond. As filmagens estavam terminando quando a tragédia aconteceu: Adriana teve a lateral de seu fusca violentamente atingida por um carro de polícia, num cruzamento perigoso da rua Barata Ribeiro, em Copacabana. Ela foi levada entre a vida e a morte para o hospital Miguel Couto, local que dias antes havia servido de locação para a de uma das suas últimas cenas, e onde ela viria a falecer, dois dias depois do desastre, na véspera do Natal de 1974, com apenas 24 anos e no auge da carreira. O motivo que a levou àquela corrida desgovernada ninguém jamais saberá. Supõe-se que tenha acontecido alguma chateação amorosa, pois pouco antes ela fora vista mantendo uma conversa exaltada com um homem, nas imediações do acidente. Esta triste perda gerou comoção nacional e, no ano seguinte, veio a homenagem no Festival de Gramado, onde Jabor apresentou cenas inéditas de “O Casamento”, ainda em fase de montagem, silenciando a platéia, com as últimas imagens da musa desaparecida. Para finalizar o filme, que não teve captação de som direto, ainda faltava a dublagem de todo o elenco e a solução foi arranjar uma substituta de voz semelhante à de Adriana. A escolhida foi Norma Blum, que encarou brilhantemente a tarefa e com isso contribuiu para inspirar um outro filme, “Estrela Nua”, de José Antônio Garcia, que reconta essa história em tom de fantasia e com direito a liberdades ficcionais. Mas, Adriana merece ser muito mais lembrada.

31 de outubro de 2006

 


botão voltar
 
 

|| página inicial || apoio e patrocínio || institucional || sítios indicados || ||