instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
003
 
 
 
 
 
Léo Mendes

 

Sala Vazia

No início dos anos 80, quando não havia o Canal Brasil e o vídeo-cassete ainda não ocupava espaço no mobiliário dos lares brasileiros, assistir a um filme nacional na televisão tinha pelo menos um espaço garantido, com dia e hora marcada: sexta-feira, 23h, na “Sala Especial” da TV Record. A atração da semana era anunciada por meio de chamadas que entrecortavam a programação da emissora, despertando as devidas expectativas nos fiéis telespectadores.

As pornochanchadas, todas produzidas na década de 70, eram o ponto alto do cardápio, com direito a muita seminudez masculina e feminina, quase sempre interrompida pelo intervalo comercial, numa época em que jamais se pensava que um dia fosse possível ver gente nua na novela das oito. É mais do que sabido que a ditadura militar pegava pesado em cima dos meios de expressão artística e com o cinema não era diferente. A linguagem verbal dos filmes nacionais era estreitamente vigiada, para não dizer deturpada, restando então fazer comédias com duplo sentido, as quais costumavam fazer graça com situações vivenciadas por maridos traídos, homossexuais caricatos, empregadas fogosas e velhos assanhados. Todos esses tipos freqüentaram a saudosa “Sala”.

Claro que nem sempre a proposta cumpria com o que prometia e, às vezes, aqueles que ficavam acordados até tarde só para ver abundantes peladões e peladonas, podiam se revoltar com a “propaganda enganosa”, quando o filme apresentava um título sugestivo, mas se levava a sério e não mostrava “nada”, por mais que seu elenco ostentasse alguns nomes comuns em comédias picantes, a exemplo de Aldine Muller, que teve seus momentos de musa existencialista em “Paixão e Sombras”, de Walter Hugo Khouri (este, aliás, passava longe da pornochanchada), exibido várias vezes em “Sala Especial”, ou mesmo David Cardoso vestido (!) ao lado da exuberante Sandra Bréa, em “Sedução”, comédia de época, com produção refinada e malícia sutil, dirigida por Fauzi Mansur, realizador do quase non sense e muito reprisado “Sinal Vermelho As Fêmeas”, sem falar nas adaptações de obras literárias, com suas “lucíolas” e “iracemas”, causadoras de tantos bocejos, ocupando o espaço das adoradas cangaceiras eróticas, superfêmeas, viúvas virgens ou velhas cafetinas e vizinhas gostosas, às vezes saídas da imaginação de escritores do naipe de Marcos Rey, responsável pelo argumento do apimentado “Cada Um Dá o que Tem”.

A sessão semanal há muito foi extinta e nem poderia ter continuado por tanto tempo, pois a fonte secou, afinal o repertório não era tão ilimitado assim, e as fitas-masters já estavam mais do que gastas pelas reprises constantes. De qualquer forma e independente do caráter apelativo, “Sala Especial” foi pioneira em termos de espaço cativo reservado ao cinema brasileiro. Quanto a esses filmes populares, agora podem ser vistos e revistos no Canal Brasil, para o deleite de uma nova geração privilegiada, assinante de TV a cabo, que aprecia pornochanchadas como cult-movies, enquanto o telespectador jovem que só tem acesso à TV aberta mal sabe quem foram (ou quem são) Wilza Carla, Martha Anderson, Wilson Grey, Fregolente e Zezé Macedo ou que diversos nomes consagrados na televisão também tiveram sua fase de estripulias no cinema, entre eles Antonio Fagundes, Nuno Leal Maia e, claro, Vera Fischer. Seria justíssimo que esta memória fosse compartilhada com o grande público, por meio de programações acessíveis e regulares em emissoras abertas (a TV Cultura faz o que pode), depois que o vídeo-cassete foi substituído pelo DVD, que, por sua vez, já está praticamente ultrapassado, sem sequer ter cumprido a sua função de alternativa para quem quisesse programar a sua própria “sala especial” em casa, lembrando que a maior parte dessas raridades do nosso cinema jamais chegou às vídeo-locadoras.

04 de dezembro de 2006

 


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