instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
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Léo Mendes

 

Trem para as Estrelas do Brasil

No atual momento, assistimos a ascensão de Rodrigo Santoro como ator de cinema internacional e nos orgulhamos disso, é claro. Porém, ainda nos perguntamos: com tantos outros atores e atrizes de talento fenomenal que temos, porque tão poucos têm o devido reconhecimento para emplacar uma carreira no exterior? Aí, lembramos que não gostamos nem um pouco quando vemos nossos patrícios fazendo papéis de latinos estereotipados em seriados enlatados.
Mas, é bem verdade que latino só vai fazer papel de latino lá fora por uma razão óbvia: pelo sotaque, mais do que pelas características físicas (nem vamos falar em preconceito), pois o Brasil, por exemplo, está cheio de “tipos europeus”, e receber rótulos manjados como “latin lover” ou “brazilian bombshell”, não é tão mal assim. O talento pode até superar dificuldades idiomáticas, em alguns casos.
A “falsa baiana” Carmen Miranda, virou referência da cultura brasileira para o mundo (ainda que de maneira caricata), na década de 1940, devido às suas participações em produções hollywoodianas, e até hoje é citada, copiada e continua inspirando moda. Décadas depois, Sônia Braga encantou os americanos com o seu carisma e desenvoltura tão bem explorados em “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, de Bruno Barreto, que virou cult, com direito à refilmagem “made in USA”.
A carreira de Sonia cresceu e floresceu, dando a ela chances de participar de uma lista, no mínimo razoável, de filmes que respeitaram a sua brasilidade, além de participações regulares em programas e seriados da TV americana.
E foi em território americano que Marília Pêra foi eleita a melhor atriz do ano pela Sociedade dos Críticos de Cinema dos Estados Unidos, pela sua “horripilante e sensacional” (nas palavras da ultra-exigente crítica Pauline Kael) interpretação da inesquecível prostituta Sueli, em “Pixote” (1981), de Hector Babenco. Nos EUA, Marília protagonizou “Mixed Blood” (1985), com direção de Paul Morrissey, parceiro artístico de longa data de Andy Warhol.
E o que teria acontecido a Denise Dumont? Ela se mudou para os Estados Unidos após fazer alguns filmes no Brasil, chegando a ser protagonista de novela da Globo, no início da década de 1980, e teve um momento glorioso em sua carreira, quando foi convidada por ninguém menos que Woody Allen para ilustrar um número musical na comédia “A Era do Rádio”, e lá estava ela, caracterizada de Carmen Miranda, cantando “Tico-tico no Fubá”. Depois a moça não apareceu mais, infelizmente.
Por outro lado, a cearense Florinda Bolkan (Bulcão, originalmente), que abalou o cinema italiano, com sua beleza exótica, tornando-se musa de ninguém menos que Luchino Visconti, muito contribuiu para o sucesso do hoje clássico “Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, de Elio Petri, que deu à Itália o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes, em 1970. Carreira internacional não quer dizer chegar a Hollywood, necessariamente. Não mesmo.
Os festivais europeus são grandes veículos para revelar atores e atrizes de todos os cantos do mundo, o que não significa garantia de trabalhos importantes, internacionalmente falando, além de prestígio e troféus. Em matéria de reconhecimento, o Brasil já fez bonito em Berlim, Veneza e Cannes, por exemplo, com atrizes de brilho extraordinário. Darlene Glória foi a melhor atriz do Festival de Berlim, pela sua atuação desconcertante em “Toda Nudez Será Castigada” (1973), de Arnaldo Jabor, porém, não participou de nenhuma produção estrangeira (pelo menos não constam registros), apesar da repercussão do seu inegável talento.
Voltamos à Berlim com “A Hora da Estrela” (1985), de Suzana Amaral, e esta foi a vez da estreante Marcélia Cartaxo comover meio-mundo com a sua Macabéa, e trazer outro prêmio de melhor atuação feminina. Ao contrário do que se esperava, nem aqui ela recebeu tantas oportunidades de mostrar novamente a sua grande capacidade dramática, com exceção do papel que Karim Ainouz lhe deu em “Madame Satã”, recentemente.
Em Cannes, até hoje, Fernanda Torres figura como única brasileira na lista das atuações premiadas, por “Eu Sei que Vou te Amar” (1986), também de Jabor. Depois desse acontecimento, Fernandinha trabalhou em apenas um filme dirigido por um cineasta estrangeiro, “A Mulher do Próximo” (1988), do português José Fonseca e Costa, mas é com a uma sólida galeria de filmes 100% brasileiros que ela constrói a sua história de atriz de primeira grandeza. E, para fechar a cronologia, Fernanda Montenegro não só foi consagrada como melhor atriz em Berlim, pela sua memorável atuação em “Central do Brasil” (1998), de Walter Salles, como também foi a primeira atriz brasileira (e única, até agora) a ser indicada ao Oscar. Há pouco, filmou entre a Colômbia e a Inglaterra “O Amor nos Tempos de Cólera”, adaptação do clássico romance homônimo de Gabriel Garcia Márquez, com direção de Mike Newell, realizador de “Harry Potter”.
Uma das próximas a fazer história além das nossas fronteiras poderá ser Alice Braga, sobrinha de Sonia. Quem a viu em “Cidade Baixa” sabe que se trata de uma atriz nata.
E, para quem achar que estão faltando nomes masculinos nas citações acima, fica lançada a pergunta: porquê será que as nossas atrizes dominam tanto esse terreno? Realmente, elas predominam, até agora, quando o assunto é “roubar a cena” mundo afora. Mas, voltando para a origem deste texto, além de Rodrigo Santoro, o ator e cantor Seu Jorge, já há algum tempo, é incensado em diversos idiomas. E salve Lázaro Ramos, Selton Mello, Matheus Nachtergaele, Caio Blat e Wagner Moura. A vontade de mostrar o que temos de bom e bonito deve estar sempre acima de qualquer complexo de inferioridade e necessidade de aprovação estrangeira. Falta de modéstia à parte, o mundo merece conhecer melhor a nossa charmosa brejeirice.

24 de março de 2007

 


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