instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
005
 
 
 
 
 
Abdias Campos

 

Comida Tem Nome Próprio!

www.abdiascampos.com.br

Uma vez por ano eu vou ao interior para descansar e me arremessar à mesa de comida boa de nomes estranhos. Logo me assanho em comer mais uma dessas saborosas comidas da gente, da gente de lá.


Comidas de nomes diferentes, sugestivos, didáticos. Nome que quer dizer algo, identificando o sabor, talvez a cor ou textura, ou mesmo a sua feitura, o modo de se cozer e o resultado que dá pra gente saborear.


A Rapadura é uma delas, já bastante conhecida, divulgada, consumida em todo canto que há. Doce rústico, raspa dura, mas que é uma doçura, feita nos engenhos de cana de açúcar, da cana sertaneja, magricela, açucarada; com seus pés espalhados nos roçados a beira dos riachos e lagoas, cutucando a terra por debaixo com suas raízes se enfiando pra pegar água no fundo e encher de garapa o seu corpo todo, pra gente torcer, espremer, botar no tacho, ferver, botar pra secar na fôrma, deixar ficar dura, virar rapadura pra gente comer.


Beira Seca é outra gostosura que não quer ficar atrás. Ora, pelo contrário, nela se usa até rapadura! É uma mistura exótica demais, mas que dá um doce, daqui, oh! Feito com farinha de roça, rapadura, pimenta e gengibre, e outros ingredientes que nunca contam pra gente porque cada um tem seu toque a dar. Ardoroso, saboroso, exótico é o seu recheio, que é colocado dentro de uma casca dura, mais ou menos do tamanho de um tomate, de beirada seca, feita de goma, crocante, que se come tudo num bocado só.


Orelha de Pau (bolo de caco ou orelha de velho); simples, de formato a lembrar os fungos das árvores velhas, fácil de fazer, fácil de comer, com chá ou café, meu bolo preferido, desde a infância!


Nessa relação, apresentamos também um doce que é feito do tubérculo do Umbuzeiro, da batata dessa árvore frutífera do Agreste e do Sertão, um doce que pelo seu formado tem o nome de Tijolo. Tijolo que se come e é gostoso, embora pareça um tanto exagerado a gente dizer que vai comer tijolo, mas e daí? Estamos construindo nossa base alimentar de sobremesas.


Mata Fome, também chamada de sorda, bolacha morena de trigo, com erva doce, cravo e rapadura. Nome forte pelo poder de matar a quem está por um instante quase nos matando, a fome. E assim, se está se sentindo morto de fome, mate a morte com Mata Fome, é tiro e queda na nossa pança.


Existem outros nomes de comidas que não se associam basicamente a nada do referido prato, embora seja, pelo exotismo, mais uma referência nesta nossa culinária de ortografia excêntrica, como Cabeça de Galo. Um pirão delicioso, feito com leite, tempero seco, coentro, ovo, azeite ou óleo vegetal e farinha de roça.


Quebra Queixo, Puxa Puxa, Pé de Moleque, Baião de Dois, Carne de Sol, Buchada, Bolo de Rolo, Grude, Suvaco de Cobra, Mingau de Cachorro, também fazem parte de uma lista muito maior.


O mais interessante dessa história é que esses nomes são descompromissados de qualquer etiqueta da cozinha laboral do Mestre Cuca, seja de que lugar for, estão aí sem nenhum apelo comercial, mas com autenticidade plena. Existem para o nosso paladar e para saciar nossa fome de comer, com criatividade na formulação das receitas e na designação das suas nomenclaturas.

Cordelista, Músico, Compositor e Pesquisador de nossa Cultura Popular.
Para conhecer o trabalho de Abdias e adquirir suas obras, acesse: www.abdiascampos.com.br

27 de abril de 2009

 


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