instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
016
 
 
 
 
 
Hugo Oskar

História da Mímica (1)

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Em 1979 fomos convidados para o VIII Festival de Bonecos, em Petrópolis-RJ. Apresentei uma performance que demonstrava o trabalho relacionando "mímica e objetos animados". A produção do programa "Bambalalão" (TV Cultura), interessada por nosso trabalho, nos convidou para criar 100 quadros de mímica.
Sempre que se fala em mímica, vêem as seguintes perguntas: Teatro? Dança? Brincadeira? Mímica é tudo isto e, principalmente, é Arte.
O conceito de Mímica provém da Sicília: assim se denominavam as apresentações das farsas camponesas e burlescas. Recebeu a sua forma definitiva pelo siracusano Sôfron, por volta do ano 430 a.C. Suas criações são homens no sentido mais amplo da mimesis, feras humanizadas. Sôfron é o criador dos antepassados mais remotos do enredo das peças de Shakespeare, "O Sonho de uma Noite de Verão" em uma de suas obras (conservado em fragmento) faz com que o ator que representa o burro fale do jeito que comia fenos e folhas.
O mímico é como um fio que conduz, sem interrupções, desde a Pré-História até a Idade Média, passando por Roma, Bizâncio e chegando junto com os teatros moderno e contemporâneo.
Voltemos ao passado e vamos ver o que pensavam os povos primitivos: devido às mudanças de climas, normalmente os povos eram nômades, tinham que viajar de um lugar a outro e procurar comida para se manterem vivos. O teatro (falo de teatro como um todo incluindo a mímica) dos povos primitivos conserva suas raízes no longo subsolo dos impulsos vitais da origem das misteriosas forças da magia, o conjuro à transmutação vinculada com a caça dos povos nômades da era paleolítica, as danças das colheitas e fertilidade; dos primeiros semeadores e agricultores, os ritos da iniciação do totenismo, do xamanismo, do culto aos deuses, a forma e conteúdo da expressão teatral, condicionado pelas necessidades vitais e as crenças religiosas. Delas se derivam as forças elementares que convertem o homem a um médium, que o capacitam para se elevar por cima de si mesmo e de seus colegas da tribo.
O homem tem personificado as forças naturais, tem convertido em seres viventes o sol e a lua, o vento e o mar. Seres que disputam, lutam e batalham entre si, e podem ser influenciados em proveito do homem mediante o sacrifício, a adoração cerimonial e a dança.
As fontes pré-históricas populares, folclóricas, assim como datas da História das religiões, oferecem um material abundante de danças culturais e festejos das mais diversas informações do início do Teatro. Os ritos da fertilidade com os índios cherokees (EUA), acompanham hoje a semeação e colheita do milho, encontram sua correspondência nos festejos musicais e pantomímicos dos japoneses em honra ao arroz. O teatro primitivo se serve dos meios extras corporais próprios da arte mais desenvolvida, máscaras e vestuários, acessórios, decorações e orquestra foram utilizadas, logicamente em forma mais simples.
Em nossos dias é possível encontrar o teatro primitivo em três manifestações: nos povos relativamente isolados que vivem em um estado primitivo e que, em suas representações mímico-mágicas, se aproximam a uma hipotética condição originária da humanidade; nos gravados sobre madeira e ossos e, por último, nos inumeráveis tipos de costumes populares e de danças, mímicas e folclore, em diversas regiões da terra.
A luta dos mímicos pelos caminhos solitários da pantomima é um exemplo do teatro intemporal e, com isto, se abrem as portas que nos conduzem a todos os povos em todos os tempos: danças das culturas primitivas à pantomima das evoluídas culturas asiáticas; mímica dos antigos até a Commedia dell’ Arte.
A habilidade do mímico consiste em criar a ilusão do tempo. O corpo é convertido em seu instrumento, que substitui uma orquestra: a expressão do som mais pessoal o transforma em uma expressão universal. O mímico foi o único ator que não teve preconceito com as mulheres, portanto, desde o começo, em suas viagens, se fazia acompanhar por dançarinas, bufões, julgares, mágicos, etc. (continua no próximo artigo)

Mímico, marionetista e artista plástico. Atualmente é diretor do grupo de Teatro de Animação Metamorfaces. Para saber mais sobre o grupo acesse:http://www.cooperativadeteatro.com.br/nucleos/metamorfaces.htm

19 de novembro de 2006

 


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