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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Infância

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Antes de aprender a ler, quando eu tinha entre meus 5 e 6 anos de idade, lá pelo início da década de 1970, fui apresentado aos gibis de Walt Disney. Pouco depois, caíram nas minhas mãos, outras revistas, como o título Mad e Crás – esta última produção 100% nacional. Ao aprender a ler, então com meus 7 anos, e já na primeira série do ensino, comecei a adquirir as revistas em quadrinhos infantis. Foi a partir de 1974 que comecei a colecionar e ler os gibis, iniciando-me com os personagens do Maurício de Sousa: Cebolinha e Mônica.
Mas é interessante reportar como aprendi a ler: eu estava sendo alfabetizado, como a maioria, pela cartilha Caminho Suave. Mas a minha leitura ainda era meio lenta e difícil...aí, um dia, eu estava no ônibus urbano com minha mãe, indo de São Vicente para Santos (onde eu morava), quando de repente, olhei para uma placa através da janela, e li uma palavra rapidamente. Eu senti como um “clique”, como um “salto” na minha mente, de repente. Eu nunca tinha conseguido ler uma palavra com tal rapidez e fluidez como naquele instante! Quase igual a quando a pessoa está aprendendo a andar de bicicleta e tem seus movimentos lentos, medrosos, com algumas quedas. Aí, como num passe de mágica, após algumas tentativas, de repente se dá o “clique”, o estalo, e pronto! Aprende-se a andar com extrema facilidade e nem se compreende como é que não se estava conseguindo antes, já que parecia tão fácil agora. Comigo, o aprender a ler se deu da mesma forma (e na bicicleta, também). Posso conjurar uma operação conjunta de meus hemisférios direito e esquerdo, em que, repentinamente, todas as sinapses referentes ao processo se estabilizam e...voilá, que se sabe ler, como que por encanto. Após esta minha nova competência, comecei a ler tudo de forma muito alegre e contente!
Nem preciso dizer que, daí por diante, passei a comprar as revistas de histórias em quadrinhos, os “gibis”!
Mas eu só adquiria uma revista por semana, ou melhor, por fim de semana. Era incrível, mas mesmo somente com 7 anos de idade, eu tinha a consciência de que minha família não podia gastar dinheiro, e então, sabia que uma revista semanal estava de bom tamanho...creio que foi a educação daquela época, em que ainda não existiam os vídeo-games no Brasil, e a televisão era em preto e branco, em sua grande maioria (apesar de algumas famílias “simularem” o aparelho colorido colocando três tiras de celofanes de cores diferentes na tela da imagem).
Sou filho de libaneses: na verdade, sou “quase” libanês: viajei no útero de minha mãe de navio, durante um mês, do Líbano para o Brasil, tendo nascido três meses depois da chegada dela aqui: costumo brincar dizendo que fui “fabricado” – made in – Líbano, e “desenvasado” em Minas Gerais. E brinco também que viajei a “ver navios” já que estava no útero dela.
Assim, nesta genética árabe, aprendi desde cedo o que é economia, e o suor para ganhar dinheiro. Desta forma, como eu disse, não mais que um gibi eu podia adquirir – e tinha que ser de até 68 páginas, pois os mais grossos eram mais caros – havia já padronizado as compras.
Mas o interessante era o processo mágico que me tomava à véspera de cada compra, que podia se dar no sábado ou no domingo.
Digamos que eu já tivesse comprado uma revista do Cebolinha e a lido inteira. Durante a semana, eu a relia algumas vezes novamente. E dentro das páginas dela, como sempre havia anúncios de outros títulos da editora, eu passava a determinar a escolha de um deles para a semana seguinte, com base no título, mas especialmente na capa que podia ser um grande chamariz, bem como a novidade de um personagem diferente. Assim, ao chegar na sexta-feira à noite (ou sábado, dependendo), eu ia dormir no meu quarto, imaginando como seria a ida à banca na manhã seguinte. Mas de meu quarto, eu observava a parede à frente, iluminada, pois a luz do corredor ficava acesa – eu dormia na cama, e a meu lado um berço com minha irmã, que tinha, então, quase três anos. Eu olhava para a parede branca, um tanto alumiada, e via formas nela: rostos, figuras etc. Como naquele processo que Leonardo Da Vinci já avisara ser útil para a criatividade. Ele mesmo dizia que olhar para as paredes facilita visualizações e imagens novas e inusitadas. Como se percebe, as crianças já sabem e fazem isso naturalmente.
Mas enquanto eu “refletia”, olhando para a parede, meu ser era tomado de indescritível alegria, pois se mesclava em minha mente a imagem da capa do gibi que eu elegera a ser adquirido na manhã seguinte, e o fato de acordar para ir à banca me dava um êxtase quase místico! O que eu encontraria dentro desta revista colorida? Escrevendo isso agora, eu me rememoro um pouco da sensação, mas não consigo atingir além, como ela era em força, realmente...embora eu saiba que era tremendamente impactante!
De manhã, ao acordar, a alegria era extremada! O que pode um gibi - uma capa, histórias em quadrinhos, desenhos elaborados com cores para a mente infantil - , causar num ser humano, jamais foi verificado da forma como eu imagino que deveria ter sido!
Esta infância, em que, semanalmente, minha alma infantil era tomada de êxtase por poder adquirir uma revista em quadrinhos, me mantém até hoje com um misto de mistério e delírio! Pois sei que sentia a maravilha de poder comprar uma revista, e folheá-la, e imaginar estar indo à banca...de uma forma que isto seguiu comigo, embora hoje em dia eu não possa realmente retransmitir o sentimento como o era em sua totalidade.
Mas nem sempre eu adquiria a revista que havia escolhido entre as páginas...às vezes eu não escolhia nenhuma daquelas, e acabava optando por algum novo título que eu jamais tivesse visto antes! Ou então, eu trocava ou protelava a escolha, dependendo do assombro que alguma outra revista me transmitisse no momento em que me deparava: eu na banca, e meu raio de visão na revista!
Foi assim que adquiri pela primeira vez o título Mortadelo e Salaminho. Na época, eu nem imaginava ser o autor espanhol. E mesmo a revista tendo um formato maior (americano), possuía em contra-partida, menos páginas, trazendo um preço idêntico aos outros títulos em formatinho de 68 páginas. Como se deu esta primeira compra de Mortadelo e Salaminho?
Cheguei à banca e vi a revista estampada e enfileirada lá “em cima” com uma magnífica capa (eu tinha 7 anos, e portanto, era bem pequeno...).
Acho que apontei a revista para o jornaleiro, e me lembro que foi ele mesmo que me disse que era uma revista bem engraçada (me lembro que o jornaleiro não era nem um senhor, mas um “moço”, ou seja, deveria ser um jovem adulto que havia se permitido ler a revista).
Aí, ao mesmo tempo em que ele me dizia isso, eu folheava as páginas, vendo que os desenhos eram bem engraçados, e que cada página continha muitos quadrinhos (uma média de 12 a 15 por página).
Pois bem: paguei a revista com o dinheiro semanal que meu pai me dava para isso e fui alegre devorar seu conteúdo. Logo no início havia uma história em quadrinhos introdutória de uma só página que quase me enfartou de tanto que eu ria!
Assim, me lembro até hoje: Mortadelo e Salaminho foi uma das revistas que eu, naquela época, mais relia e gostava. Também apreciava, como disse, os quadrinhos de Mauricio de Sousa. O primeiro gibi do Cebolinha que adquiri (antes mesmo de Mortadelo e Salaminho) trazia como HQ de abertura uma aventura em que o cascão caía num buraco e ficava lá dentro até ser retirado. Foram, se não me falha a memória, umas duas ou três páginas que apresentavam desenhos com cores de terra, e o solo desenhado, como areia e barro...isto, decerto, vai moldando uma imagética incrível na mente infantil! Como é “legal” poder ver a terra, o solo, o buraco na terra, daquela forma divertida! Aliás, um desenho animado francês, Kiriku e a feiticeira, narrando um conto mítico africano, tem alguns minutos em que o menino Kiriku se infiltra no solo e o vai percorrendo, o que imediatamente me lembrou desta aventura do Cascão. Eu li aquela HQ várias vezes...aliás, como disse, eu lia um gibi na mesma semana repetidamente. Mas depois eu relia os anteriores, em rodízios, que não me cansavam nunca. Assim, somado a estas releituras, havia sempre um gibi novo a cada fim de semana (sabe-se que a criança gosta da repetição, e que esta beneficia a ampliação da inteligência infantil e de sua memória).
Eu ia guardando todas as revistas numa caixa de papelão.
Além dos títulos mencionados, havia as revistas do Gasparzinho, do Lelo, da bruxinha Luísa...eu não apreciava muito os títulos da Walt Disney, mas de vez em quando uma ou outra edição do Mickey eu adquiria (menos do Tio Patinhas ou Almanaque Disney, pelo simples motivo de que eram mais caros...mas também porque não me atraíam tanto).
Na época, surgiram muitos outros títulos diferentes também, como a Pantera Cor-de-Rosa, Luluzinha e Bolinha, Super Mouse, Strunfs (relançados nos anos 80 como Smurfs), e o Alceu e Dentinho (menos conhecido hoje em dia, mas deste último havia desenhos animados e até um filme foi lançado há poucos anos: Alceu é um alce e dentinho, se não me engano, um castor).
Houve um período em que fiquei com caxumba, então acamado por uns 20 dias sem ir à escola...foi a glória! Além de ver desenhos animados, sempre me traziam um gibi (a cada fim de semana, é bom lembrar). Lembro-me de um dia em especial, nesta fase de acamado: eu lia um gibi Heróis da TV (que trazia entre vários personagens televisivos, a Corrida Maluca, Mighty Tor e Scooby-Doo), e vi o desenho animado que trazia a mesma aventura desenhada do Scooby e sua turma. Aí fui comparando para ver se eram iguais...mas claro, no gibi, eu vi que a história era bem mais simplificada e um pouco modificada, embora não menos atraente.
Nesta época eu “encenava” todos os filmes de heróis que via na TV: Zorro, Batman, Ultra-Man, Ultra-Seven etc. Mas na leitura dos gibis, eu não me interessava pelos heróis de traços realistas, só os infantis ou caricaturais. Isso daria um estudo interessante: a criança gostava dos heróis realistas filmados na TV, mas nos quadrinhos não! Pelo menos não realistas: Cavaleiros do Zodíaco e a crianças de hoje dão outro tom a isto?
Uma das revistas que mais me atraiu na propaganda das páginas de alguns dos gibis que eu lia nos meus 7 e 8 anos, era a Bruxinha Birutéia. A cor do fundo, de um violeta belíssimo, me encantou demais. Eu ficava imaginando a compra da revista, dia após dia, até que chegasse no fim de semana e a adquirisse, afinal.
Enfim, foi um mundo, um universo extremamente rico e prolífico. Minha mente se alimentou imageticamente de desenhos os mais variados, de cores múltiplas, e de histórias fantásticas de tal maneira, que isto me dominou durante minha vida inteira: eu jamais larguei as revistas em quadrinhos, e fui encontrando, etapa após etapa, um novo nicho que condissesse com minha idade momentânea.
E isto até hoje, quando acabei estudando a fundo o poder informacional desta arte, que ainda assim, não foi profundamente percebida em sua riqueza e influência.
Como vêem, a influência que ela teve em minha psique foi extremamente marcante. E a julgar pela teoria de Waldemar de Gregori (1999), de que a mente infantil opera em uma ciclagem em alfa, apropriada para o fantástico, o fantasioso e o imaginário, as histórias em quadrinhos não poderiam deixar, junto aos desenhos animados, de serem os materiais mais apropriados a isso. E é a provável razão porque hipnotizam as crianças e transformam em “realidade” as possibilidades fantasiadas e imaginadas por elas, e que são lidas nas histórias em quadrinhos. É mesmo certo que este contato, longe de ser apenas agradável aos olhos de uma criança, seja essencial para sua construção psíquica e manutenção da inteligência criativa, que infelizmente vai sendo sabotada aos poucos a cada fase que ela vai crescendo e se “formatando” no sistema educacional caduco, cartesiano, anacrônico e limitante, que ainda teima em aleijar a inteligência sistêmica humana.
Histórias em quadrinhos são resultantes de uma possibilidade tecnológica natural, que a espécie humana desenvolveu, e os criadores e elaboradores das fantasiosas e pan-imagéticas HQ nem imaginam a responsabilidade que têm, ao materializar suas criações, endereçadas às crianças ávidas por “vida”. E isto é o que elas verdadeiramente encontram nas simulações, nos simulacros animistas (e animados) dos desenhos das histórias em quadrinhos.
E naqueles “mágicos” anos da década de 1970, com extrema criatividade em tudo, incluindo os quadrinhos e a música, algo realmente estava ocorrendo com a mente humana, em todos os graus...meu eu-criança foi testemunho de um pedaço deste evento, e quando me reporto àquele tempo, vejo que foi muito importante mesmo, não só para mim, como para cada alma humana, com suas possibilidades de expressão, abertas naquele período!

Referência:

DE GREGORI, Waldemar . Os poderes dos seus três cérebros. São Paulo: Pancast, 1999.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP ,doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.


15 de novembro de 2006

 


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