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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência - I

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Anteriormente falei da minha relação inicial com o universo da arte dos quadrinhos. Foi um período mágico, em que minha psique se alimentou de “gibis”, com seus personagens, cores, desenhos, textos, balões, seqüencialidades numa estética altamente criativa e plural!
Lembro-me que naquela fase, eu desenhava de vez em quando, mas algumas pequenas e poucas coisas que aprendia, como um guarda-sol, esteira e praia...ou então, elefante e girafa...coisas normais que qualquer criança arrisca.
Depois, em meus 8 anos, indo para os 11 ou 12, minha mão tentava reproduzir monstros de filmes e desenhos animados, e principalmente os dinossauros! Há uma estética incrível nos corpanzis daqueles gigantes antediluvianos, que me apaixonaram a tal monta que vez ou outra eu cogitava em ser paleontólogo.
Mas nesta fase, meu pai nos mudou de Santos para São Vicente, adquirindo um bar e restaurante comercial. O que se servia lá, eram pequenas travessas: umas 4 de cada vez, sendo que cada uma continha separadamente, arroz, feijão, bife, salada, e uma variação diária, em lugar do bife, como peixe, picadinho (batata com carne cozida), dobradinha, macarrão etc.
Minha mãe era a cozinheira principal, e eu me tornei o “garçon” literalmente (se lembrarmo-nos que “garçon” em francês é menino). Mas, se no início de meus 8 anos eu gostava de aprender a servir, inicialmente cafezinho, e depois os pratos nas mesas, a seguir, como que para equilibrar o tempo que não estava atarefado, eu desenhava (e muito) estes monstros e dinossauros, nos papéis que encobriam os maços de cigarros (cada papel encobria 10 maços de uma vez). Se de um lado havia o nome da marca de cigarros, no verso, na parte interna, o papel era totalmente alvo! Foi ali minha escola de desenho...minha mente arrumou um jeito de tornar viável o fato de eu ter começado a trabalhar tão cedo. Pois comecei a me aborrecer, principalmente quando meus primos me visitavam: eu não podia acompanhá-los sempre aos passeios, visto que durante a parte da manhã e almoço, o restaurante pedia meu auxílio. Assim, dos 8 aos 11 anos, entremeado ao trabalho, treinei minha mão (e cérebro) com os seres mais esquisitos, baseados em Godzillas e Tiranossauros (e brontossauros e/ou triceratops – estes últimos eram os que mais gostava). Ah, é claro: ao mesmo tempo, minhas leituras de quadrinhos semanais continuavam firmes.
Porém, foi em 1979, quando eu estava com 12 anos, que meu foco literário, no quesito “gênero”, se modificou: passei a conhecer os super-seres! E, claro, 12 anos significa adolescência: eu principiava a deixar para trás, aos poucos, a inocência “paradisíaca” infantil, para um protótipo de homem. Os super-heróis, pelo jeito, deram um jeito de tornar esta passagem mais forte e simbólica: e os desenhos também se transformaram. Já não estavam mais, apenas os monstros e dinossauros. Junto deles, antagonizavam super-heróis, e a minha linguagem dos quadrinhos ia se aperfeiçoando pelas minhas mãos.
Eu já havia tomado contato, obviamente, com Mandrake, Fantasma, Homem-Aranha, Batman, Super-Homem, Vingadores etc, de anos atrás, principalmente quando eu visitava meus primos em Minas Gerais: na cidade que nasci, Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, na casa deles, havia um pequeno cômodo destinado às revistas em geral, e aos quadrinhos. Eu lia os de humor, mas lá sempre estavam os de super-heróis, principalmente os da Editora EBAL, com seus formatos grandes, e muitos também coloridos, de papel grosso e de primeira...e todo aquele cheiro de revistas guardou espaço em minha memória!
Na escola, de vez em quando caía em minhas mãos algum exemplar da Editora Bloch com, por exemplo, os Vingadores. Meu olhar se deslumbrava pelas figuras inusitadas, e suas vestes espetaculares. E não precisavam ser espalhafatosas como as do Capitão América: eu preferia as mais sóbrias, como a do Pantera-Negra. Mas passei mesmo a me interessar por lê-los, foi aos fins de meus 11 anos, para os 12. Nessa época, definitivamente, deixei de comprar edições esporádicas dos formatinhos da EBAL (Superduplas etc), ou depois, da Bloch Editores, para principiar com as novas edições de Heróis da TV da Abril, e Super-Heróis Marvel da RGE. Porém, me lembro até hoje, de uma imagem muito forte que me ficou gravada de forma indelével: fui à banca, num daqueles domingos matinais para comprar alguma de minhas revistas, quando me deparei com o primeiro número do Almanaque Marvel da RGE: dentro dele, chamou-me a atenção a última HQ, que era dos X-Men, até então, totalmente desconhecidos por mim. Pois os enquadramentos e diagramações das páginas imitavam os de Neal Adams – mas eu também não sabia disso -, traziam aquelas figuras de uniformes bem diferentes dos conhecidos Vingadores (Thor, Cap. América, Visão, Homem de Ferro), e seus corpos esguios (desenhados por Don Heck, calcados também no estilo de Neal Adams), me deixaram esfuziante: aquela roupa azul-escura de Ciclope, com seu monóculo na face...o azul e branco do Anjo com aquelas enormes asas...o Fera com uma roupa similar a de Ciclope, mas descalço e de pés e mãos desproporcionalmente grandes...e um homem meio geométrico e transparente: o homem-de-gelo! Aquilo me chamou a atenção demais e, embora quisesse muito conhecer, não comprei porque a revista era mais cara que a concorrente (Heróis da TV). Pois, neste período eu já podia adquirir gibis com mais de 68 páginas, mas havia também um limite de preço.
De toda maneira, o impacto que minha mente teve ao visualizar rapidamente aquelas páginas com os X-Men foi algo que também formatou minha maneira de me relacionar com os super-seres e os desenhos, ampliando-se ainda mais, depois, quando fui conhecer outros personagens, como Destrutor (Havoc), irrmão de Ciclope, e um dos personagens cujo traje é o mais belo e intrigante de todos os outros, devido à sua sobriedade e ao efeito que era obtido ao ser desenhado!
Mas esta, amigos, é outra história, que vai ainda se descortinando por alguns capítulos deste artigo.
Nos vemos em um mês!

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP ,doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

14 de dezembro de 2006

 


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