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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência - II

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Continuando minha epopéia no universo das histórias em quadrinhos, resolvi, no início de minha adolescência, após algumas tentativas anteriores frustradas, montar uma coleção de revista de HQ. Houve tentativas anteriores, mas que fracassaram, como quando tentei colecionar a revista em formatinho da EBAL Shazam, que abandonei no sétimo número.
Em realidade, depois iniciei por definitivo a coleção da revista Heróis da TV, desta vez estrelada pelos super-heróis da norte-americana Marvel Comics, a partir de seu número 9, isto no início do ano de 1980. Eu já possuía um ou outro número da revista, como o excelente 7, que trazia uma das mais inspiradas aventuras com o Surfista Prateado lutando contra Thor. O enredo de Stan Lee era fluído e bastante reflexivo, pois pautava a noção de moral, justiça e destino. Os desenhos do agora falecido John Buscema estavam muito inspirados, tendo densidade e plasticidade, dando muita vida à aventura!
Quando eu decidi desta vez, formar uma coleção de gibi, algo ficou indelevelmente marcado na minha vida. Um amigo faleceu, com apenas 14 anos. Este mesmo amigo foi quem me apontou o no. 9 de Heróis da TV na banca-loja, quando a edição havia saído. Sempre que me recordo desta edição, me vem a capa, e a lembrança do fatídico destino, já que eu havia estabelecido fazer a coleção a partir de quando saísse o número 9 (a decisão foi pouco antes do falecimento de meu amigo).
Mas a vida continuava...eu, com meus 13 anos, embora revoltado ainda com o fato de trabalhar no bar-restaurante, continuava desenhando, e agora um universo novo me acompanhava: os desenhos, principalmente, dos quadrinhos de super-heróis, e suas miríades de estilos – pois naquela época o bom senso e a criatividade eram maiores que a homogeneização que acometeu a indústria de quadrinhos de super-heróis, principalmente na década de 1990, com seus estilos imitativos à la Jim Lee e similares, que muito me irritavam (e ainda me irritam pela homogeneidade) – mas os estilos anteriores pipocavam, como os já conhecidos de Gil Kane, Neal Adams, Jim Aparo, John e Sal Buscema, mais outros que eu começava a conhecer melhor, como o de Jim Starlin e John Byrne.
Foi a partir do no.11 de Heróis da TV, que me iniciei nas elaboração de histórias em quadrinhos do gênero heroístico. A influência do arco de aventuras era estrelado pelo super-herói Capitão Marvel, trazida pelo autor Jim Starlin (pois ele desenhava e roteirizava as histórias, fato meio incomum para as editoras do gênero).
Havia algo de místico, intrigante e muito belo nas páginas daquelas histórias em quadrinhos apocalípticas. Capitão Marvel era um extraterrestre Kree que havia se rebelado com sua raça, impedindo a invasão dela à terra, e combatia também outra raça, os Kree. Marvel, porém, só aparecia trocando de moléculas com seu amigo terrestre Rick Jones. Mas Starlin não fazia HQ de temas simples. Eram mais maduras, e coincidentemente, a primeira das maiores influências que tive nos desenhos, foi a partir da série destas histórias, tendo sido iniciada com a primeira que intitulava-se “Metamorfose” mostrando justamente uma mudança no padrão de consciência do super-herói. Starlin fez com que o personagem, através de um conflito interno deflagrado por outra entidade extraterrestre, tivesse sua consciência expandida para algo além do habitual e comum: esta mudança, a metamorfose, transformou sua mente em algo mais próximo de uma inteligência conectada ao cosmo. E isto aparecia em alguns momentos das aventuras, deflagrando uma modificação que se operava na representação gráfica de sua cabeça: o autor desenhava um espelho do cosmo na face de Marvel, como que mostrasse o momento, o insight, que o herói sentia ao acionar sua “consciência cósmica”. Eu até usei isso em meu mestrado para ilustrar uma possível semelhança desta representação de Marvel com a resultante de algum “koan”. Um “koan” é uma frase enigma sem resolução racional, utilizada pelos mestres zen-budistas para elevar a mente tridimensional de seus pupilos .
A “Metmorfose” que nomeava a série acabou metaforicamente me servindo como signo de uma nova “virada”, em que eu buscava a maturidade artística nas HQ, indo pelo caminho dos super-heróís, inaugurando uma nova etapa em minha vida.
Outra coisa que muito me influenciou na série foram os desenhos, com um estilo detalhista, porém de muita beleza nos quadrinhos, nos cenários, e até nas lutas. A mistura de misticismo, ficção científica, psicologia, e filosofia que Starlin desenvolvia podia atingir adolescentes, mas era claro que também adultos. Tanto que eu, após a leitura do arco, que se deu em 5 números da revista mensal, não havia compreendido muito bem o final. Em realidade, apesar de eu apreciar temas complexos a despeito de minha idade, o final não me foi satisfatório (mas porque eu realmente não o havia entendido em sua profundidade). Hoje em dia, revendo a série, sei que Jim Starlin colocou em evidência principal no arco um tema que é dos mais caros à humanidade: a relação do ser humano com a morte (e a vida)! E isto me é mais evidente ainda, pois durante minha “catequização” no universo das histórias em quadrinhos, Flávio Calazans, fã de Starlin, e que muito me auxiliou no descortinamento deste universo, numa de nossas conversas mencionou um padrão nos roteiros do autor norte-americano que já havia servido o exército e perdido o pai devido a alguma doença. Os padrões nos roteiros de Starlin, segundo me informou Calazans, traziam a questão da dualidade da vida e morte, e a questão da guerra como algo terrível. Além disso, a morte por câncer de Capitão Marvel, alguns anos depois, numa Graphic Novel concebida por Starlin, atestava que o autor realmente perdera seu pai pela terrível doença , que até hoje ainda é a mais grave e contundente de todas, assolando a humanidade. Assim, comprova-se mais uma vez que as histórias em quadrinhos são também formas de expressão autorais e artísticas, e até biográficas, já que muitas delas, ainda que travestidas de fantasmagorias, refletem o conteúdo psicológico de seus autores, como é o caso das obras de Starlin.
Em minha trajetória pessoal artística ainda em formação, resolvi, influenciado pela saga de Starlin, realizar minha versão da Metamorfose de Capitão Marvel. Usando sulfite, frente e verso no formato horizontal, esbocei a lápis a minha versão da história em quadrinhos. Foi a primeira vez que tentara algo assim, criando uma HQ inteira, de 20 páginas, em que situei também monstros gigantescos, ainda sob a influencia dos dinossauros e filmes e seriados japoneses, como Godzilla e Ultra-Seven.
Esta etapa da minha vida estava já selada, e não havia volta. Outros momentos me influenciaram, como os próprios X-Men, que acabei conhecendo melhor a partir do Almanaque Marvel publicado pela RGE. Um outro amigo de infância e de escola, Baturité, havia me trazido alguns números do Almanaque Marvel (aquele mesmo que, alguns números antes, eu havia visto na banca e me surpreendido com os homens-X). Mas a influência maior foi quando adquiri pela primeira vez uma edição original norte-americana dos X-Men: eu, então com 14 anos, nem sabia inglês, tendo ficado espantado com os desenhos. Aos poucos fui reconhecendo e logo me apaixonando pelo estilo de John Byrne, o que me influenciou em muito para tentar desenhar similarmente os traços que muito me agradavam (incluindo a arte final de Terry Austin). Tomado por aquela ânsia, resolvi entrar numa escola de inglês, para poder ler o material importado que começava a adquirir, concomitantemente aos traduzidos aqui.
Relendo aquela edição 143 original dos X-Men, e comparando com as saladas atuais, percebi que havia um cuidado maior na elaboração das aventuras (que na época eram escritas por Chris Claremont), em contrapartida à mixórdia da atualidade, muitas vezes com roteiros elaborados apressadamente e desenhistas novatos com ânsia em colocar seus personagens em poses espalhafatosas e sem alma. A indústria da atualidade correu e piorou, em meu conceito, afastando uma seriedade maior na elaboração das HQ de ritmo comercial, apesar de que eram feitas igualmente como entretenimento. Os leitores que têm dúvidas quanto ao que menciono, que leiam os antigos (originais, de preferência, em que os textos bem construídos e poéticos de Claremont podiam ser apreciados em sua integridade), e comparem com os recentes (é claro que dos recentes ainda há os de alta qualidade, mas a proporção é bem menor). Parece que a imposição da questão capitalista subjugou, sub-repticiamente a vontade humana em se buscar o melhor, em detrimento à fama rápida, insossa e barata. Os autores atuais têm pressa, como a própria indústria de consumo, acelerando a entropia e diminuindo a reflexão, portanto, a qualidade, que é colocada em segundo plano. E isto, a meu ver, não só nos quadrinhos, mas em todas as coisas e criações humanas...
Para finalizar e comprovar esta parte de minha narrativa, menciono o personagem Destrutor, irmão de Cyclops, que, como eu disse em texto anterior, possuía uma das mais belas e intrigantes vestimentas: sua veste negra com círculos concêntricos no peito, mais a máscara meio egípcia prateada, tinha uma função específica. Seu poder era o de concentrar energia e espargi-la de forma destruidora. Mas o personagem era instável e não sabia como lidar com isso. Assim, a veste trazendo círculos concêntricos, auxiliavam-no a concentrar as energias, focá-las e só liberá-las se necessário, além de terem alvos especificados. Sem a veste, seu poder era indomável. Dessa forma, instintiva e intuitivamente, os criadores do personagem acertaram na questão: para Carl Gustav Jung, as mandalas são instrumentos poderosos no trabalho de equilíbrio psíquico. Ora, para Destrutor, as mandalas já desenhadas em seu peito, tinham a mesma especificidade.
Neal Adams fazia o personagem de uma forma bem interessante: como a roupa era negra, a musculatura anatômica se delineava de acordo com o ângulo que o personagem era desenhado. Assim, os olhos do apreciador dos desenhos, percorria as linhas do corpo de Destrutor, adivinhando onde estava um músculo que se “escondia” em outro, já que a “roupa” dele não deixava aprecerem as linhas da musculatura, dependendo, obviamente, do ângulo em que o personagem era desenhado. Outra coisa bem interessante eram os círculos concêntricos: eles não mudavam de perspectiva, e ainda cresciam e se ampliavam, dependendo da utilização energética de Destrutor.
Porém, as gerações atuais não parecem ter compreendido isso. Primeiramente transformaram o X-Man num rapazola mais inconsciente ainda, e depois retiraram a máscara de seu rosto. E atualmente ainda mudaram um pouco suas vestes, colocando um jaleco em sua roupa. Não estou sendo nostálgico ou irredutível quanto às mudanças e atualizações, mas estas podem (e devem) ser feitas quando há necessidades, e com bases de conhecimento.
Infelizmente não é o que parece percorrer a maioria dos autores de HQ de super-heróis na atualidade.
Enfim, ainda há mais por vir...

1- Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP ,doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.
2- Para acessar minha dissertação de mestrado, vá em http://www.biblioteca.unesp.br/bibliotecadigital/ e digite meu nome no espaço de busca.
3- Veja a respeito na entrevista com J. Starlin no site http://www.universohq.com/quadrinhos/entrevista_starlin_pt01.cfm

15 de janeiro de 2007

 


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