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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência – III

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Na minha saga com os quadrinhos, a força do desenho da figura humana e dos super-heróis na adolescência teve efeito realmente moldador de minha consciência.
Isto, associado ao fato de eu ter trabalhado no bar-restaurante comercial de meu pai, principalmente naquele período (durou dos meus 8 aos 14 anos), fez-me forçosamente sentir uma necessidade de resgate de minha alma-essência: ou seja, toda aquela vida que eu estava vivendo, em que muito eu não compreendia e não gostava, eu transmutava na leitura e na produção artística.
Na fase dos 13 anos em diante, como narrei anteriormente, a influência dos desenhos de vários artistas me alimentaram mais ainda o desejo de desenhar. Havia uma necessidade crescente em reproduzir os estilos de alguns, mas com desenhos criados por mim, utilizando alguns dos personagens, como Capitão Marvel, Batman e X-Men. Mas eu não gostava de copiar os desenhos e sim, criar reproduzindo os estilos de memória... dava-me prazer folhear algumas HQ com desenhos que eu apreciava muito. Era similar à vontade de se ouvir determinadas músicas repetidamente, simplesmente porque estas traziam, como disse Steve Pinker em seu livro "Como a Mente Funciona", coquetéis de prazer que aparentemente não teriam nenhuma função racional à vida humana... exceto, como arrematou o pesquisador, o de favorecer simplesmente a fruição do prazer aos sentidos!
Ora, nunca li em livro, em artigo, dissertação ou tese alguma, de uma forma pormenorizada e científica, a respeito do prazer que os desenhos dão ao ser humano. Menos ainda no que se refere aos desenhos de histórias em quadrinhos e a influência nas mentes juvenis, e suas vontades de desenhar, repetindo os estilos de traços que os olhos admiram nas páginas... só consegui encontrar a respeito da música e da sua influência nas mentes. Mas hoje em dia, a tomografia computadorizada é utilizada em larga escala para demonstrar como o cérebro e seus hemisférios funcionam durante o ato de pensar, de ouvir música, de dormir, de rezar, etc. No entanto, ainda não foi realizado experimento, que eu saiba oficialmente, acerca de alguma pesquisa com leitores de desenhos, no caso, de imagens de histórias em quadrinhos (excetuando-se uma possível pesquisa realizada pelo governo norte americano, segundo o que relata o autor britânico Alan Moore no livro "Argumentos", uma edição portuguesa de 2002).
Parece que a ciência ignora o óbvio... mas aquele óbvio que assombra a mente humana e não tem respostas... a ciência, então, ignora o que claramente vem à mente daqueles que apreciam a arte dos traços, pois a tal da ciência objetiva, decerto, deve achar de somenos importância tal arte, por serem desenhos: coisas infantis, sem influências maiores... aquele preconceito que apontei em minha recente tese de doutorado, pois que está associado ao fonema e à palavra racional, em detrimento da subjetividade e da expressão artística como parte integrante do homem – este ser, que não é bem o que nos ensinavam nas escolas: um mero “animal racional”! Ledo (e grave) engano cartesiano: o homem é animal, é racional, mas é também, como Edgar Morin diz, emocional, e cósmico até: demens além de sapiens! Ou como enfatiza Leonardo Boff, o homo sapiens sapiens é também duas vezes também homo demens demens. É tudo isso e além...
Quando eu era adolescente, em meus 13, 14 e 15 anos, descobri o rock de vez. O heavy metal e o progressive rock... foram alavancas da minha continuidade criativa. Algo havia naqueles estilos sonoros que me faziam abrir certos canais na mente, ensejando-me visões, momentum-quânticos de ações filosóficas e místicas em que cenas me vinham... e eu precisava colocá-las no papel. Mas ainda eu não atinava tão bem assim de como isto se dava e à sua importância. Eu ia sentindo, e fazendo!
Na fase inicial, naqueles anos da adolescência, em meio ao crescimento de meu corpo e da expansão de meus hormônios, a vida criativa me puxava, em oposição a todo o esquema enjaulador do sistema mediano materialista educacional, que teimava em aprisionar a mente de cada um de nós... embora quase ninguém percebesse isso conscientemente.
A música, o rock, que é fruto mixado desde os libelos iniciados pelos cantos gregorianos antigos à música erudita clássica, depois aos cânticos dos negros da América do Norte (gospels em sua origem), foi se formatando como o rock´n´roll primevo, e depois singrando com Elvis the pelvis e utilizando a música oriental e o início dos discos conceituais a partir dos Beatles ... daí vieram as gamas variadas de sons “viajantes”, delirantes, psicodélicos, desde Yes, cujas capas imagéticas transportavam cada um dos ouvintes aos universos a que remetiam, provindos da mente de Roger Dean, indo ao Queen, e seus discos que flertavam com a ópera e o clássico (junto ao rock puro e até o heavy metal com a guitarra única de Brian May e voz especialíssima de Freddie Mercury)... e então o Genesis e as apresentações apoteóticas e teatrais de Peter Gabriel, com músicas de mais de dez minutos, com seus altos e baixos, assim como são as várias composições dos mestres clássicos... Pink Floyd e sua ousadia em Ummaguma, e depois Dark Side of the Moon, culminando em The Wall, que virou filme (e trechos de animação), num libelo da súplica pela libertação de uma mente atormentada devido ao colapso do sistema (inúmeros relatos de amigas me esclareciam que as músicas de Pink Floyd as deixavam com um sentimento de tristeza e de depressão)...
E assim, continuou... Iron Maiden em seus três discos inaugurais, recriando o universo “pesado” de Black Sabbath... mas indo além com alegorias, fantasias e viagens históricas e/ou imaginárias... tudo isso respaldado pelas pesquisas científicas acerca da mente e seus limites (Thimoty Leary) e os livros de ficção científica de Isaac Asimov, como também do lirismo de um Ray Bradbury e dos quadrinhos psicodélicos de autores americanos, europeus e brasileiros, bradando contra a cultura estabelecida... clamando pela libertação das mentes, que se sentiam (e ainda se sentem?) aprisionadas num sistema que não conseguia “alimentar” todas as matizes de que ela precisava para viver e se manifestar.
Assim, eu tinha entre meus 13 e 15 anos quando fui descobrindo sem perceber, esta associação de música e imagem...
Num próximo segmento a este texto, voltarei enfim, após este momento interlúdico*, aos quadrinhos desta fase, expondo algumas edições necessárias, alguns autores preponderantes, e minha crescente marcha no desenho (ainda ao som de muita música...).

* neologismo que acabei de inventar, somando a palavra interlúdio à lúdico.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

19 de fevereiro de 2007

 


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