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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência – IV

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Quando viajava durante as férias escolares, para Minas Gerais, à cidade que eu havia nascido, Ituiutaba, havia na casa de meus primos um cômodo abarrotado de revistas. Nele, muitos gibis restavam: tanto de humor, como outros dos anos 1970, como os endereçados aos espíritos libertários, os underground (Patota, Eureka, O Bicho etc)... Porém, na idade que eu tinha à época, mergulhei mais ainda nos saudosos da EBAL, especialmente, e nos de terror da extinta e agora cultuada revista Krypta, editada pela RGE!
Ao mesmo tempo em que meu primo ia me mostrando os novos discos de Queen, ou então outros conjuntos contemporâneos a ele, vi na capa de um destes, um desenho simbólico e um logotipo com os dizeres “Iron Maiden”, que muito me impactou. As músicas pareciam marchas de guerra, ou então levavam a portões de passagens fantásticas, épicas, que muito se coadunavam com os roteiros de quadrinhos fantásticos, tanto de super-heróis, como dos da revista Krypta, a qual trazia HQ de terror, mas também de FC, além de dramáticas, ou filosóficas e existencialistas, como as fenomenais e sensíveis histórias em quadrinhos “Papai e o Pi” e “O Pi e eu”, que contavam a história de um extraterrestre batizado de Pi, por ter conseguido se comunicar desenhando o número 3,1415...naquela primeira excelente HQ, o gigante Pi se tornou amigo de um fazendeiro e seu filho. Mas o preconceito das pessoas de uma pequena cidade próxima, porém, levaram o fazendeiro à morte, e a um conseqüente amor fraterno que se ampliou após o fatídico fato, entre o menino órfão e o extraterrestre.
Além destes tipos de histórias, cujos desenhos em preto e branco e vários tons de aguada de nanquim, eu continuava a associar as imagens à musicalidade de bandas como Nazareth, Iron Maiden, Uriah Heep e Pink Floyd... Eu pegava as edições da EBAL, sentava-me na sala, e ao som, principalmente do heavy metal (e às vezes até de um Prokofiev e seu “Battle on the Ice”) criava meu cinema, lendo aventuras de heroísmo, força, moral e ética...absorvendo as notas musicais e as freqüências grafadas impressas naquelas revistas...a mistura, decerto, me embrenhou cada vez mais na aura e no fascínio da imaginação, expandindo minha mente! Decerto muito do cinema fantástico foi assim criado por diretores que bebiam de fontes similares, e que possuíam gostos parecidos.
Mas quero mencionar, neste capítulo, a leitura que eu tinha da revista Krypta, cuja arte e histórias maduras muito me estimularam a imaginação, graças, principalmente, aos desenhos excelentes e incomparáveis de seus autores estrangeiros, sendo muitos de origem latina.
Os traços “arranhados” dos desenhos de Jose Ortiz, por exemplo, num preto e branco de bico de pena e aguada, maravilhosos, não mostravam apenas terror e horror. Em meio a isto, havia esperança, comoção e alento, como quando numa HQ de Budd Lewis e Ortiz, da série “Apocalipse”, duas crianças surgiam ao final, brincando com um bambolê, e sua energia-amor subvertia a força da morte, vencendo a ela e aos outros três “cavaleiros” do apocalipse.
Outra história, esta elaborada por Jose Bea, “A Flor maldita”, vim a descobrir depois, deriva de uma lenda espanhola na qual existe uma flor que desabrocha uma única vez no ano. Àquele que a encontrasse, teria realizados os desejos através do aparecimento de pequenos demoninhos, servos que trabalhariam como escravos incansáveis e disciplinados... Mas havia um problema! Caso os trabalhos acabassem, os demônios perguntariam três vezes o que mais teriam a fazer... Se não houvesse resposta, seriam os algozes do seu amo.
A história me fez pensar: a espécie humana é egoísta. Se o personagem da história, ao menos, tivesse pensado em outros trabalhos humanitários, após ter feito os seres ararem suas próprias terras egoisticamente, os seres terríveis teriam muito trabalho ainda pela frente, consertando a vida de cada um dos habitantes do planeta! Mas como ele não pensou nisso, os demônios, após terminarem todos os serviços que ele pedira, acabaram com sua vida.
Voltando à arte preto e branco e cinza destas histórias em quadrinhos, os desenhos muito me encantaram, como a arte fantástica do próprio Jose Bea ou Jose Ortiz, além de Esteban Maroto, Richard Corben, Berni Wrightson e Neal Adams. Os três últimos também eram colaboradores das editoras norte-americanas de super-heróis. Porém, o trabalho deles no preto e branco e aguada era muito superior do que quando publicavam nas revistas de super-heróis, já que mais autoral.
De Wrightson, por exemplo, destaco a soturna HQ “Ar frio”, em que um cidadão com uma doença rara, não podia se expor à temperatura ambiente, e sim ao frio, numa história instigante e de muito suspense.
Outra história, esta de cunho filosófico, “Compulsão para matar”, roteirizada por Jim Stenstrum e magistralmente executada nos desenhos de Neal Adams, traz um reflexo da sociedade norte-americana: o psicótico, ou psicopata franco-atirador. Porém, um cidadão com desvios não plenamente por sua culpa, já que na história, a narrativa deixa claro que quando criança era freqüentemente espancado por seu pai. Assim, quando adulto, resolve matar pessoas do alto de um prédio: nove ao todo. E por fim, se mata com um último tiro. Segundo o roteiro, a mente do personagem cria que o inferno se encontrava na vida, e dessa forma, em sua concepção, ele pensa ter agido heroisticamente ao levar algumas pessoas consigo, crendo que as ajudara a se livrarem do fardo dessa trágica existência. É uma HQ pesada, perigosa, mas ao mesmo tempo, que nos faz refletir sobre o porque da violência e o porque da sociedade não conseguir suplantar seus terrores, além de nos fazer inquirir quais os limites da mente humana e ao que ela pode suportar.
Para não finalizar este texto com o sentimento de agrura da HQ anterior, exponho uma última história, das muitas que minha memória registrou como impactantes: ”Era uma vez um milagre” roteirizada por Bill Dubay e desenhada pelo extraordinário José Ortiz. Foi publicada no número 54 da revista, que durou até o número 60, infelizmente. Porém, esta fase já apresentava a revista em formatinho, sendo que inicialmente ela era em tamanho maior, o que veio a prejudicar consistentemente a apreciação dos desenhos, seja pelo tamanho reduzido das páginas, bem como pelos balões “espremerem” áreas maiores dos desenhos.
Pois bem, na história em questão, uma senhora idosa vigia um presépio de uma igreja que, durante a época do natal, ela vê ocorrer um embate entre diminutos demônios e anjos. Quando ocorre a pequena batalha - em 5 páginas visualmente mudas - ela auxilia na vitória dos anjos. Ao fim, o padre, estupefato a vê levar a réplica, que se transmutara em uma criança viva. É uma história que põe em pauta o triunfo do amor, da vida, em oposição ao mal, à morte, trazendo a possibilidade do milagre, como esperança derradeira para qualquer problema, simbolicamente: pois a estranha senhora havia perdido sua criança há muitos anos atrás, resgatando agora uma nova chama de esperança.
Enfim, esta fase foi importante para a minha formação da adolescência, pois, enquanto eu lia super-heróis e humor, também apreciava estas histórias mais sérias, mais adultas e de desenhos insuperáveis até hoje.
Há na revista Krypta muitas histórias em quadrinhos de vários temas, indo da ficção científica à fantasia total, que também poderia comentar.
Mas creio já ser suficiente, por ora.
Tal influência em minha psique se mantém, ao mesmo tempo em que me mostra que a criatividade do ser humano é inesgotável. Tenho, para com aqueles autores, uma grande estima por seus trabalhos artísticos, e um sentimento de que, mais uma vez, a arte, no caso daqueles quadrinhos, os quais vez ou outra eu ainda releio, também foram de suma importância para minha formação ética e estética.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

24 de março de 2007

 


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