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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência – V

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Apesar de já ter escrito algumas passagens acerca da influência que as revistas de super-heróis exerceram em minha psique enquanto era adolescente, creio que há passagens que ainda merecem ser relatadas, não necessariamente em relação a esse gênero, e sim ao humor fino, pois trazem fatos e momentos que mostram como o gregarismo humano é necessário, e mais ainda o ambiente familiar. Principalmente porque, embora eu tenha vivido minha adolescência na maior parte do tempo em São Vicente, no litoral paulista (onde resido até hoje, em 2007), tendo consecutivamente adquirido quadrinhos, alguns dos momentos mais instigantes e marcantes se deram mesmo, no ambiente da casa de meus tios em Ituiutaba, Minas Gerais (cidade em que nasci), durante as férias escolares. Como já narrei anteriormente, na casa deles havia um pequeno cômodo abarrotado principalmente de “gibis”, sendo que basicamente a metade era de super-heróis, e a outra metade do gênero de humor (ou “cômico”), dentre os mais variados, como Recruta Zero, Disney, Mônica, mas também personagens como Zé do Boné , O Mago de Id e muitos outros, espalhados em revistas próprias ou em edições como no formatão do “Gibi” da Rio Gráfica editora, ou “Eureka” , da Vecchi, e ainda a “Patota” da Artenova A gama variada destes quadrinhos impagáveis e de finíssimo e inteligente humor me fez, decerto, ampliar as modalidades sinápticas de meu cérebro, pois que ele se embebia de tiradas e gags, tanto visuais (imagéticas), como textuais, já que os seus autores têm uma mente afiada para o mais fino humor, incluindo trocadilhos – tanto visuais, como nas falas: lembrando Iznogud, Lucky Lucke e Asterix, escritos em sua maioria por Goscinny, autor francês já falecido, e de uma inteligência peculiar e única. Mas naquelas revistas, havia outros autores como Mell Lazarus (Mãi...ê ou Manhê, dependendo da tradução), Johnny Hart (B.C. e Mago de Id), Phil Krohn (Rua da Alegria), Canini (Dr. Fraud) e uma infinidade de mentes criativas que me punham no mais puro prazer visual e intelectual.
Acredito até que, não só estas leituras estimularam minha inteligência, como assim também os desenhos e as expressões humanas, caricaturais ou não, neles retratadas, como por exemplo, os personagens de Henfil, em Fradim , com seus traços totalmente fluídos e bem no estilo deflagrado pelo hemisfério direito do cérebro (como já foi especificado em relação a Baudoin , autor francês de traços não caricaturais, mas também soltos, em um site na Internet de pesquisa acerca das BDs, ou Bande Dessinées, como são conhecidas as HQ, ou histórias em quadrinhos, na França: http://perso.orange.fr/jjblain/cbfiches/a82baudoin/artbaudoin.htm).
Em realidade, nunca me deparei com alguma pesquisa acadêmica científica acerca da influência que o desenho na expressão humana, em especial, aquele relacionado ao corpo e às expressões faciais dos personagens de HQ e tiras em quadrinhos, possa ter no reconhecimento e aprendizado pela criança no que concerne ao seu entendimento e influência em cada estado expressivo, como a tristeza, a alegria, a raiva, o estupor, a indignação... Todas facetas que aparecem no dia-a-dia, mas que também se reforçam nas HQ, nas tiras (e nos desenhos animados: mas nestes últimos a visualização é mais rápida devido à passagem temporal do vídeo, enquanto que nas revistas o olhar infantil pode permanecer por mais tempo).
Aparentemente, a criança vai aprendendo e reforçando suas atuações através da mimese, e isso explica algumas fases recorrentes que acabam por desaparecer após um curto tempo (como a gagueira, por exemplo, ou a imitação de alguém).
Mas acredito que ao ler histórias em quadrinhos de humor, o olhar infantil e infanto-juvenil vai se “embebendo” de informações visuais oriundas dos desenhos, que por sua vez são realizados por autores que têm sua inteligência ambi-hemisferial bem desenvolvida, graças à experiência do desenho:


“O Professor Denier Van Der Gon demonstrou, apoiando-se em medições eletrônicas dos movimentos ascendentes e descendentes da mão, que os músculos e nervos do artista executam, maquinalmente, as ordens de seu cérebro. Talvez até existam nele matrizes parcialmente registradas. Logo, ao desenhar ou pintar espontaneamente a imagem que está na sua memória ou fantasia, o artista converte-a em impulsos que dirigem sua mão, livres de quaisquer outra influências”. (TREVISAN, Armindo. Como apreciar a arte. Porto Alegre: Ed. AGE, 2002, p. 38-39)

Igualmente, os chamados “cartunistas”, que produzem charges, cartuns e histórias em quadrinhos, conseguem ter um poder de síntese que se reflete nos desenhos. Esta síntese é resultante de uma mescla cognitiva entre os hemisférios cerebrais esquerdo (o da razão) e direito (o da intuição e criatividade), que se desenvolve melhor quando alia-se às informações racionais, o aspecto criativo, que muito pouco é utilizado na educação tradicional (por isso se percebe que, geralmente, os desenhistas são inteligentes de uma forma sagaz e sintética, criando elipses nas falas e nas artes).
Os traços sintéticos, por exemplo, de Henfil, seriam o resultado desta visão sistêmica que sua mente tinha, tal qual se relata acerca do francês Baudoin:


Edmond Baudoin é um artista muito "cérebro direito", exprimindo-se de modo muito sintético. Como se sabe, a espontaneidade aparente é uma fruição, que surge após muito ser pensado. (http://perso.orange.fr/jjblain/cbfiches/a82baudoin/artbaudoin.htm)

Assim, não se é de espantar que os trabalhos dos autores de quadrinhos de humor atraiam tanto a atenção das pessoas, e que possam auxiliar no desenvolvimento da sagacidade infantil e infanto-juvenil, tornando possível que esses jovens leitores possam reconhecer os estados de humor das pessoas com mais acuidade e atenção, simplesmente porque leram (ou lêem) as histórias de quadrinhos de humor, despertando também seu senso de humor e mesmo sua sensibilidade para a compaixão, já que o trágico também caminha com o humor (vide a vida “existencial” do menino Charlie Brown, da série criada por Schulz).
Dessa forma, ainda hoje, quando leio esse material, me comovo sobremaneira com as expressões dos personagens, como os fatídicos recruta Zero de Mort Walker, ou Hagar, de Dick Browne, e ainda o “tom” visual de imbecilidade aparente dos personagens da série Tumbleweeds (“Kid Farofa”, quando publicada na revista “Patota”) , de Tom Ryan, ou ainda as atualmente hilárias “viagens” das personagens do quadrinhista e veterinário Fernando Gonsales: seu rato Níquel Náusea e a baratinha Fliti.
Com certeza absoluta, meu conhecimento acerca das fases de humor que as pessoas expressam vêm muito desse meu aprendizado cognitivo-visual das leituras dos quadrinhos cômicos que tanto bem me fizeram, e ainda me fazem, até hoje.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP ,doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

25 de abril de 2007

 


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