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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência – VI

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Certas audições de músicas nos fazem querer cada vez mais escutá-las repetidamente. Há um prazer que nos induz a querer retomar a audição, como se não pudéssemos evitar. É similar a quando temos o sentimento de saudade de alguém que gostamos e que temos muita afinidade. Como, por exemplo, uma sobrinha entre seus 3 e 4 anos, de olhar curioso e sorrisos perenes, e de uma criatividade enfática. Brincando com uma criança assim, nos apegamos, e quando longe dela, logo desejamos revê-la, num misto de sofrimento e prazer, por relembrar os momentos, mas não os tê-los...enquanto aspiramos ao reencontro o mais breve possível.
Poucas vezes li acerca de pesquisas relacionadas a isso. Steven Pinker arriscou que a música tem a função única de nos proporcionar prazer, e isto bastaria para explicar nossa relação com ela e sua existência que, segundo Pinker, do ponto de vista racional e objetivo, seria inútil.
Lembro-me de minha relação com os desenhos, em especial das formas dos corpanzis dos dinossauros. Na minha infância eu via beleza neles, e queria reproduzi-los, pois eu tinha necessidade disso!
Depois, na adolescência, conforme fui me apegando às histórias em quadrinhos de super-heróis, minhas paixões pelos traços, ainda que me encafifassem, me obrigavam antes de tudo a realizar meus desejos de desenhá-los.
Eu batia os olhos nas artes de autores como por exemplo, Jim Aparo, cujas capas reproduzidas em edições nas revistas da EBAL eram de extrema beleza e plasticidade, e logo absorvia o conteúdo interno das figuras humanas que ele fazia, tanto as masculinas como as femininas. Principalmente a esguia figura de Batman, em vários ângulos que destacavam seu uniforme e sua capa, quase sempre esvoaçante.
Tais desenhos, de alguma forma, exerciam uma enigmática atração em meu ser, e assim que acabava a leitura, procedia a uma outra, desta vez mais detalhada especificamente nos desenhos.
Depois, ao fechar a revista, não se passavam nem alguns segundos, minha mente desejava desenhar figuras humanas em ação, e super-heróis, como o Batman, mas no mesmo estilo do desenhista. Eu não gostava de copiar, então procedia a desenhar de memória várias vezes, ora em quadrinhos, ora apenas as figuras, como se fossem ilustrações soltas. Os traços que eu vertia, intentava que fossem, a todo custo, no estilo pessoal do desenhista.
A fase do Jim Aparo permaneceu um bom tempo, para dar lugar a de John Byrne, principalmente na fase dos X-Men. O estilo do desenhista dava tamanha vontade em representar suas figuras, que eu não me satisfazia enquanto não desenhasse inúmeras vezes até esgotar a vontade, ora experimentando heróis como Ciclope e Anjo, ora Destrutor (com sua roupa preta) ou Homem-de-Gelo, que me deleitava mais ainda em reproduzir, devido às angulosidades de suas feições e “pele”, já que eram de gelo, similares, portanto, a blocos de vidro.
Depois, me veio a fase de me apaixonar pelo estilo de Neal Adams, o qual gosto até hoje.
Os ângulos e escorços mais difíceis e criativos que ele fazia, suscitavam em minha mente prazeres e deleites em visualizar cada cena em ângulos distintos, de cada quadrinho, apreciando a página inteira, como uma obra de arte.
Uma das capas mais sensacionais e belas que já vi, é a que traz Batman desmaiado sem a capa, no deserto, como se tivesse sido vencido em um duelo de espadas pelo vilão Râ-s Al Ghul. A imagem deste, de pé, severo, de corpo apenas atlético, sem os exageros dos desenhos da meninada de hoje em dia, mais os camelos à direita num fundo celeste laranja, aliado ao primoroso (e melhor) dos logotipos já utilizados como título da revista, passava uma sensação de “filme”, de algo “nobre”, de que o que “aconteceu” e iria “acontecer” no interior da revista, seria do mais incrível acontecimento, e da mais bela arte.
É impressionante como essas ondas visuais dos traços, dos grafismos, perpassam-nos um deleite visual, um gosto, uma vontade de desenhar de forma parecida, que aparentemente não tem explicação coerente.
Mas, o mais incrível é, como até hoje não se vê pesquisas, trabalhos, debates, enfim, quaisquer modalidades de indagações acerca deste gosto estético, que parece não ter explicação racional alguma: por que eu gosto de ver desenhos, e estes me incitam a reproduzi-los, ainda mais em um estilo similar?
Estas questões me seguiram a adolescência inteira, e até hoje, e, embora eu tenha algumas conjecturas a respeito, prefiro deixar ao leitor que pense sobre o assunto, até o próximo texto.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP, Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

23 de maio de 2007

 


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