instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Adolescência – VII

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Voltando à questão da fruição que se obtém ao apreciarmos desenhos, e em especial os das histórias em quadrinhos, me vem que, não só eles são o chamariz, mas sim, a própria estrutura das páginas das HQ com várias cenas desenhadas.
Em cada uma das cenas, limitadas geralmente pelos requadros (as linhas que delimitam os quadrinhos) aparecem partes do todo, fractais, seqüencialmente, com um estilo único de cada autor, perfazendo uma colcha de retalhos sui generis que alimenta o imagético mental na leitura pan-visual, cuja interface é um cruzamento do texto com a imagem. No processamento da leitura, absorve-se a arte e imagina-se como seria o restante que não aparece em cada cena desenhada (de cada imagem dentro de cada quadrinho). E a cada página lida, imagina-se como aparecerão as próximas cenas, os próximos desenhos, como estarão representados os ângulos e os personagens (ainda mais se são de super-heróis ou temáticas fantásticas, com suas vestes e cenários diferentes e suntuosos), e as cores (se estas existem). A visualização de uma página de HQ apaixona tanto o leitor mirim como o adolescente e o adulto, porque há vários desenhos que perfazem uma organização “caótica” que faz sentido visualmente num inteiro: as metonímias pelo todo.
Foi assim que na infância me vislumbrei com as páginas recheadas de quadrinhos dos personagens Mortadelo e Salaminho, nos traços caricaturais e ricos de seu autor, F. Ibanez. E depois, na adolescência, com a riqueza gráfica de traços clássicos, mas estilizados, dos super-heróis.
Esta apreciação de ver os desenhos parece inata no ser humano, embora também seja possível perdê-la. Percebi que a maioria das pessoas, por causa da educação que privilegia a escrita em detrimento da imagem desenhada, acaba nem percebendo que poderia gostar de ver desenhos, como acontece naturalmente na audição de músicas.
Pois não é o mesmo o que ocorre na audição de uma música? Ouve-se o som inicial e vai-se fruindo com ela, imaginando-se como se dará a continuidade, e muitas vezes surpreendendo-se com a seqüencialização...formatando-a mentalmente do caos separado e compassado que se forma na mente após a audição total. Daí vem a vontade de se ouví-la novamente, repetidamente até quase à exaustão, como se fosse um vício (refiro-me às músicas que cada um elege como “belas” de acordo com seu gosto pessoal, que tem a ver com a cultura e com aspectos de sua vivência pessoal, mas que também deve ter a ver com freqüências sonoras e cerebrais).
Dessa forma, meu gosto pelos desenhos, inicialmente caricaturais, passou para os de traços ditos “realistas” clássicos, como os dos super-heróis. Influenciei-me por Jim Aparo (em Batman), numa riqueza plástica em que o desenhista, tal como Neal Adams (que vim a apreciar bem depois), não repetia os ângulos, e modificava os eixos, dando mais movimentação às cenas dos quadrinhos. Jim Starlin, minha em Capitão Marvel, primeira influência , também me fez recriar a epopéia do Capitão Marvel (como escrevi no texto História em quadrinhos, imagética e adolescência – II). Mas misturei ao estilo, depois, Jim Aparo, na HQ em que matei Batman . Depois veio John Byrne, com os X-Men, cujos traços me apaixonei à primeira vista . Daí, com a Legião de Super-Heróis, misturei Keith Giffen a John Byrne (e ao final, inseri o estilo de Neal Adams), tendo sido minha melhor forma . Meus traços estavam quase “adultos” e “profissionais”. Mas ainda só à lápis. Geralmente eu lia uma revista e absorvia à primeira lida a HQ e os desenhos, para depois ir revendo detalhadamente os traços dos desenhos, e elegendo os desenhistas cujos estilos mais me agradavam. Não gostava de Jack Kirby e Carmine Infantino (este último tem um estilo em que faz as pessoas “testudas” e meio “achatadas” e nunca gostei, exceto em sua arte de preto e branco, mais elaborada, como quando suas HQ saíam nas revistas Krypta).
Mas sempre refleti sobre isso: que culpa tem o desenhista se aquele é seu estilo, que lhe foi forjado? E como é que cada estilo é forjado? Tem a ver com quesitos culturais, e/ou o cérebro? E mais: como é que os traços “apaixonam” os olhos do leitor? Que força é essa (e na música também) que faz com que gostemos dos desenhos e desejemos vê-los e revê-los, e depois tentemos reproduzi-los?
Eu não gostava de copiar os desenhos, mas sim, os estilos. Ou seja: após muitas “olhadas” nas artes, eu fechava o gibi e começava a desenhar compulsoriamente tentando repetir o estilo de determinado artista, com base na minha memória visual. E acabava conseguindo. Provavelmente o mesmo se dá com os aspirantes a músicos.
O interessante é que consegui uma analogia deste entusiasmo pelo desenho e pela música e a paixão em si mesma por alguma pessoa: quando eu tinha 10 anos de idade, me apaixonei à primeira vista. Isso existe, mas no caso, foi na infância. Ao olhar para uma menina da escola, fui tomado por uma paixão incrível, em que ao ver seu rosto, imediatamente me senti tomado e “apaixonado”, arrebatado! Hoje em dia vejo/sinto isso como quando escutamos uma música ou vemos um desenho os quais sentimos paixão “à primeira vista!”.
Mas também descobri que as paixões podem se esgotar em si mesmas entropicamente: algumas músicas e estilos de desenhos que vi e gostei logo de início acabaram se consumindo de tal forma que, ao contrário, nada mais sinto. Talvez tenha alguns detalhes a se observar: como exemplo, o estilo dos traços do quadrinhista canadense John Byrne. Na fase áurea dos X-Men, com arte-final de Terry Austin, eu adorava os desenhos (uma boa parte se devia à arte-final de Austin, também). Com o passar do tempo, fui enjoando. Porém, algumas fases de Byrne têm diferenças: no início de sua carreira os desenhos já traziam seu estilo, mas ainda inicial e não tão bons. No ápice, dependendo dos arte-finalistas (os que colocam nanquim preto nos traços à lápis), sua arte era mais vigorosa. Porém, atualmente, seu estilo se modificou um pouco (o que é natural), ficando mais enjoativo ainda.
Fato contrário me ocorreu em dois outros casos: com Neal Adams, acabei gostando bem depois, embora já conhecesse sua arte. Mas creio não ter prestado atenção direito, porque seu trabalho é ainda mais adulto que os outros. Hoje em dia, jamais enjôo de seu trabalho, o mesmo se dando com Jack Kirby, cujos traços não me agradavam quando adolescente. A música de Led Zeppelin, com “Stairway to heaven”, por exemplo, embora batida, até hoje me agrada. “Bohemian Rapsody” do grupo Queen é incansável. Os três primeiros discos de Iron Maiden (principalmente os dois iniciais) são inesgotáveis: o segundo, por exemplo, “Killers”, demorei para gostar, e hoje vejo que é o melhor de todos. Já os atuais, vêm belos à primeira vista, e logo cansam.
Isto requer um estudo científico com outras bases, mas creio que por hora serve para pensarmos e refletirmos sobre todo o restante de coisas e fatos que nos acometem na vida, seja aqueles que gostemos ou não.
Esta fase de minha adolescência foi muito pontuada por estas reflexões, e pela magnânima influência dos traços de desenhos do gênero super-heroístico, que hoje em dia, por ter mais bases e conhecimento, passo a tecer algumas considerações mais hipotéticas, como estas poucas que aqui fiz.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP, Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

17 de junho de 2007

 


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