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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Fim da Adolescência – VIII

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Findando a adolescência.
Entrando a fase adulta!
Meus desenhos na forma de história em quadrinhos foram gradativamente parando ao final de meus 16 e 17 anos, no período escolar do que era conhecido como ”colegial”.
Eu continuava a desenhar, porém menos. A última HQ que fiz naquela época, foi a da Legião de Super-Heróis (da qual duas páginas foram mostradas no texto anterior), em que inicialmente imitava o estilo de John Byrne e Keith Giffen, sendo que nas páginas finais, que fui retomar tempos depois, tinha clara influência de Neal Adams. Mas a HQ, embora retomada, parou na página de no.18, ou seja, não cheguei a finalizá-la, pois em geral eu acabava na de no. 20.
Mas nesse ínterim, dos meus 15 aos 17 anos, fiquei com fixação por aparelhos de som (os chamados systems, ou sistemas modulares), e desenhava inventando eles também . Já estava exagerando, pois um amigo me perguntara na época se eu não podia voltar a desenhar os monstros e heróis que fazia antes! Na verdade sosseguei quando adquiri meu primeiro aparelho de som! Até então, nunca tinha tido um aparelho de som estereofônico, excetuando-se um walkman “gigante”, trazido da Venezuela por minha mãe, quando os walkman começavam a se tornar difundidos.
Igualmente, durante essa fase final do colegial, fui sendo tomado por uma sensação, um sentimento de insatisfação, que não conseguia saber de onde vinha.
Mesmo assim, fui seguindo a vida...trabalhei numa papelaria entre meus 17 e 18 anos (foi nessa época, com o dinheiro arrecadado no trabalho, que comprei o som).
E depois, apesar de ter prestado algumas faculdades, como arquitetura, desenho industrial e artes (esta na USP, e a única que não obtive logro), fui me situar na de Artes Visuais da UFG (Universidade Federal de Goiás). Tendo nascido em Minas Gerais, e morado na infância também em Goiânia, resolvi voltar e morar com meus tios-padrinhos ao passar o vestibular.
Foi uma nova situação, em que se descortinou um período distinto, cheio de novas amizades, mas igualmente pleno de perturbações e instigações mentais, filosóficas e existencialistas.
Ao meio disso tudo, embora não mais fizesse HQ, continuava a desenhar elementos com personagens super-heroísticos, monstros e cenários fantásticos . Mas a leitura de HQ não parara.
Ao contrário, continuava, com novos elementos e diálogos com as recentes amizades da faculdade. Discutíamos elementos gráficos, autores, artistas do fantástico, como Frank Frazetta
e Boris Valejo, e novos autores de HQ como Frank Miller, e franceses como Moebius – o ano era de 1986, e eu tinha meus 19 anos.
Porém, mesmo cheio de vitalidade e energia e criatividade, meu espírito continuava sendo fustigado pelas amarguras da transição da adolescência para esse novo mundo dito dos adultos responsáveis (que sabem dar respostas?!?).
A universidade era acometida pelas incessantes greves: a cada três meses de aulas, seguiam-se dois outros de greve, período que eu usava para retornar ao meu lar em São Vicente e rever meus pais e amigos.
Foi um ano e meio dessa transição, com muitos e muitos desenhos (e raríssimos quadrinhos) na faculdade e solitariamente, até minha nova decisão de voltar ao Estado de São Paulo e prestar outra faculdade, no caso, a FAAP. Pois eu sentia que precisava, por algum motivo, estar em São Paulo, já que a efervescência das HQ parecia estar mais centrada a partir dali. E eu queria retornar às HQ, de alguma forma!
O que me marcou em Goiás, na área das HQ, foi um inicial cansaço dos quadrinhos de super-heróis, excetuando-se os novos autores como Frank Miller e Bill Sienkewicz. Marcou-me também muito, eu ter lido “O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller , que acabava de ser lançado no Brasil. Parecia que eu assistia a um filme. Tanto que, ao ler cada número dos quatro que perfaziam a obra, eu o fazia sob a audição de rock pesado.
Mas tal leitura ocorreu comigo ainda na UFG. E outro ponto importantíssimo também: quando, numa das minhas viagens de volta a São Vicente, devido às greves (ou às férias), ao fim de 1986, conheci “por acaso” Flávio Calazans num sebo de Santos.
O encontro mudaria todo o meu conhecimento e ampliaria minhas noções acerca do universo das HQ (e me introduziria no mundo alternativo dos fanzines).
Porém, essa implicação será descortinada no meu próximo texto!

Gazy Andraus; São Vicente, julho de 2007.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (tese premiada pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

20 de julho de 2007

 


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