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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – IX

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Idas e vindas de Goiás a São Paulo, entre as férias e/ou greves universitárias...mas durante aquele período, numa dessas vindas iniciais, reencontrei um amigo que estava chegando da rodoviária de Santos, com dois números de uma mesma revista diferente em mãos (fig. 1).
Na verdade, não tenho certeza se o ocorrido foi durante à época de minha estada em Goiânia, cursando a Universidade Federal de Goiás (entre 1986 e 1987), ou se foi um pouco antes...mas o que importa e que será interessante rever, é a coincidência dos fatos.
Esta revista se chamava “Barata”, e tinha o tamanho pouca coisa maior que os tradicionais formatinhos de gibis, sendo que as capas eram de papel um pouco mais grosso, e a impressão do miolo, meio “cinza” em alguns momentos, devido à baixa qualidade de impressão. Apesar disso, era bem legível.
Porém, o mais importante: quando este amigo me mostrou os dois exemplares, ao nos encontrarmos de noite no calçadão da praia do Gonzaguinha, em São Vicente (onde resido), imediatamente vi que os cartuns, as HQ, os textos poéticos contidos na “Barata” eram muito diversificados uns dos outros, e bem inteligentes e sofisticados, seja no humor e ou no conteúdo também sério (fig. 2).
De pronto, foi algo diferente: eu que já estava saturado de ler HQ de super-heróis, vi naquela revista sui generis, cuja impressão fraca aparentava ser algo “amador”, um manancial criativo de trabalhos inteligentíssimos, sofisticados, maduros e profissionais que há tempos eu não via e lia!
Pois bem, escrevendo essas memórias, e apesar de a mente trair nesse quesito das lembranças, me ocorre que este meu primeiro contato com o “fanzine” Barata (mas eu ainda não sabia que aquilo era um fanzine) se deu mesmo um pouco antes, talvez, de eu ingressar em Goiás.
Mesmo assim, a coincidência é que se torna o foco: como narrei em meu texto anterior, foi numa dessas minhas vindas a Santos, durante minha graduação em Artes no Instituto de Artes de Goiás, que conheci Flávio Calazans, que veio a se tornar um amigo que me conduziria ainda mais no rol dos quadrinhos e me introduziria no conhecimento do fanzinato (o universo dos fanzines).
A história se deu da seguinte maneira:
Eu estava em um sebo de Santos no Gonzaga (onde atualmente, em seu lugar, existe uma loja muito conhecida nacionalmente). Lá, eu conversava com um dos outros clientes, dizendo que estava insatisfeito com o rumo com que meus estudos haviam tomado em Goiás, devido principalmente às greves, e também à minha insatisfação com os quadrinhos, pois já estava saturado de super-heróis (ou, ao menos, do padrão de roteiros deles). Ao mesmo tempo, eu dizia que fiz quadrinhos de forma amadora, mas que, devido a toda essa insatisfação, estava já há um tempo sem fazer, embora ainda desenhasse...enquanto isso, um outro cliente que se encontrava no sebo, percebendo meu diálogo, se apresentou a mim, como Flávio Calazans, dizendo-me que fazia parte de uma revista independente, a cooperativa “Barata”, e que se eu quisesse, eu poderia fazer parte das reuniões e dependendo de meus trabalhos, participar dela.
Fiquei interessado no caso, ainda mais que eu estava precisando renovar minha verve no que tangia ao mundo dos quadrinhos (porém devo lembrar que na hora, nem me lembrei de que há poucos anos atrás, eu já havia me deparado com essa revista através daquele meu outro amigo que me mostrara dois exemplares, os quais havia adquirido na rodoviária de Santos, um dos locais em que os membros da Barata deixavam a revista sob consignação para a revenda. Os custos da Barata também eram cotizados entre os participantes.
Assim, após trocarmos endereços, alguns dias depois eu enviei a Calazans algumas cópias de meus desenhos pelo correio, pois já havia voltado a Goiânia.
Numa viagem seguinte, ainda no segundo semestre de 1986, participei de uma reunião, que ocorrera nas dependências da Universidade Católica de Santos, pois era lá, no curso de comunicação, que Calazans e mais alguns membros, como Bar, Feijó e Python, estudavam e também se reuniam para discutir a “Barata”.
Munido de meus trabalhos, mostrei-os aos membros e participei de minha primeira reunião. Contaram-me o histórico da Barata - que já estava perto do número 12 (fig. 3)-, e já estabeleceram o novo número, que seria comemorativo, e no qual tive minha primeira participação.
Inicialmente, eu desenhei uma HQ roteirizada por Feijó, que tinha conotação de crítica política (fig. 4). Foram duas páginas que executei diretamente no tamanho A-5 (folha de sulfite A-4 dobrada ao meio), com caneta preta hidrográfica na arte-final. Logo em seguida, elaborei outra HQ, esta de três páginas, chamada “O único” (fig. 5) , versando sobre o absurdo das guerras, também executada no mesmo formato A-5.
Alguns dias depois, eu estando ainda em Santos, participei de mais uma reunião na Universidade católica. Nesta, o fechamento da Barata já quase estava pronto, faltando ainda uma página que poderia ser preenchida com uma HQ que tomasse essa página. Nisto, ficou no ar quem poderia fazê-la, e eu disse que, ou o Bar ou eu, poderíamos criar cada um, uma HQ de uma página, e que depois o grupo deliberasse qual eles aprovassem.
Mas achei interessante, porque Calazans disse que isto não seria oportuno, visto que ali não se estimulava a concorrência. Então, de alguma forma, eu me propus a fazer a HQ, e o grupo concordou.
Ao ir para casa, talvez na mesma noite, reencontrei outro amigo e conversamos um pouco acerca de assuntos existenciais e de como a vida poderia ser ou seria. Lembro-me que a conversa foi frutífera, e de lá, ao chegar em casa, minha mente fervilhava o suficiente para me ter impulsionado a criar uma HQ que marcaria meu estilo e inauguraria um novo ciclo em minha vida. A HQ chamou-se “Vil existência?” (fig. 6) , e discorria acerca da vida e da morte, tendo a personificação simbólica desta última como protagonista dessa única página. A Morte se apresentava ao final, gerando um suspense de quem poderia ser aquele ente que filosofava acerca da existência, do bem e do mal etc.
Foi o meu retorno à produção de uma HQ no formato A-4, com um acabamento mais detalhado e um pouco mais “maduro” do que as duas precedentes e recentes!
O interessante foi que, numa mesma revista (Barata nº 13, que na verdade, por ser um especial dedicado apenas aos quadrinhos, veio como nº “0”) (fig. 7), publiquei três HQ, sendo que a primeira em dupla, a segunda completamente minha, ainda num traço inseguro, e a terceira – que viria depois a pertencer a um estilo chamado de “fantasia filosófica” - finalizando um reinício nas HQ de forma a coroar aquele pretérito período em que fiquei sem fazer histórias em quadrinhos aproximadamente durante um ano e meio, enquanto ao mesmo tempo refletia a fundo sobre a existência humana!
Foi um início, agora vejo, muito simbólico e pleno, apesar de todo o sofrimento que jazia internamente em meu ser!


Gazy Andraus; São Vicente, agosto de 2007.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (tese premiada pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

20 de agosto de 2007

 


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