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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – X

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Após um ano e meio cursando Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás, devido às greves principalmente, resolvi abandoná-la e tentar em São Paulo outra faculdade, ingressando no segundo semestre de 1987 no curso de Educação Artística da FAAP. Apesar daquele período inflacionário, a mensalidade não era alta como atualmente, e após um ano consegui uma bolsa que variava de 50 a 70% até o final do curso, que durou 5 anos devido às disciplinas pedagógicas. Apesar de ser em licenciatura, o curso tinha um perfil de Artes, visto que muitos dos professores eram renomados nas Artes Plásticas.
Foi um início difícil, em que a situação financeira de minha família era ruim, e eu não tinha onde ficar, já que meus pais residiam em São Vicente. Mesmo assim, contrariando os argumentos racionais e lógicos, aceitei a empreitada, confiando no fator criativo (mental e religioso, de fé mesmo!). Inicialmente estabeleci-me provisoriamente por uns 2 meses na casa de uma família amiga em São Paulo, até que, quando não mais havia solução e eu estava para sair de lá, surgiu a oportunidade de dormir em um cômodo na Igreja Evangélica Árabe de São Paulo (perceba-se que meus pais são cristãos ortodoxos). Os pastores eram de Campinas e amigos nossos. Assim, até o final de meu curso tive onde ficar, graças literalmente a uma providência divina. Este fator eu nunca teria cogitado como possibilidade, só comprovando que a mente racional trabalha apenas no que ela experienciou. Assim, a oportunidade que surgiu confirmou-me que tudo é possível através de um percurso criativo que pode aparecer de formas as mais imprevisíveis, como foi eu conseguir residir gratuitamente em São Paulo, nesta igreja, independente de que religião eu tinha ou não (apesar de meus pais comungarem o catolicismo ortodoxo, eu me considerava conscientemente um tanto quanto gnóstico).
É interessante lembrar que eu nunca ficava em São Paulo nos finais de semana, sempre separando o valor suficiente para ir e voltar para minha casa quando não havia aulas.
Pois bem, esta transição de Goiás a São Paulo, que levou aproximadamente mais um ano (de meados de 1987 a meados de 1988) me propiciou novas amizades, novo trabalho (consegui um emprego inicialmente como estagiário de um estúdio de publicidade) e novas experimentações que envolveram um aprofundamento gradual de minhas leituras e criações nas histórias em quadrinhos.
Continuei cooperando no zine Barata e consolidando cada vez mais a amizade com Calazans e os outros membros, como Alexandre Barbosa e Feijó.
Assim, enquanto eu aprendia novos conceitos em arte, também me engajava com novos amigos da área das HQ e dos fanzines, bem como ampliava meus experimentos nas HQ participando, gradualmente, cada vez mais de fanzines.
Enquanto isso eu lia livros dos mais variados, principalmente na área dita espiritualista, com bastante atenção nos títulos do pensador, educador e filósofo brasileiro Huberto Rohden (fig. 1), além de Krishnamurti, e livros instigantes como os do fundador da revista Planeta, Jacques Bergier.
Obviamente minhas leituras de HQ expandiram, graças também aos sebos, nos quais eu adquiria quadrinhos de todos os tipos (e de todas as épocas).
Na FAAP eu aprendia novos conceitos da arte e da história da arte, enquanto que, ao ingressar em um pequeno estúdio de publicidade, desenvolvi um ritmo de trabalho aperfeiçoando a técnica do uso da caneta nanquim elaborando o que se chamava de “paste-up” que foi depois substituído pelos programas de computador facilitando a tarefa daquele trabalho, que era diagramar e montar páginas de manuais, revistas e jornais.
Calazans me trazia outros fanzines e me punha a conhecer melhor os quadrinhos europeus, muitas vezes com HQ somente publicadas em fanzines brasileiros, como a excelente HQ de Caza “Vento” (fig. 2).
Porém, devo comentar algo que foi decisivo para minha ampliação mental no que concerne a “sorver” HQ diferentes das que eu estava habituado a ler, como as de super-heróis.
Foi quando eu adquiri, um tanto receoso, o álbum de histórias em quadrinhos adultas de temática poético-fantástica “O Homem é bom?” do autor francês Moebius.
Foi um fato que muito me transformou, e do qual me utilizo até hoje, não apenas como fator de reflexão, como também para auxiliar a ampliar a mente de alunos e pessoas que assistem minhas aulas, palestras e cursos.
Então, não percam o próximo artigo, em que este fato se tornará conhecido por vocês, e mostrará que realmente temos sempre que estar abertos e em alerta para que nossas mentes não permaneçam enclausuradas em idiossincrasias e limitações que, muitas vezes, nem sequer nos damos conta de tais engaiolamentos!
Então, até o próximo mês...

Gazy Andraus, São Vicente, 7 e 8 de setembro de 2007.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

18 de setembro de 2007

 


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