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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XI

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No texto do mês anterior afirmei, ao final, o seguinte:

“Porém, devo comentar algo que foi decisivo para minha ampliação mental no que concerne a “sorver” HQ diferentes das que eu estava habituado a ler, como as de super-heróis.
Foi quando eu adquiri, um tanto receoso, o álbum de histórias em quadrinhos adultas de temática poético-fantástica “O Homem é bom?” do autor francês Moebius.
Foi um fato que muito me transformou, e do qual me utilizo até hoje, não apenas como fator de reflexão, como também para auxiliar a ampliar a mente de alunos e pessoas que assistem minhas aulas, palestras e cursos.”
Aconteceu em meados de 1980, quando eu estava em fase de transição, enquanto cursava a faculdade de Artes Visuais da UFG, e começava a conhecer os quadrinhos europeus, bem diferentes dos norte-americanos.
Na verdade, eu conhecia por cima alguns autores europeus de quadrinhos. Achava interessante o estilo diferenciado, com linhas claras e histórias e narrativas “soltas”. Porém, eu ainda não compreendia bem o intuito daqueles artistas, e também havia me acostumado sobremaneira ao estilo norte-americano de super-heróis, embora já estivesse saturado deles, que não ligava para os desenhos europeus.
Pois bem, naquele período eu saí da UFG, em Goiânia, e voltei ao Estado de São Paulo. Nesse ínterim, a inflação no Brasil galopava cada vez mais, tendo chegado, em determinado período aos 80% mensais. Isso significava, para os que não se recordam muito bem, ou para os que nasceram depois dessa fase, que os preços subiam quase que diariamente, o que obrigava os brasileiros a manterem seu dinheiro, no mínimo, em cadernetas de poupança, para que não perdessem demais ao longo de um mês.
E significava também que os livros e revistas em quadrinhos aumentavam muito de preço. Os gibis, para se ter uma idéia, tinham seus valores calculados para não darem prejuízo às editoras, o que os encarecia mais ainda quando saíam em banca, a fim de não terem seu valor defasado durante o mês (se bem que as editoras fizeram tabelas de preços atualizáveis com códigos, para evitar isso).
O interessante seria comprá-los depois em sebos, ou então, em bancas que esqueciam de devolvê-los após a saída de números novos (se nas suas capas os preços não fossem em códigos).
Igualmente, os livros tinham seus preços sempre remarcados, a cada período de dias.
Mesmo assim, os gibis em formatinho ainda eram possíveis de serem adquiridos com mais facilidade, já que não tinham seus preços tão altos como os livros.
Mas, como eu havia dito, estava estafado e saturado de ler gibis de heróis. Havia cansado dos roteiros padronizados, embora estivesse começando a despontar edições melhor estruturadas e mais maduras, como “Ronin” e “Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller (que além de se influenciar por mangás, também gostava da arte de Moebius, bastando ver tais traços repetidos em “Ronin”). Os trabalhos de Miller mereciam cada centavo gasto em sua aquisição, pois os roteiros eram fluídos e bem sérios, como num ótimo filme de cinema.
Porém, eram edições mais caras, e menos freqüentes, muito menos, que os gibis de linha.
Naquela época, eu me encontrava de volta a São Vicente, seja pelas férias ou pelas greves da Universidade federal de Goiás, ou pela mudança de lá para cá, que eu estava procedendo. Não me recordo exatamente porque eu me encontrava em São Vicente (e Santos, já que são cidades grudadas), mas o que importava é o que me aconteceu referente à questão da leitura de material de quadrinhos.
Pois bem, como estava cansado de gibis de heróis, eu não mais os adquiria com freqüência. Na verdade, por também não me dispor de muito dinheiro, situação agravada pela inflação brasileira, eu adquiria pouquíssimas revistas. Naquela fase, a compra de gibi já estava quase nula, por minha parte.
Mas vez ou outra eu passava pela livraria das redes Siciliano que se encontrava em Santos, bem no Gonzaga (centro turístico da cidade). E bem na frente, colocaram o álbum de Moebius “O Homem é bom?”, lançado pela L&PM. Aliás, aquele período foi marcado por um pequeno “boom” nas edições de quadrinhos em livrarias, principalmente por duas editoras: a Martins Fontes e L&PM. Eram álbuns na maioria de autores consagrados europeus, como Moebius, Manara e Bilal, por exemplo, bem como alguns norte-americanos, como o consagrado Will Eisner.
Assim, mesmo conhecendo o material europeu, eu não tinha tanta afinidade por ele, e nem o lia muito. Contudo, folheava, vez ou outra, os álbuns nas livrarias, como este de Moebius (Fig. 1). Mas, realmente, o alto preço dele me impossibilitava de adquiri-lo. Pois se um gibi de linha custava, digamos, o equivalente a R$4,00, o álbum custava uns R$25,00. Além disso, embora eu até considerasse os traços de Moebius, ao folhear a revista, eu não sentia maior afinidade por seus desenhos, e sua narrativa me parecia alienígena, diferente demais. Em suma, como eu não conhecia, e não estava habituado, não “sentia” que iria me adaptar, e nem gostar de suas HQ.
Mas os dias foram se passando, e talvez até, o mês. A inflação corria desgrenhada, e os preços subiam vertiginosamente...porém, naquela livraria, houve algo diferente: ou se esqueceram de remarcar o álbum de Moebius, ou decidiram dar fim a ele, pois ao não atualizarem constantemente seu preço, ao se passar o mês (mais ou menos), seu valor acabou se tornando irrisório, face ao acabamento gráfico. Digamos que o preço de R$ 25,00, escrito em sua etiqueta, acabou se equivalendo ao preço de um gibi em banca, que já estaria atingindo, digamos, em torno de uns R$24,00 (sem brincadeira!).
Eu me lembro bem, pois toda vez que passava na livraria, lá estava de frente o álbum, pedindo para alguém levá-lo, já que ao folhear suas páginas, o preço estampado continuava o mesmo de sempre, apesar da inflação e de todos os outros livros terem seu valor atualizado constantemente!
Pois bem, chegou o dia que tomei coragem: ora, se não estava mais comprando gibis de linha simplesmente porque estava cansado deles e de suas mesmices (inclusive da arte), resolvi arriscar comprar o álbum, que àquela altura tinha seu valor tão baixo, já que equivalia ao de um simples gibi de formatinho (o álbum de Moebius tinha formato quase de um A-4).
E ademais, eu queria ler alguma coisa...estava com necessidade de ler quadrinhos, e não havia nada para eu adquirir que não fossem os gibis de linha ou álbuns caros (que eu não podia comprar, mas que também não estava muito interessado).
Comprei o álbum e fui pra casa meio descrente de que iria apreciar o conteúdo.
Mas quando passei a ler suas páginas, começando pela faixa título “O homem é bom” (Figs. 2 e 3), comecei a perceber nuances nos traços, nas cores, no jogo de linhas e hachuras que davam sensação de movimento e vida, e fluidez, como nunca sentira ao ler histórias de super-heróis. E também, os roteiros de Moebius tinham singularidades, pois remetiam à ficção fantástica, com pitadas de humor e acidez crítica: “o homem é bom” brinca com a questão dual, em que coloca a qualidade intrínseca do valor do ser humano, tanto na parte ética, como na da culinária (uma brincadeira com o gosto da carne humana ser ou não apreciável, digamos, por outros seres, como nós fazemos ao consumir os animais).
Depois, na história seguinte do álbum, “The Long tomorrow” (fig. 4), roteirizada por Dan O´Bannon e desenhada por Moebius (HQ que vim a saber depois, influenciou Ridley Scott em seu filme Blade Runner), as perspectivas de uma cidade futurística com características retro (típico dos autores europeus), me deixaram boquiaberto novamente, com os desenhos fluídos e um roteiro totalmente diferente do padrão americano. Pois este último reitera os textos, repetindo eventos passados (pois revistas de heróis são seqüenciadas mensalmente), para que o leitor se rememore dos fatos anteriores, o que me irritava muito (Miller, ainda bem, retirou os excessos de textos redundantes). Já os europeus como Moebius têm em seus textos e narrativas, um “quê” de seriedade e mais elipse do que os gibis americanos tinham normalmente.
O álbum “O Homem e bom” contém quatro roteiros distintos, sendo que a última HQ “Balada” (fig. 5), também se configura numa história de ficção fantástica, expondo trechos de poema de Arthur Rimbaud. É uma HQ adulta, poética, meio incompreensível ao nível racional, mas cujos desenhos, como todos os outros do álbum, trazem um alento à visão, inigualável. O leitor não se atém apenas aos quadrinhos com os textos nas narrativas, mas também vai lendo, como se ouvisse uma composição musical de vários instrumentos sonoros, os desenhos, como partes da “informação”, só que imagéticos.
E isto, eu não tinha, é claro, consciência. Só vim a ter dessa forma que escrevo, explicando que os desenhos funcionam como informação que trazem prazer ao sentido visual (como a música ao ouvido), graças à tese que finalizei em 2006, em que apontava que os desenhos ativam áreas do hemisfério direito do cérebro, que se compraz em criar, enquanto o esquerdo apenas racionaliza e cataloga o que o outro “sente” e traz.
Mas na época que li o álbum, fui sendo tomado, quadrinho a quadrinho, página a página, por um “sorver” saboroso, a cada desenho que visualizava, com traços “fluídos”, soltos, de Moebius, como se as cenas daquelas histórias fossem reais, animadas, em sintonia com uma realidade paralela que existia!
Os desenhos e narrativas de Moebius davam tal sensação, como eu nunca havia sentido antes, lendo outros gibis.
Os desenhos de HQ de super-heróis tinham também suas qualidades, mas penso que a maneira da construção de seus elementos, sua linearidade, como era regrada por uma técnica baseada na renascença, de estruturas básicas e pontos de fuga, davam um ar um tanto “duro” aos traços. Eram e são bons desenhos, mas a fluidez das páginas, com os textos meio repetitivos e redundantes, muitas vezes, emperravam a leitura seqüenciada das HQ. Um autor que percebera isso foi Bill Sienkewicz, creio eu, ou então David Mazuchelli (não me recordo exatamente qual dos dois falou sobre isso – embora ache que tenha sido Mazuchelli), que numa entrevista publicada num dos gibis de super-heróis, afirmou que os autores de HQ norte-americanos não sabiam fazer realmente HQ (em sua maioria), pois não deixam a fluição trasparecer. Creio que ele se referia ao “emperramento” dos textos juntos a desenhos muitas vezes duros e repetitivos.
O que senti ao ler “O Homem é Bom” foi uma imersão em um novo conceito, em um novo modo de ver os desenhos, de forma como nunca havia visto antes! Eu sentia e sorvia cada pedaço de cada desenho, e ao mesmo tempo percebia o todo dele, a “sensação” de movimento que dava...tal fato comunguei à época a amigos da faculdade de Artes de UFG, que também se deleitaram na arte de Moebius.
Outro motivo desta singularidade pode ser a diferença da execução de uma HQ nos moldes europeus, diferente da dos norte-americanos, mais comerciais (industriais) e menos autorais que seus contemporâneos franceses, por exemplo. Moebius fez O “Homem é bom” quase sozinho. Deve ter levado meses executando todo o álbum. Uma HQ de super-herói é feita por uns cinco ou seis autores (roteirista, argumentista, desenista, arte-finalista, colorista, letrista), num prazo de uns vinte dias. Realmente, a maneira de se executar uma HQ dá diferenças no resultado, já que o procedimento norte-americano envolve várias cabeças e uma ordem mais, digamos, hemisferial esquerda (organizacional cartesiana). A européia, por ter um autor (ou dois, dependendo), deixa a mente do criador mais livre, com mais tempo para trabalhar e sentir uma fruição e fluição diferenciadas, que devem, no caso de Moebius, atuar mais do hemisfério direito, visto que seus traços são bem fluídos e seus roteiros um tanto quanto intuitivos e não racionais no todo (vide a própria HQ “O Homem é bom” e a última que traz trechos de Rimbaud, que se chama “Balada”: esta, mais “estranha” ainda que a primeira).
Assim, quando eu fui lendo o álbum, fui sendo tomado por um prazer visual que poucas vezes havia sentido, ao ver tais desenhos. Envolvendo-me também, além deles, na narrativa sui generis e totalmente distinta de roteiros maniqueístas de heróis e vilões (fig. 6).
E o mais engraçado disso tudo é que, durante a após a leitura, fui sendo acometido por um pensamento de que, ao contrário de qualquer arrependimento, estava boquiaberto com a qualidade do trabalho que eu lia, não compreendendo como eu não havia percebido isso tudo antes, já que sempre eu folheava o álbum na livraria (mas nunca o comprava, e não devido ao preço, que poderia até ser um motivo real. Porém, não o comprava porque realmente não sentia que gostava dos desenhos ou das hstórias!).
Foi então que tracei um paralelo mental: há músicas que gostamos à primeira vista, mas que logo enjoamos. Há outras que demoramos um pouco mais a nos acostumar, e depois não enjoamos jamais! Foi assim que me aconteceu com o grupo Deep Purple: naquela época faltava-me conhecimento e maturidade para entender e gostar de seu som. Hoje em dia, sempre ouço suas músicas, e cada vez que as coloco, percebo a qualidade sonora ímpar do uso que fizeram dos instrumentos e da maneira única que os executaram.
Mas isso não impede que algumas músicas, que gostemos logo de cara, também jamais enjoem.
Tudo isso pode ser repassado às histórias em quadrinhos: há aquelas que gostamos logo de cara, e depois enjoamos (hoje em dia não consigo mais gostar dos desenhos de John Byrne, principalmente os atuais). Há outras que demoramos mais, como os traços de Flávio Colin e Jack Kirby, mas depois acabamos nos acostumando e nunca nos cansando. E há aquelas que torcemos totalmente o nariz, para só depois passarmos a entender e sentir, para daí então passar a sorver e ter a mente modificada, para um novo paradigma, o qual nunca imagináramos antes. Foi o caso das HQ de europeus como este “O Homem é Bom”, de Moebius!
Este é um caso que sempre uso de exemplo para aulas, a fim de mostrar que nossos gostos e conceitos muitas vezes vêm arraigados com modalidades de pensamentos repetitivos, e que precisam ser “quebrados” para a expansão, a fim de se abrir ao novo, e não se estancar em preconceitos com fatos e dados que simplesmente não conhecíamos a fundo, embora julgássemos sabê-los.
E isso não ocorre só com desenhos ou música, mas com tudo, na vida!
Dessa forma, finalizo esse importante texto que ora escrevo, recitando a última frase que postei no artigo do mês anterior, anunciando esse: “temos sempre que estar abertos e em alerta para que nossas mentes não permaneçam enclausuradas em idiossincrasias e limitações que, muitas vezes, nem sequer nos damos conta de tais engaiolamentos!”.
A mente realmente é neuroplástica, mas se não a estimulamos, ela se estanca.


Gazy Andraus; São Vicente, 14 e 15 de outubro de 2007.

Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

14 de outubro de 2007

 


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