instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XII

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Após esse (re-) batismo com as HQ européias, via Moebius, especialmente na transformação interna que se operou em mim com a leitura do seu álbum “O Homem é bom?”, deu-se um novo momento criativo em meu ser, refletindo-se na maneira de encarar a realização de histórias em quadrinhos.
Nesse período conturbado de minha vida, indo de um ser semi-consciente, senciente, em busca de auto-consciência e vida plena (dir-se-á felicidade), passei por momentos muito difíceis e de auto-afirmação e baixa-estima advinda de dúvidas acerca de meu percurso acidentado (como ocorre com a maioria dos jovens recém-saídos do “ninho” escolar).
A mudança de faculdade (de Goiás a São Paulo) resultou também em mudança total e brusca na minha vida.
Quando ingressei na FAAP, no curso de Educação Artística, em São Paulo, o fiz no horário da manhã, achando que conseguiria trabalhar em meio período à tarde. Assim eu sobrevivi ao primeiro semestre, mas não consegui o emprego que almejava. Foi um semestre infrutífero nessa questão, de extremo cansaço e luta para sobreviver em face às vicissitudes físicas e morais que a natureza me impingiu!
Todas as semanas eu tinha que preparar meu ser e espírito para encarar o embarque de São Vicente, onde residia com meus pais, para uma estadia obrigatória em São Paulo, que ia de segunda-feira de manhã a sexta à noite. O dinheiro era curto, então eu arrumava uma sacola com mantimentos (alimentos) auxiliado por minha mãe. Geralmente eram pão, queijo, bolachas, frutas etc. Eu montava os sanduíches em São Paulo, na igreja que residia. Por sorte havia uma geladeira.
Comia sem parcimônia nos três primeiros dias, até quase acabar o alimento. Dessa forma, com o dinheiro contado para a viagem de volta na sexta, eu comia bem menos (para quase nada) nos dois últimos dias. Às vezes eu preferia comprar uma ou outra revista de HQ em sebos (que eram bem baratos àquela altura), sacrificando a alimentação.
Além disso, os dias frios em SP, mais as espinhas inflamadas em meu rosto, me faziam sofrer ao dormir: encostar o rosto no travesseiro era dor certa! Me lembro até uma vez em que, jogando bola, recebi uma bolada na face...quase desmaiei tamanha dor devido ao impacto nas espinhas inflamadas!
Os dentes, também, à certa altura precisaram de tratamento, e um primo de segundo grau me auxiliou na recuperação deles, principalmente no caso de um dente que havia tido problemas graças a uma operação de canal mal sucedido alguns anos antes.
Resumindo: minha “estréia” no mundo dos adultos, de forma solitária e até corajosa, só teve atenuantes com alguns amigos que me ajudavam e apoiavam.
Eu tinha então 20 anos, e me perguntava incessantemente o que estava acontecendo: porque deveria um ser humano sofrer assim. E tal desgaste, me inquiria, deveria ser dessa forma? E me via em outros seres que sofriam em seus trabalhos duros, nas pessoas que mendigavam, no sistema cruel solitário dessa existência etc.
Em suma, meu espírito foi sendo “refinado”...ou melhor, minha alma estava sendo refinada e apurada, à revelia de minhas vontades do ego! Que naquele momento era me ver livre de tal situação e sentir a felicidade, que àquela altura parecia distar infinitamente de meu ser.
Ainda assim, vez ou outra meu processo criativo, munido desses mesmos tormentos, conseguia dar vazão a seu curso...geralmente isso acontecia quando eu ouvia música! Rock, hard rock, heavy metal, progressive rock...em toda sua essência. Mas no início eu não tinha como ouvir em São Paulo. Apenas aos fins de semana quando voltava a São Vicente. Acontecia algo interessante: ao retornar à casa, ligava o som com os discos que tinha, ou com um ou outro que conseguia em sebo, ou então com gravações em cassete. A saudade “auditiva” era tanta que as músicas mais recentes de que gostava me traziam tal ímpeto que “dançava” junto delas em meu quarto (que era um misto de estúdio, academia de ginástica com material improvisado: cadeiras como apoio para exercícios) e quarto. Eu fechava a porta e passava a “cantar” junto aos vocalistas de heavy metal, em alto som! Isto me dava uma energia estonteante, mas também me desgastava após algumas canções. Depois eu me sentava e me punha a desenhar e a criar.
O caso das dores de dente, por exemplo, rendeu (nem imagino porque) uma das melhores HQ que eu já fizera: a “Retorno Evolutivo”, que trazia a questão da matança das baleias de uma forma diferente, com um viés espiritualista explicando como eles se “sentiam”. Mas esta HQ veio depois, noutra fase, não logo de início...).
Um fato na área de quadrinhos que me marcou nesse período, foi que eu andava com uma pasta tamanho A-3 com trabalhos da faculdade carregando também o fanzine “Barata”, que eu recém-estreara. Numa dessas idas e vindas de São Vicente a São Paulo, à FAAP, eu resolvi parar numa praça perto dela à saída da aula, para comer um dos alimentos que eu trazia. Como eu estava com a pasta e a mochila com roupas, um policial resolveu se aproximar para averiguar o que eu carregava. Inicialmente, de forma bem educada, ele me inquiriu se podia verificar o interior de minha bagagem. Obviamente, enquanto eu lanchava aquiesci prontamente. Após averiguar, ele, vendo minha pasta perguntou se estudava desenho. Mostrei-lhe alguns trabalhos artísticos, mas o que lhe chamou a atenção foi o fanzine. Ele o folheou e eu lhe avisei que era um resultado de um grupo do qual eu participava. À primeira HQ de Calazans, ele imediatamente identificou figuras famosas da história como Marx e Nietszche, por exemplo. O surpreendente é que, quando me deparei em volta, havia me circundando não só aquele guarda, como mais uns quatro policiais!
Provavelmente vendo seu colega me vistoriando, foram se aproximando e acabaram escutando nosso diálogo acerca da “Barata”.
O problema foi quando ele se deparou com uma HQ de outro autor, que criticava de forma negativa a corporação policial. Imediatamente ele me inquiriu se a história era minha, ao que retruquei que não.
Ele, injuriado, me perguntou se eu achava que todos os policiais eram da forma como estavam retratados na HQ: corruptos e violentos. Ao mesmo tempo me perguntou se sua abordagem não havia sido educada...e se ele me passava ser de parca cultura e informação, já que identificara vários elementos da história da civilização na HQ de Calazans (como Marx e Nietzche, como eu disse).
Eu lhe retruquei que concordava consigo, e que aquela era uma visão do outro autor, e não minha.
Enfim, de certa forma mais calmo, me entregou o fanzine, me cumprimentou desejando-me boa sorte, indo-se com seus colegas, mas pedindo-me que informasse ao autor daquela história em quadrinhos que criticava a polícia, que a coisa não era da forma como ele retratara.
Foi uma experiência importante, porque realmente me fez pensar mais ainda acerca das visões pessoais, e que independente de cada formação, havia sempre um ou outro ser humano educado e de boa índole querendo melhorar a representação da espécie humana. Há que se pensar também na força que uma HQ tem, vide os sentimentos que foram despertados no guarda, ao folhear a “simples revistinha”.
E o outro fato “engraçado” foi mesmo eu ter me deparado, de repente, com vários guardas me circundando, todos interessados em saber o que era aquela revista diferente, que um de seus amigos de trabalho estava folheando.

No segundo semestre, as coisas começaram a se modificar. Do nigredo causticante (mas paradoxalmente necessário), comecei a adentrar a fase do albedo!

Na filosofia química nada é despiciendo ou desprezível: não há caput mortuum, como dizem os alquimistas; tudo é passível de transformação, transmutação luminosa. (Yvette Centen: Da Nigredo I. 22 de agosto de 2006. http://simbologiaealquimia.blogspot.com/2006/08/da-nigredo-i_22.html Acesso em nov. 2007)

Mas muito lentamente...porém, foi daí que meu processo artístico nas HQ tomou um novo rumo - trazendo novas HQ, incluindo “O Aroma da mudança”, “O Jogo da Vida e da Morte”, “Sina”, “Hurizen” e “Retorno Evolutivo” -, aliado às sensações e sentimentos que eu intuía e sentia naquele período inteiro por que passei, e que me ajudou, para o bem ou para o mal, a ser a pessoa que sou hoje!
E isto, claro, fica para o próximo texto!

Gazy Andraus; São Vicente, 14 a 20 de novembro de 2007.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

20 de novembro de 2007

 


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