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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XIII: Da Cruz à Vida!

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Minha inserção no universo das histórias em quadrinhos, e então no dos fanzines começou a se solidificar neste período (conturbado mas necessário) em que cursei a Licenciatura Plena em educação Artística na FAAP, de 1987 a 1992.
Foi, como se viu no artigo anterior, um período bastante ativo e cheio de considerações, que auxiliaram-me em meu caminho das “pedras” e “águas”, preparando-me para meu desenvolvimento na espiritualidade e na cientificidade apurada.
Meu lado artístico se exponenciou e me tornou mais sensível, expandindo e expressando meus sentimentos, especialmente ao criar as imagens seqüenciadas aliadas a textos poéticos; tudo quase sempre ao som de músicas, geralmente rock trabalhado, dramático, ficcional, “espacial”, mágico, místico etc.
A imaginação corria solta, e se ampliava quando minha mente divagava corroborada por leituras variadas, desde as que eu realizava para a faculdade, como as independentes, incluindo, óbvio, HQ, mas também uma gama variada de livros de cunho espiritual, como Huberto Rohden, Tao, Jacques Bergier etc.
Hoje em dia sei que a vida não se resume a elucubrações, mas também a ações e tomadas de decisões que se pautam por um diagnóstico baseado no que se vai experienciando na vida, incluindo informações lógico-cartesianas, mas igualmente lógico-sistêmica (lógica paraconsistente ou “fuzzy” ou nebulosa), e uma intuição corroborada pelas informações acessadas nos sonhos.
Mas o que isso tudo tem a ver com meu trabalho e esse histórico de vida?
Tem a ver, a todo momento e instante, pois pensar o passado, enquanto se vivencia o presente e se projeta-especula o futuro é algo inerente apenas ao ser humano – nós – que podemos incluir informações variadas para continuar atuando, ou tergiversar para simplificar a complexidade, amedrontados que somos do que possa nos acolher.
A arte, não importa que conceito cada um tenha dela, é inerente a esse espírito humano que busca viver e compreender a vida. É ela que nos impulsiona, seja queiramos representar o que vemos, a realidade que enxergamos, ou então abstrair o que dela em nossas mentes se recria, se reelabora. Há múltiplos conceitos de arte, e mais ainda meios de se expressar, tanto em técnicas como em modalidades artísticas...
Um índio mencionou como vê a vida do homem branco, em um congresso que participei de Universidade e Espiritualidade nesse ano de 2007: ele disse que o homem branco trabalha...e que ele, o índio, não!
O índio - segundo o próprio - não trabalha, mas sim, VIVE!
Ele disse isso de uma forma simples, “ingênua”, mas com um potencial interno sincero que desbancou a platéia (atônita) inteira. De certa forma preservou e repetiu o sentimento que permeava o Chefe Seattle, quando respondeu ao presidente dos EUA, isto em 1852, que queria comprar suas terras. O Chefe, muito sábio e simples ao mesmo tempo, respondeu que não entendia tal “compra”...para ele havia algo de errado no pensamento dos brancos, pois, como comprar o ar que se respira? À terra que todos habitavam ele tinha a mesma premissa...era de todos (inclusive dos animais) e de ninguém ao mesmo tempo...
Nós nos desvirtuamos num processo estranho, e tornamo-nos exclusivos neste planeta, arrogando-nos como donos e partícipes ao mesmo tempo, pensando-nos igualmente demiurgos e separados. Crendo que nossas ações poderiam incidir e realizar ambições, sem medir que haveria conseqüências, como bem advertiu o chefe Seattle!
Pois ele tinha noções de física quântica, ciência fractal, sem que soubesse o que isso era...a premissa do pensamento sistêmico que ele possuía, inerente àqueles seus que atuam na vida com suas três partes do cérebro em equilíbrio (mente racional do hemisfério esquerdo; mente criativa/intuitiva/religiosa do hemisfério direito, e mente operativa da porção reptiliana central); os índios, por ainda conviverem de uma forma mais próxima do sistema da natureza acabam por ter sua mente direita mais atuante, diferente de nossa, “civilizada” industrialmente. Por isso sentimos necessidade de “fazer” arte, enquanto que os índios não fazem arte, mas SÃO arte! E trabalho está inserido em vida, e tudo é uma coisa só, como adverte o taoísmo...tudo, então, também é arte!
Este texto inusitado que escrevo em dezembro de 2007, que deveria conter a seqüência de minha história de vida com os quadrinhos, surgiu e deixei, pois, embora aparente não ter a ver, está mais atrelado do que se pensa!
Todo o meu histórico de vida se resume a que eu sinta esse “estado da Arte” integralmente sempre em mim...e de uma forma sistêmica, holotrópica, integral, e por isso eu fiz (também) histórias em quadrinhos: na falta de uma maneira total e “full time” de atuar “artisticamente” (pois a raiz da palavra arte – ars em latim – significa modo autêntico de ser e de agir, integrado á natureza)...
As histórias em quadrinhos que saíam (e saem) de mim são parte de meu ser que sente estar fragmentado, que não consegue viver a vida integralmente, mas que cinde vida de trabalho, de amor, de sofrimento, de fraternidade etc.
Não existem tais separações, mas quando nós as criamos, fazemos-nos sentirmo-nos perdidos, divididos, fragmentados, e daí precisados de extravasar tal sentimento: eis que criamos as artes, que nos redimem, nos ilustram, nos tematizam, nos completam e nos inserem numa vida mental mais “alta” e criativa, já que mexem com ambos hemisférios de uma vez! Um grande cientista que ajudou na formulação da física quântica, Richard Feynman, embora criativo, em determinada época de sua vida resolveu começar a pintar, para sentir e tentar entender como a mente de um artista funciona...ele percebeu haver diferença entre o processamento racional e o intuitivo artístico.
Eu sempre percebi isso, mas hoje em dia possuo mais informação e discernimento para poder apontar tal pressuposto.
Assim, fecho este texto, este ano, com este apanhado reflexivo, que é reflexo dessa minha vida inteira até agora, com influências diretas dos últimos dias em que passei refletindo a arte com mais proficuidade devido a vários motivos.
Porém, deixo aqui também uma HQ que ilustra este processo, e que está inserido na época em que cursei a faculdade de artes:

a HQ “Sina” me veio numa noite, enquanto estava deitado ouvindo a música “Unforgettable Fire” de U2. Minha mente se embebeu dos sons, e de repente, quando principiou a adentrar cada vez mais no estado alfa, “vi” três imagens em seqüências: um rosto de um homem gritando e aparentemente crucificado!
Saltei imediatamente para a mesa e esbocei a arte, que resultou em três páginas, metaforizando toda minha busca e a epopéia humana: o homem sofre, mas em realidade, se ele conseguir perceber, não há razão para o sofrimento: ao perceber isso, ele se liberta da “cruz”, a qual já mais esteve preso!
Esta, fraternos leitores amigos que singram comigo nesta aventura da vida, é minha mensagem a vocês: a HQ “Sina”, que representa a mim mesmo, e a vocês, em quaisquer níveis de existência que estejam...o ser calvo e seminu simboliza o homem universal, eterno...
A partir do próximo ano, a abordagem de meu trabalho-vida continua, inclusive com minha obra “Homo eternus”, que igualmente traduz minha concepção da divindade universal hominal.

Abraço fraternuniversal!


Gazy Andraus; São Vicente, 19 de dezembro de 2007.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

19 de dezembro de 2007

 


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