instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XIV: Da Cruz à Eternidade!

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Ano novo.
O passado em revista.
De uma forma inédita, portanto, como novo!
No dois últimos escritos, falei um pouco da minha fase de autor de HQ na complexa etapa em que cursei a faculdade. Já havia sido introduzido, então, no rico e ainda novo para mim, universo dos fanzines. Tinha a idade física dos 20 e poucos anos. Quase a metade, portanto, do que tenho hoje. Mas, apesar de ter passado por muita coisa, ao me lembrar agora, vejo que o tempo não é tão longínquo assim...ao mesmo tempo que também o é, ao fitar momentos específicos por que vivi.
Naquele período, ajudado principalmente por Calazans, meus contatos com os fanzineiros e quadrinhistas pelo país, foram se ampliando bastante. É bom lembrar que não havia computadores pessoais, muito menos Internet. Quase todos os contatos eram por cartas, algumas telefonemas e viagens.
Como disse, a minha produção de HQ começou a aumentar a partir de 1987. Naquele ano, como profissional iniciante e no fanzine barata, elaborei umas três HQ inaugurais. Em 1988, só criei uma. Mas isso porque eu dividia meu tempo em morar em São Paulo e cursar a FAAP. Apesar disso, em 1989, a produção aumentava...vieram HQ como “O Aroma da Mudança”, “O Jogo da Vida e da Morte”, “Casulo” e “Sina” (esta última eu mostrei no meu relato anterior). Vieram também “A Mãe”, “Hurizen” e “Retorno Evolutivo”. Todas criações a partir de 1989, abarcando os anos iniciais da década de 1990. Havia muita criatividade em meus trabalhos. Hoje em dia eu vejo o quão prolíficos foram aqueles anos. Eu me queixava de muitas coisas, mas em contra-partida, saíam de mim histórias de uma força equivalente a meu grau de “sofrimento” e sentimentos.
Porém, o que devo ressaltar, é que não só eu trabalhava assim. Outros brasileiros comungavam de tais processos, ao criarem HQ, sagas, fanzines, cooperativas para editar (geralmente em xerox), e alguns esparsos eventos que faziam acontecer.
Eu não sabia, mas junto a outros poucos autores de nossa imensa nação, estava criando um estilo sui generis nas histórias em quadrinhos brasileiras: o gênero Fantasia-Filoófica, assim alcunhado por um espanhol, Henrique Torreiro, organizador das Xornadas de Fanzines de Ourense, na Galícia. Este evento trazia uma mostra dos fanzines editados no mundo inteiro, com direito a exposição, catálogo e uma revista encartada. Tudo com qualidade gráfica excelente, e conteúdo bem abalizado. Torreiro, referenciando-se a um trabalho meu em conjunto a Edgar Franco (isto será visto em breve), alcunhou nossas HQ de Fantasia-filosófica. Daí, passamos a usar tal nome ao referirmo-nos a nossas produções e a de alguns outros autores brasileiros.
Porém, antes mesmo de conhecer o trabalho de quadrinhistas que faziam HQ similares, como Edgar Franco, eu fui motivado por Calazans a produzir uma auto-edição, para ser co-editada e publicada pelo Edgard Guimarães, (não confundir com Edgar Franco, e nem com Henrique Magalhães) em seu, então IQI – Informativo de Quadrinhos Independentes.
Como nunca havia feito um zine, só paticipado deles, resolvi criar um de teste. Chamei-o de “Viagens”, e era um pequeno fanzine de poucas páginas com uma HQ e um poema ilustrado e algumas imagens jogadas.
Tendo dado certo, parti então para a produção de um melhor elaborado, do qual enviaria uma cópia bem xerocada e sem grampear, que funcionaria como “boneco” (matriz) para Guimarães revender. Funcionava assim: o IQI era bimestral, e Edgard divulgava nele todos os lançamentos de zineiros nacionais e estrangeiros que lhe chegassem, bem como também os que ele co-editava. Assim, quando ele recebesse minha cópia, ele a divulgaria e esperaria pedidos para tirar mais cópias. Não havia lucro de sua parte, pois a revenda atendia à demanda solicitada e o preço era o justo para pagar as despesas e o envio pelo correio. O autor (no caso, eu), ficaria apenas com a divulgação e o reconhecimento dos leitores, que poderiam enviar ao IQI suas impressões e críticas. Era um universo sendo construído, já que as HQ autorais nacionais quase inexistiam em bancas e livrarias. De certa forma, o histórico brasileiro das HQ deve ser pensado, quando feitas pesquisas, não só no que se veiculou (e se veicula) oficialmente em bancas e livrarias (e hoje em dia, pela Internet), mas também, paralelamente, o que se fez e faz no universo alternativo dos fanzines. Principalmente porque muitos dos autores profissionais, como Lourenço Mutarelli e Edgar Franco, começaram nos zines. Mencionar apenas as edições ditas “oficiais” seria considerar apenas uma parte do universo real das HQB (histórias em quadrinhos brasileiras), incorrendo-se num erro grave por omissão e reducionismo.
Pois bem, comecei meu projeto para o IQI: um zine que abarcaria algumas histórias inéditas. Mas eu, embora tivesse já uma produção razoável, pensei melhor e resolvi ampliar o que seria apenas uma revista, desmembrando-a em outras três, contendo HQ inéditas e publicadas em outros zines. Depois, ao elaborar o que seria o “Homo Eternus”, acabei criando quatro capas, modificando o projeto para quatro revistas, que em cujas capas (e últimas capas) teria uma seqüência (mas não no caso das HQ internas: cada volume traria misturadas HQ completas curtas e longas, inéditas ou não, misturadas a desenhos e poesias).
Nas capas desenhei um homem na posição de cruz, e por detrás dele um tronco de árvore que ia se moldando à forma da cruz nas 4 seqüências das capas. Nas quartas capas incluí um desenho em cada uma delas, que apareciam juntos ao volume final.
Este “Homo Eternus”, como uma quadrilogia, tinha também uma capa especial para a edição encadernada, caso o leitor preferisse depois, em lugar de adquirir os volumes em separado. O IQI trazia divulgado um volume a cada bimestre e o encadernado após a divulgação dos 4 volumes.
Para o prefácio convidei Guimarães e Calazans, e fechando cada volume, inseri dois textos meus que sintetizavam os objetivos do “Homo Eternus”.
A receptividade foi boa, pois aos poucos os leitores amantes de HQ e fanzineiros foram começando a reconhecer meu trabalho e estilo, que mescla a linguagem das HQ à uma poeticidade haikaizada e condensada. Cada vez mais era convidado a participar com trabalhos meus em outros zines, como “Barata”, “Bifa”, “Ideário”, “Phobus”, “Tchê” etc.
Realmente, de todos os zines que produzi depois, considero Homo Eternus o carro-chefe de meu trabalho, e o que melhor me representa como ser humano e profissional, além do que simboliza minhas crenças acerca da espécie humana, como a que alenta a imortalidade da alma, apesar de sua indubitável morte física.
Das HQ que inseri na tetralogia (que chamei de Quadrilogia) “Homo Eternus”, fazem parte Hurizen, Retorno Evolutivo, Pedra Bruta e até uma profecia do Papa João XXIII, conhecido como o papa do bom humor, que transcrevi com minha letra personalizada.. Na profecia há um quê de místico e profético (e também alusão a extraterrestres), bem como remete à uma nova humanidade que está se formando, com uma mentalidade diferenciada, substituindo esta nossa que já se desgastou e não serve mais aos novos paradigmas da mente.
Todas minhas HQ na obra são do gênero conhecido como Fantasia-Filosófica, do qual falarei melhor nos próximos textos, incluindo também um pouco sobre o zine “Matrix”, que, em importância, após minha estréia no “Barata”, teve uma repercussão marcante, pois foi co-elaborado por amigos que estudavam comigo na FAAP, tendo angariado um prêmio em 1992, tanto pelo Troféu HQMix como pelo Ângelo Agostini.

Até lá, então.



Gazy Andraus; São Vicente, 15 de janeiro de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

16 de janeiro de 2008

 


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