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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
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Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XV: Da Semelhança à Criatividade!

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Anteriormente expliquei acerca de meu processo artístico na criação e elaboração de auto-edições (fanzines), tendo criado o “Homo Eternus”, em 4 volumes (além da versão encadernada). Foi um marco em minha vida, pois percebi o potencial que tinha na criação, e possibilidade de editar meu material próprio.
Enquanto isso, eu participava ativamente em fanzines, enviando histórias em quadrinhos e ilustrações. Foi uma forma de ver publicados meus trabalhos, incentivando-me sempre a criar mais...não havia escolas ou então área profissional que poderia fazer o que a editoração independente estava fazendo por mim e pelos outros amadores/profissionais dessa arte!
Ainda não se percebe a importância que estas possibilidades trazem aos jovens num mundo marcado pelo capitalismo e pela padronização...o meio independente mantém a chama do amor à criação e à fraternidade, ampliando círculos de amizade e de conhecimentos.
Além de ter feito amigos no fanzine “Barata”, enquanto cursava o curso de artes da FAAP, surgiu a possibilidade de, junto a outros amigos de lá (e também de fora da funadação), de elaborarmos juntos um fanzine. Idas e vindas de reuniões para escolha de material, título etc, acabamos por conceber o título “Matrix”, bem no início da década de 1990. O primeiro número, todo em preto e branco e formato A-4 (fig. 1), trazia alguns novos autores, como Edison Iizuka, Sam Hart e Carriello, bem como Alexandre Jubran e eu. A minha HQ era “Retorno Evolutivo”, um libelo sobre a matança das baleias com um enfoque espiritualista (HQ muito elogiada na época, e que depois ganhou cor graças a meu amigo Jorge Del Bianco: tal versão está para sair no novo número da revista independente francesa “La Bouche du Monde”, editada pelo franco-brasileiro Eduardo Barbier).
Pois bem, o fanzine concorreu em 1991 ao prêmio da Bienal do Rio de Janeiro, e ao 4º. HQMix, tendo ganho como melhor zine nas duas premiações (na do Rio, dividimos o primeiro lugar com outro fanzine do qual não recordo o nome agora).
Ganhamos uma pequena verba que possibilitou a tiragem do número 2, com capa colorida (Fig. 2), tendo parado por aí, face às dificuldades iminentes em se continuar publicando uma revista alternativa no Brasil.
O interessante disso tudo é que participamos das premiações apenas a título de presença, sem mesmo nos preocuparmos com prêmios... a surpresa é que eles vieram! O que comprova que o trabalho apaixonado induz a uma criação e elaboração quase sempre unânimes na qualidade.
Apesar da não continuidade do zine, foi uma fase em que continuamos, cada qual dos autores, singrando caminhos próprios. Eu não parava de produzir HQ e ilustrações, enquanto fazia a faculdade. Quando por fim terminei o curso em meados de 1992, passei a lecionar em escolas do estado de São Paulo, mais especificamente em Praia Grande e São Vicente.
Em 1992, logo após o término de minha faculdade, minha mãe falecera de ataque cardíaco, corroborado pelo exagero do fumo de cigarros.
Pouco depois desse período, um fato curioso se deu: encontrei uma HQ no número 17 do “Barata”, muito similar a meu estilo. Ela se chamava “Progéria Interior” (Fig. 3) e era assinada por alguém que eu não conhecia: Edgar Franco. Qual não foi minha surpresa ao me deparar com o endereço do autor: ele indicava a cidade de Ituiutaba, em Minas Gerais, a mesma que eu nasci.
Quando escrevi para ele, descobri que morava em Brasília cursando arquitetura na UNB, mas nas férias sempre voltava à sua cidade natal, coincidentemente, a minha.
Pois marcamos de nos conhecer numa das férias, o que acabou por angariar uma sólida amizade, em que nos tratamos até como “irmãos”.
Edgar, apesar de ser 5 anos mais novo que eu, e nunca ter visto meu trabalho antes, elaborava HQ similares a mim, de conteúdo complexo, filosófico, mas de número de páginas reduzido. Nosso estilo acabou, depois, sendo reconhecido por Fantasia Filosófica.
Isto se deu da seguinte forma: resolvemos criar um fanzine único em dupla, chamado “Irmãos Siameses” (Fig. 4). Fizemos o lançamento, inclusive, no mês de junho de 1994 na Gibiteca de Santos.
Tiramos umas 50 cópias xerocadas do zine, e depois dividimos o que restou, após o lançamento.
Ele continha várias histórias nossas: a primeira era dele, e a última minha, sendo que as do miolo se alternavam em roteiros meus com desenhos dele e vice-versa (Figs. 5 e 6). A coincidência é que tanto a primeira como a última HQ tinham um enfoque temático e estrutural muito similar: é como se cada um de nós, sem termos conhecimento prévio, tivéssemos realizado uma HQ igual, cada qual com seu estilo!
Isto me chamou tanto a atenção que lhe disse que ambas as histórias tinham que iniciar e finalizar o fanzine.
Depois, mandamos uma cópia para o evento realizado anualmente em Ourense, na Espanha galega. Lá, seu organizador, Henrique Torreiro nomeou nosso trabalho de “fantasia filosófica autêntica”, de onde acabamos por utilizar tal nomenclatura como o estilo por nós realizado: roteiros curtos, condensados como hai-kais, e arte vanguardista.
E assim, a cada férias, tenha sido no mês de julho, ou de janeiro e fevereiro, encontrávamo-nos em Minas Gerais (eu ficava na casa de meu tio), e ampliávamos nossos estudos sobre arte, HQ, fanzines, trocando revistas, cartas, pesquisas, músicas etc...foram anos riquíssimos, em que eu e Edgar, e a bela família dele, nos irmanamos cada vez mais. Na realidade, ainda hoje fazemos tais encontros, com um adicional: criamos experimentações sonoras junto a Dênio Alves, tendo fundado um grupo musical experimental denominado “Essence”, em que a improvisação é a tônica do processo de elaboração musical (Figs. 7 e 8).
E, claro, ampliando nossos conceitos artísticos de forma que escola alguma o faria!
Hoje, tanto Edgar Franco e eu, somos doutores pesquisadores numa interface entre arte e ciência, especialmente no que tange aos processos artísticos e quais seus impactos na sociedade e mesmo na ciência.


Gazy Andraus; São Vicente, 14 de fevereiro de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

18 de fevereiro de 2008

 


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