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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XVI: Da Criatividade ao Início da Multimidia!

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Após muitos anos criando e dialogando juntos, sempre que podíamos, eu e Edgar Franco fomos trilhando caminhos semelhantes, embora com modalidades específicas: Edgar hoje já tem também um trabalho musical bem solidificado e rico, com uma grande experiência em multimídia. Eu, apesar de muito gostar e querer experienciar tais aspectos (como já o fiz em forma embrionária na época em que cursei a graduação e o mestrado), ainda preciso trabalhar bastante nessas questões que exploram a massa sonora e os quadrinhos, já que tenho muita vontade de conseguir mesclar experimentações sonoras com as imagens que produzo.

Mesmo assim, neste texto falarei de alguns de meus experimentos que tiveram um viés nas artes, incluindo performance, e com um pé na multimídia.

Na época em que cursei a FAAP, e depois o mestrado na UNESP (esta segunda fase será enfocada melhor futuramente), acabei, de forma quase natural, por incorporar em meus trabalhos artísticos, elementos da linguagem das histórias em quadrinhos. Para algumas disciplinas, isto ficava claro para mim, enquanto montava os trabalhos conforme pediam os professores do curso de artes da FAAP, onde desenvolvi novos conceitos e aglutinei outros, junto à minha linguagem naturalmente quadrinhística.

Apesar de preconceitos por parte de alguns professores, outros achavam interessantes essas influências, ainda que talvez não tivessem às claras, o que eram as histórias em quadrinhos e em que grau apareciam em meus trabalhos.

Na graduação, lembro-me de ter elaborado uma “escultura” de metal que remetia à pintura “O Piquenique” de Manet, para a disciplina do professor Nelson Leirner. Na verdade, era uma releitura, em que elaborei uma cabeça de um dinossauro (estiracossauro) de metal, em meio a outros elementos que davam significados distintos à obra em questão (infelizmente não possuo mais este trabalho).

Doutra vez, fiz outra seqüência em papel kraft criando um ser fantástico em sua expressão: embora parecesse monstruoso, ao fim, aparecia uma lágrima em sua face. A seqüência era de 6 imagens em formatos diferentes até o último(fig. 1). Em seguida, criei uma série de 3 pinturas sobre forros de mesa, em que seqüencialmente levanta-se um humanóide, numa narrativa similar a minhas HQ. Lembro que foi para uma disciplina, em que o professor me aconselhou a que não colocasse o texto que escreveria em baixo em cada pintura, de forma seqüencial (vide projeto à fig. 2). Na verdade, o texto não era apenas uma repetição descritiva da imagem, mas sim, uma poeticidade que reforçava o estado de espírito dela. Nesse caso, optei por excluir o texto que havia proposto ao projeto, mas confesso que preferiria tê-lo inserido lá, pois em minha concepção, os escritos davam outra força às pinturas em seqüência (vide fig. 3, contendo as duas últimas partes da seqüência). A curiosidade é que elas foram feitas com pó xadrez misturado à tinta branca e guache, sobre forros plásticos de mesa, com uma textura rugosa, que adquiri em lojas desse tipo de material. Logo depois, para outro trabalho, o mesmo professor me forneceu uma idéia bem interessante: utilizando-me de telas de galinheiro, criei algo similar a máscaras gigantes (a tela ficava entre papel grosso de um lado, e tecido de linho do outro), que podiam ser moldadas. Eu fiz quatro grandes máscaras e as dispus em seqüência, como se “seguissem” o observador (fig. 4) Cheguei a expor este projeto no Salão de Artes dos alunos da FAAP, à época. Ao mesmo tempo, e com a mesma técnica, elaborei uma máscara menor, que acabei utilizando tanto na graduação, como posteriormente no mestrado, junto a uma vestimenta que mais parecia um suntuoso manto místico (e que na verdade era um vestido de gala libanês de minha mãe). O traje, junto à máscara me fez parecer como um dos seres místicos que eram criados por autores de HQ de ficção fantástica, como por exemplo, Moebius. Com este traje (fig. 5), montei duas apresentações em sala de aula, em disciplinas distintas. Na primeira, pintei um sol em meu peito, e a sala ficou às escuras, só iluminando o caminho pelo que eu passava, já que portava uma vela. Havia um som mixado ao fundo, com trechos instrumentais de rock. Ao final, as luzes se acendem e o “manto místico” cai, permanecendo apenas a máscara, e o desenho do sol em meu peito.Foi realmente uma performance.

Alguns meses depois, resolvi repetir parte da apresentação, modificando-a para “HQ ao vivo”, para uma das disciplinas finais do curso, de disciplinas pedagógicas. Desta feita, aglutinei ao som, um texto poético de minha criação (“Um diálogo além do humano”) com o auxílio de dois microfones e um amplificador, bem como um mixer, tudo realizado na casa de um amigo, que possuía a aparelhagem adequada.

Um dos trabalhos mais interessantes, envolvendo minhas influências em HQ, fanzines e o apreendido no curso de artes, foi ainda durante a graduação: construí outra pintura em papel kraft, de aproximadamente 9 metros de comprimento. A pintura remetia ao estilo de Dave Mckean, muito em voga à época devido às revistas Sandman de Neal Gaiman. Pois bem: junto, elaborei uma madeira que serviu como “pedestal” ou “púlpito”, que ficou colocada junto à pintura, e esta “pendurada” em uma altura de uns 3,5 metros de altura, com sua extensão restante ao chão. No pedestal de madeira, deixei três álbuns que havia manufaturado noutra disciplina, em que usava elementos de HQ e fanzines, com colagens, desenhos, xerox, fotos etc...eram álbuns de tiragem “única” (como o fazia William Blake), meclando a concepção de HQ com liberdades criativas dos fanzines.

Ao ficar pronta a “instalação” (fig. 6), as pessoas se aproximavam, atraídas pela “cauda” no chão, pelo tamanho e força da imagem, e eram “convidadas” a folhearem os álbuns (fig. 7).

Depois, durante o mestrado tentei outras elaborações, enquanto continuava meu processo criativo sem me esquecer de produzir HQ, participar de fanzines, e elaborar minhas próprias auto-edições.

No mestrado, inclusive, continuei algumas experimentações com multimídia, inserindo às imagens, o uso de câmeras , “animação” e mais mixagens sonoras, bem como uma apresentação no dia da defesa de minha dissertação de mestrado, realizada no Instituto de Artes da Unesp.

Tudo isso será revisto, aos poucos, a partir dos próximos textos aqui publicados.




Gazy Andraus; São Vicente, até 22 de março de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

27 de março de 2008

 


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