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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XVII: Da Viagem à Viagem!

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Após os experimentalismos que fiz na época em que cursei a FAAP, mesclando a elementos da linguagem das HQ a outros suportes e até “performances”, continuei trabalhando na elaboração de histórias em quadrinhos fantástico-filosóficas (gênero alcunhado em um evento de fanzines em Ourense, conforme apontei no meu texto de número XIV), de forma natural, ou seja, eu as ia criando conforme meus ímpetos emocionais fossem pedindo...ora derivativos de dor (como a HQ “Retorno Evolutivo” que criei quando estava sendo acometido por uma dor de dente, num clima úmido e chuvoso aqui da região Santista), ora de rompantes de alegrias ou estados alfa ampliados devido à audição de músicas.

Mas foi um período um tanto quanto fustigante, pois ao terminar o curso de LEA (Licenciatura em Educação Artística), não tive opção a não ser lecionar em escolas do Estado de São Paulo.

Assim o fiz por um ano e meio, tendo trabalhado em duas escolas na Praia Grande e depois em uma de São Vicente. Nesta época, quase não usei histórias em quadrinhos em sala de aula, pois além de ter pouca experiência em lecionar, eu tentava seguir as normas do ensino, que naqueles anos ainda engatinhavam no aconselhamento do uso de HQ como recurso didático. De toda maneira, a elaboração de minhas HQ e meus fanzines continuava até minha saída do ensino, culminando no lançamento do zine “Irmãos Siameses”, conforme já havia relatado no penúltimo texto.

Em seguida, tentei algo ousado em minha vida: havia juntado tudo o que podia dos meus ganhos lecionando (o que não era muito), somando mais uma metade doada pelo meu pai, e embarquei numa viagem à Europa e Líbano, a fim de conhecer o país dos meus pais (e meus parentes, sendo que a maioria eu desconhecia).

O Brasil estava em transição monetária, e o governo tentava sepultar a loucura da escalada inflacionária, que já havia atingido os 80% mensais, quando eu ainda era universitário.

Pois bem, adquiri uma passagem não muito cara, adicionando 100 dólares para chegar ao Líbano, mas ficando antes durante um mês e meio “zanzando” de trem pela Europa, mais especificamente, França, Itália e Espanha.

Minha meta então, era obter álbuns de HQ europeus, e visitar o CNBDI (museu de HQ de Angoulême na França: vide Fig. 1), além da Fanzinoteca de Poitiers. No Líbano, o intuito era mesmo conhecer o país pós-guerra, de onde vieram meus pais, além de conhecer os parentes.

Pois, graças a um tio meu, pude desembarcar sem custos durante 10 dias na casa de sua família, na cidade de Reims, onde ele lecionava e morava. Depois disso, fiquei quase por minha conta em Paris: andei por 6 dias, dormindo numa residência para estudantes universitários (e pagando a taxa). Foi nesse campus que conheci o então doutorando Henrique Magalhães, que finalizava sua tese pesquisando os zines franceses, portugueses e brasileiros.

Daí, de trem, me encaminhei para Florença na Itália, e depois 4 dias em Barcelona, voltando por Madrid, Poitiers (a Fanzinoteca estava fechada para “férias” de verão deles: mas pude ver um pouco do material pela porta de vidro, e deixei meu “Homo Eternus” por baixo dela para constar do acervo); e por fim, Angoulême, onde fiquei quase um dia inteiro dentro do museu, conhecendo tudo o que podia. Além disso, ainda fiz contato com um diretor de uma escola de artes e BD (HQ de lá), bem próxima do museu, que me levou para fotografar a parede de uma casa pintada por Phillipe Druillet (Fig. 2).

Para sobreviver com o parco dinheiro que eu tinha, contei com a sorte de que o dinheiro brasileiro se tornou o real, enquanto eu lá estava, equiparando-se a 1 dólar americano (na época não havia o Euro).

Outro fato é que só dormia em albergues, e só “almoçava” com alimentos adquiridos em suermercados: baguetes, queijos, iogurtes, sucos, chocolates e frutas. Os preços realmente, em se sabendo procurar, eram bem baratos, ainda mais os das promoções, que não existem de verdade no Brasil (ainda mais com os recentes produtos “maquiados”, diminuindo a quantidade, mas aumentando o preço). Como exemplo: havia chocolates de preços reduzidos, já que num só invólucro transparente, vinham três barras com um pequeno pedaço de papel contendo as informações, e não o invólucro embelezado (que também existe lá, óbvio). Esta opção tornava realmente o produto mais em conta. Outra coisa que me chamou a atenção era que os “xaropes” aos quais se adicionam água, com sabores de frutas vermelhas, nem eram tão vermelhos, mas sim, possuíam coloração rósea bem claros, quase esmaecidos. Percebi, assim, que não adicionavam corantes de cor para reforçar e vendê-los embelezados como no Brasil (mas que causam males à saúde).

O mais interessante dessa viagem, porém, é que adquiri muitos álbuns e fanzines de HQ, sendo que a maioria em Sebos, ou então novos em promoção – parece que o verão de lá é sinônimo mesmo de promoções! Daquele montante, despachei em dois pacotes de 5 quilos cada, via correio marítimo da França ao Brasil, que chegaram entre 45 a 90 dias, conforme o prazo estipulado, a um preço realmente que valia a pena (o custo de apenas um álbum).

Me lembro que naquele ano de 1994, Ayrton Senna havia falecido, e num sebo da cidade de Reims, conversei bastante (em inglês) com o proprietário, que mostrou tristeza pelo falecimento do brasileiro. Fui percebendo, então, uma paixão “nacional” dos franceses por Senna, que nunca teria imaginado...ao mesmo tempo, sentia que havia algo mais entre o Brasil e a França, algo até fraterno, mas que igualmente não havia percebido antes, ou cogitado.

Por fim, após pouco mais de um mês, e alguns quilos a menos no corpo, mas ainda outros tantos na bagagem, devido ao peso de mais álbuns, consegui chegar ao Líbano.

Já no aeroporto algo me aconteceu de interessante: eu havia adquirido um álbum do autor italiano Milo Manara “El Rey Mono” (adaptação de uma lenda chinesa), quando o policial do aeroporto libanês, após constatar que minha bagagem só tinha roupas e quadrinhos, e tendo visto que eu também era autor, por causa de meus fanzines, ficou admirando a capa do Manara por muitos segundos. Pois nela tinha uma imagem sensual, e no Líbano, revistas de conotação erótica são proibidas. Ele, então, me perguntou se era eu o autor daquela história, ao que retruquei que não, já que o autor era italiano. O funcionário quase me pediu a revista de presente...eu só não lhe dei porque realmente, estava com um material escolhido a dedo por mim, e que me custou um dinheiro contado e muito trabalho de andança e busca. Ainda assim, no Líbano, a situação foi mais tranqüila para mim (pois gastei menos ainda!), já que estava em família (“nova” família).

Descobri, dessa forma, um país similar ao Brasil, no que toca à paixão pela vida do povo, ainda mais tentando se restabelecer de uma guerra de 20 anos, com o sistema viário caótico, e uma rede de energia elétrica que funcionava em menos de 50%. Ou seja, andar com lanternas para subir escadarias de edifícios de noite, era imprescindível, já que o fornecimento de energia poderia ser cortado a qualquer instante (como acontecia com freqüência, e às vezes durava turnos de muitas horas). Quem podia, comprava geradores e os alimentava com diesel, para alguns momentos de luz, ou para os banhos etc. As ruas eram lotadas de fiações improvisadas lembrando em muito os “gatos” brasileiros: só que lá, não se roubava nada, exceto a garantia de fornecimento elétrico, quando dava (Fig. 3). A maioria dos carros vagava pelas ruas, com quase todos os motoristas se fazendo de táxis...buzinando avidamente num alarido sem fim de sons que beirava a sandice (só que onde moro, aqui em São Vicente, mesmo não tendo tido guerra e nem estando em uma, há de 5 em 5 minutos no horário comercial carros-propaganda espargindo os piores jingles, com as piores falas, repetidamente...o interessante é que há uma lei que proíbe esta poluição sonora com cidades de mais de 200 mil habitantes, conforme eu já vi falar há muitos anos. Mas quem respeita isso?).

Mesmo assim, no Líbano, as pessoas todas se irmanavam, como que querendo reconstruir como pudessem seu país, para voltarem a ter uma vida digna e boa como parecia ser até ao final da década de 1960.

Quando retornei ao Brasil, com todo este material que havia adquirido (os álbuns de HQ autorais: vide mostra em fig. 4) e um pluriculturalismo que eu havia absorvido, demorei um pouco para me re-assentar, e só fui recomeçar minha vida no ingresso do mestrado na UNESP, em 1996, motivado pelo Edgar Franco (ele havia entrado como aluno especial). Em 1995, porém, lancei antes o fanzine “HQ2” (fig. 5) contendo duas HQ “mudas”, e um texto “alquímico”.

Dentro do mestrado, minhas experimentações com HQ, fanzines e “multimedia” continuaram, aliadas agora a artigos acadêmicos sobre HQ, melhorando também meu modo de trabalhar com a análise científica, no caso, das HQ. E ainda acabei voltando mais uma vez ao Líbano: desta feita, para também compor um trabalho sobre os cartunistas e quadrinhistas de lá.


Gazy Andraus; São Vicente, 17 e 18 de abril de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

29 de abril de 2008

 


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