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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XVIII: De Fanzine a Multimidia!

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Do retorno da viagem ao Líbano e Europa, as experiências continuavam, tanto na criação de HQ, como nos fanzines. Mas o ano de 2005 não foi dos mais promissores a mim. Sem emprego, buscando estruturar o que havia trazido de bagagem cultural e física da viagem, eu estava um tanto sem rumo. As produções de arte e HQ, sim, continuavam, impulsionadas geralmente por tais tormentos.
A luz no fim do túnel foi prestar o mestrado, aconselhado pelo amigo Edgar Franco, que também o fez. Tentamos o Instituto de Artes da Unesp, e eu acabei entrando em 1996, enquanto Edgar ficou como aluno especial. Apesar disso, ele não conseguiu ingressar depois, partindo para o curso de pós da Multimeios da Unicamp, tendo sido, de certa maneira, muito melhor para ele.
No meu caso, durante o mestrado, orientado pelo autor de HQ e Prof. Dr. Flávio Calazans, acabei por produzir muitos artigos e textos na área de HQ, participando em diversos congressos acadêmicos, principalmente do GT HQ da Intercom.
Também produzi proficuamente muitas HQ e auto-edições, inclusive a elogiada “Homens Armados de Paz” (que teve até uma versão em esperanto).
Ainda cursei uma disciplina que estudava a semiologia do Estatuto da imagem fixa - a caricatura, na USP, dada pelo pioneiro Prof. Dr. Antonio Luis Cagnin. Dessa disciplina resultou meu artigo “Caricaturistas Contemporâneos do Líbano”, que pesquisei in loco, pois retornei mais uma vez ao Líbano, passando o fim de ano de 1996 e início de 1997 lá (tendo até sentido um terremoto, e um frio chuvoso). Conheci a maioria dos quadrinhsitas e cartunistas ativos do país, e elaborei uma espécie de dossiê, que resultou no artigo. Ao mesmo tempo consegui divulgar meu trabalho, dando uma palestra para um curso de publicidade de Beirute, bem como uma entrevista a uma revista de cultura geral. O país fala três línguas (árabe, francês e inglês), e estava ávido se recompondo da guerra civil (que agora, em 2008 volta a assombrar a população).
Foi uma grande experiência, e apresentei o artigo no Intercom de 1997 realizado em Santos. A receptividade foi muito boa, já que descortinava como viviam e o queriam os autores do país mais aberto do oriente médio. No fundo, querem o mesmo que todos os outros: liberdade de expressão! E estavam tendo, naquele período pós-guerra interna.
Durante as outras disciplinas que cursei no mestrado (a única fora da Unesp foi aquela dada pelo prof. Cagnin), fui elaborando experimentações, que ultrapassavam a bidimensionalidade do papel. Numa das disciplinas, expus a HQ ”Arkhè” do autor francês Caza, por meio de slides (diapositivos), tendo ao fundo a narração traduzida pela minha voz, mixada a uma música instrumental. Eu queria tentar passar à platéia (alunos e professora) a sensação de espiritualidade e fantasia que a HQ de Caza passava ao ser lida, já que foi realizada por desenhos pintados com um texto extremamente poético (fig. 1).
De certa forma, a dificuldade na “sincronia” não atrapalhou muito: enquanto as pessoas iam ouvindo a narrativa do texto pelo toca-fitas, eu ia trocando slide por slide, de acordo com o momento certo.
O segundo experimento se deu com um de meus próprios quadrinhos. A HQ “O inexpugnável”, um libelo poético-existencial-fantástico que escrevi/desenhei após infrutíferas tentativas de conseguir que meu aparelho de som fosse consertado de forma honesta e sincera (e que virou a minha primeira edição independente colorida), se tornou “filmado” por uma câmera que eu segurei e perpassei página a página de minha HQ, dando ilusão de tridimensionalidade em alguns momentos ver (figs. 2 e 2ª).
Para a abertura, reescrevi o título como se faz um desenho animado: eu o fiz em partes e fui filmando “frame a frame”. Durante a filmagem (que fiz várias vezes até escolher a melhor), coloquei um som instrumental ao fundo, do grupo alemão Tangerine Dream, mixado à minha voz, que narrava o texto da HQ. Apresentei esta pequena obra multimidiática numa das disciplinas da pós-graduação. Um amigo me disse que pôde “sentir” a tridimensionalidade da imagem, ainda que a câmera estivesse passeando por cima da folha...eu conseguira criar um efeito espacial ótico aos que assistiam o “filme”. Lembro que antes desse experimento, criei uma HQ chamada “Faces”, que foi publicada na revista Metal Pesado n. 6, em novembro de 1997 (fig. 3: pág. 3 da HQ Faces). Ela foi a primeira HQ minha colorida publicada oficialmente. A “faces” também serviu de exercício de filmagem antecedendo “O Inexpugnável”. Igualmente, elaborei em 1994, a HQ “Os homens armados de paz”, que foi publicada na Revista Fêmea Feroz, elaborada por alunos do I.A. da Unesp, em 1997. Junto, elaborei um texto explanando a concepção da HQ, que partia intuitivamente do potencial que os programas de computador aventavam. Foi uma HQ bem interessante e até elogiada pelo Jornal “O Estado de Minas”, à época, como uma HQ experimental que trazia uma novidade na linguagem. Segundo Marcelo Castilho, o jornalista responsável pelo artigo “A síntese da síntese” (fig. 4), a minha HQ pode ser chamada de obra prima pela maneira como propõe uma estrutura linguística (que se não inédita, ainda não foi apropriada pela gramática oficial das HQs).
Assim, durante os 4 anos do mestrado, acabei incursionando, então, entre a arte das histórias em quadrinhos e experimentalismos, e o pensamento racional através dos artigos e da própria escritura da dissertação, que enfocava um imbricamento inter e transdisciplinar entre a arte, a ciência e o pensamento diferenciado da filosofia oriental budista.
Na dissertação (fig. 5) usei os koans – paradoxais questionamentos sem resolução racional: “-Qual o som que faz uma mão ao bater das duas?”, usado pelos mestres zen-budistas a seus discípulos, para que suas mentes intuitivas quebrem a dominância da mente estreita racional.
Nas HQ, além de descobrir elementos similares aos koans, identifiquei as HQ fantástico-filosóficas (incluindo as minhas), que os contêm, além de misturar física quântica nas explicações (embasado por Fritjof Capra). Tratou-se de uma dissertação com um tema pioneiro, pois, além disso, listei que existem HQ autorais, comerciais, para públicos de faixas etárias distintas, e também quadrinhos de gêneros literários narrativos diversos. Nunca havia visto um trabalho que expusesse tais detalhes, que eu julgava muito importantes já que a maioria das pessoas desconhecia esta pluralidade de opções nas HQ (como existe também no cinema e literatura).
Ao final, no dia da defesa da minha dissertação, fiz a maior das ousadias: além de elaborar um fanzine como suplemento (fig. 6) que foi entregue na defesa para os professores da banca, e também para a biblioteca incorporar à cópia da dissertação, resolvi abrir a defesa com uma HQ “koânica” (figs. 7; 7a; 7b).

Para tanto, reciclei o trabalho que havia apresentado anteriormente na graduação, (que havia batizado de HQ ao vivo), e com a ajuda de Edgar Franco, tracei uma circunferência no chão da sala, ficando no centro com a mesma fantasia que havia utilizado na FAAP. Assim, quando tudo estava pronto, incluindo a gravação do som da minha fala da HQ “Um diálogo além do Humano” (mixada com trechos de sons misturados), as pessoas abriram a porta adentrando a sala, enquanto eu atuava sem que elas entendessem direito o que acontecia.
Ao final da apresentação, principiei a explicar a dissertação, como é de praxe, dizendo que aquela apresentação foi também um koan.
Realmente, tal período, corroborado pelo mestrado, rendeu um trabalho que, revendo hoje, me trouxe muita elaboração criativa e racional, aliando a percepção da mente criativa com a análise da racionalidade, busca de entendimento essa que sempre caminhou comigo.
Uma espécie de etapa cumprida.
Para depois recomeçar, mas então, no doutorado.
E esta, será uma outra história...



Gazy Andraus; São Vicente, 17 e 18
de maio de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

23 de maio de 2008

 


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