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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
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Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XIX: Do Mestrado ao Doutorado – Interlúdio Musicado!

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Após finalizar o mestrado, busquei emprego em faculdades, para lecionar nos cursos universitários. Entre 2000 e início de 2002 pude prestar dois concursos: o primeiro na UFG, para um concurso daqueles temporários que duram apenas 2 anos,em que o salário é mínimo. Mas, infelizmente, eu não estava maduro para a função, e foi uma das piores aulas que dei na prova (seguindo a “cartilha” do que se me pedia, que era totalmente distinto da maneira como eu abordava uma aula), e obviamente fui reprovado. Foi uma fase tétrica, pois também estava quase zerado financeiramente. Cheguei até a pedir de volta o dinheiro de inscrição, mas não obtive logro, já que alegaram que isto não estava previsto no edital (justamente a brecha que encontrei para fazer o pedido: era preciso estar – como não estava constando antes, e hoje em dia está previsto no edital - que não se devolveria em hipótese alguma o valor da inscrição).

As instituições sejam elas quais forem, ainda mais as de ensino, precisam tomar cuidado com o que fazem, porque é necessário estar tudo previsto, sim, nos editais e leis, pois do contrário há aberturas para ambigüidades. No caso, não achei errado pedir o dinheiro, já que estava quase sem nada, e queria acreditar que as instituições de ensino existem para cuidar da formação ética (e estética) do ser humano. Enganei-me: elas são reflexo da máquina mental cartesiana: frias e operacionais. Por isso a sensação que tenho de solidão ao caminhar dentro dos campi universitários, sejam eles quais forem, com construções de cimento gigantes, portas e salas, lembrando muitas vezes cemitérios. Poucas são feitas de forma a passarem docilidade e fraternidade.

Depois prestei em uma universidade estadual. Mas, embora estivesse um pouco mais maduro, e minha aula ter sido razoável, também não passei (dessa vez seria com salário digno de mestre mesmo). Havia mais umas 5 concorrentes, e parece que a aprovada já era uma professora que ministrava aulas na instituição (ouvi boatos e conversas de professores de lá mesmo, insinuando que isto poderia acontecer. Mas não me interessou averiguar nada disso posteriormente...).

Enfim, os males e bens que me aconteceram foram construtores de meu caráter e senso crítico, que hoje em dia levo da forma mais clara possível, para onde quer que eu vá.

Ao mesmo tempo, naquele período, passei a dar vários mini-cursos, workshops, palestras etc para várias instituições, e até universidades como a de Uberaba (Uniube), que o fiz duas vezes, tendo eles me pago um excelente pro-labore. Noutras vezes as palestras eram gratuitas, como na Universidade Federal de Uberlândia ou na Universidade Santa Cecília.

De toda maneira, além disso, ainda produzia minhas HQ e fanzines. Um trrabalho artístico em especial foi a “Fitazine HQ (2000) - Fita k7 que funcionou como fanzine (Fig. 1), divulgando o programa MúsicaHQ que transmiti pela rádio AM Universitária de Goiânia-GO em março de 2000. Depois, com a tecnologia caminhando, transformei-a em um CDZINE “MusicaHQ” (2001) – Mídia CD-ROM (Fig. 2) que funciona como fanzine, divulgando o programa MúsicaHQ, além de trazer dentro do CD um PowerPoint com as imagens e a HQ “O Inexpugnável”, bem como outras trilhas musicadas por mim.

Este programa de rádio foi um convite que tive da radialista de lá, Fernanda Furtado, que trazia um artista a cada semana para selecionar músicas e falar de seu trabalho pessoal artístico e cultural.

Juntos, criamos sonoplastia para duas HQ: “Um diálogo além do Humano”, de minha autoria, e “Esquizofrenia das agradáveis” de Xalberto (Fig. 3). Nesse ímpeto, eu ainda trabalhava a questão da multimídia.

Igualmente, junto com Edgar Franco, Denio Alves e outros, passamos a nos reunir uma ou duas vezes por ano em Ituiutaba (MG) para sessões improvisadas experimentando sons numa banda criada por eles, chamada apropriadamente de “Essence” (Fig. 4 com capa de Edgar Franco). Inicialmente gravávamos tudo em fita K-7 (como fazemos até hoje), mas atualmente as reelaboramos em Cd. O interessante é que a sonoridade é improvisada e sinérgica: tudo o que tocamos não se repete e se torna único! Na verdade, não sou músico, mas gosto de escrever letras criativas e de temas similares aos de grupos de rock progressivos (que têm a ver com HQ e fantasias). E também, arrisco cantar à la Heavy Metal, além de “soprar” gaita. Dessa forma, vamos improvisando e criando. É um exercício para o qual me preparei sem o saber, na época da FAAP, quando cursei artes: nosso professor de música nos fazia experimentar objetos cotidianos, tirando deles sons, afinando nossa sensibilidade auditiva.

As pessoas me questionam como fazemos um som tão estranho (diga-se para elas “ruim”) e ainda insistimos: e respondo que o que está em pauta é o processo criativo, a sinergia, a amizade, e a liberdade de criar, seja da maneira que for. Falta certa coragem em nossas vidas já que não sabemos como nos expandir devido à padronização que nos propusemos (muitas vezes sem o querer realmente) em nosso cotidiano, sem nos apercebermos que perdemos a criatividade e coragem para padrões que foram se formatando e nos mantendo cativos. E, tirando as gravações não tão limpas do Essence, há momentos muito interessantes em nossas incursões sonoras.

Em nossas sociedades acostumamo-nos a criar músicas, mas só aquelas que vendem; elaboramos HQ, mas só aquelas “normais” etc: o que avalia a possibilidade de termos a “permissão” ou não de fazermos o que poderíamos (muitas vezes sem nem sabermos de nosso potencial), seria uma “medição” social em que se pesam o conhecimento técnico para se fazer (ou não) tais realizações. Vou dar um exemplo básico: a maioria dos brasileiros pratica o futebol como hobby prazeroso, mas só a minoria seria realmente apta a jogar bola de forma profissional, por ter melhores conhecimentos técnico-práticos. E por esse motivo, excetuando-se esses poucos, a grande maioria não teria permissão para “brincar” de futebol? Claro que teria, pois não é apenas a performance que está em “jogo”, e sim a fraternidade, a boa energia do jogar, o esporte que é salutar etc.

Assim, mesmo sem sabermos direito, nada nos impede de experimentar, de “brincar”... não precisamos ser somente crianças para termos tal permissão. Aliás, mais ainda, adultos, é que devemos ter a coragem de fazê-lo, pois que fomos gradativamente perdendo a “prática” de criar, enclausurando-nos cada vez mais numa vida monótona e incriativa, refletindo-se em um espírito entristecido, cabisbaixo e mal-humorado...bem-vindos ao mundo cinza dos adultos (isso me lembra um filme bem interessante: “Momo e o senhor do tempo”, baseado num livro, que narra a história de uma menina que intenta retomar o tempo, constantemente roubado das pessoas pelos famigerados “homens de cinza”)!

Mas não creio que precisemos continuar assim...mesmo porque a mente é neuroplástica, e se não exercitada, ou apenas parcialmente, se estanca e não abre chances para o novo.

Se for o medo de errar, que então se saiba: o erro não é apropriadamente falha na estrutura que precisa ser remediada. O erro, muitas vezes abre acesso a novas maneiras de se continuar um processo, incluindo novas soluções que trariam mais criatividade ainda ao que se pretendia (seria um coeficiente de maleabilidade necessário).

Vejamos o que nos revela Stephen NACHMANOVITCH em seu livro Ser criativo: o poder da improvisação na vida e na arte:

Uma ocasião, eu estava preparando um espetáculo de poesia, com projeções de slides em várias telas e música eletrônica que eu havia composto especialmente para o evento. Na semana anterior ao espetáculo, durante os repetidos ensaios, acabei pegando uma laringite. No dia da apresentação, acordei com a voz arruinada e febre alta. A princípio, pensei em cancelar o espetáculo, mas por fim decidi que com isso perderia o divertimento. Então, abandonei o apego à minha música e fiz modificações no sistema de som. Sentei-me numa velha cadeira de rodas e usei um microfone. Amplificada, minha voz grave, gutural, fantasmagórica, obsessiva se transformou num instrumento de qualidades surpreendentes e me permitiu descobrir na minha poesia uma profundidade até então insuspeitada. (Summus: 1993, p. 88-89)

Pois lhes revelo que há quase dois anos “toquei” com primos meus em Goiás, na casa deles. São todos adolescentes e alfabetizados musicalmente, diferente de mim, que não sei musicar.

Mas gostaram de minha presença de espírito na voz. Um deles, o Arthur (que tem até banda de rock pop chamada Spitz), me pediu para cantar uma música dos Beatles (“Help!”), porque viu muita força vocal em mim. Cantei e ele acompanhando na guitarra adorou.

Depois, o mais inusitado aconteceu: este meu primo, mais outros dois da mesma idade, se juntaram comigo (um no teclado e dois na guitarra) e, como não tive tempo de escrever canções, segui lendo trechos de um livro de física usado para vestibular: eu ía sentindo as músicas que eles criavam e juntava minha voz “lendo-cantando” argumentos de física, entoando-os de forma ora mais grave, ora mais suavemente, de acordo com os ritmos que eles iam tocando, que por sua vez musicavam acompanhando minha voz: sinergia total de forma totalmente improvisada! A energia viva do momento nos mantinha vivos, criativos e irmanados (eis mais um fim a que se destina fazer arte).

Como se vê, o processo criativo independe de padrões, e temos que debelar medos e receios de parecermos tolos...pois na verdade não o somos.

Temos que voltar a ser “crianças” com mente de adultos...

Voltando ao que iniciei neste texto - a experiência no programa de rádio em Goiás -, além das HQ musicadas, me permiti também testar minha maneira de ser “radialista”, de falar de minhas experiências com zines e HQ, e de “brincar” de forma criativa pondo sons e falas nos textos das HQ (transformei o trabalho, depois, em um artigo que escrevi para o XXIV Intercom, que intitulei “O experimento midiático MusicaHQ ou HQs Radiofônicas” apresentado em 06 de setembro de 2001 na UNIDERP em Campo Grande/MS).

Dessa forma, esse período de interlúdio entre o mestrado e início do doutorado me preparou para algo novo, ao mesmo tempo que me permitiu, embora sempre preocupado com relação a emprego e dinheiro, explorar a criatividade de forma ampla, o que se retransformou de outra maneira ao ingressar, depois, no doutorado, a partir de agosto de 2002, num processo de pouco mais de 4 anos, em que percebi, estudei e me dei conta de que o cérebro humano é muito mais intrigante do que pensava ou sequer imaginava...isso irá se revelando melhor nos próximos escritos.





Gazy Andraus; São Vicente, 06 a 08

de junho de 2008

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

 


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