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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XX: Um Koan a Cada "Ahn"!!?!

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Dando seqüência a meu caminho trilhado durante a pós-graduação, que, conforme relatei anteriormente, muito me auxiliou no desenvolvimento de uma arte multimidiática, bem como na melhora de meu processo acadêmico, no qual escrevi diversos artigos e monografias, venho agora descrever como se deu meu tema de mestrado, que desembocou no título da dissertação “Existe o quadrinho no vazio entre dois quadrinhos? (ou: O Koan nas Histórias em Quadrinhos Autorais Adultas)”. Na verdade, quando ingressei no curso de pós-graduação da UNESP, meu projeto original consistia em abordar o processo criativo na elaboração de histórias em quadrinhos. Dentro do mestrado, além de continuar produzindo HQ e fanzines, aprendi a escrever artigos e a participar de simpósios, congressos e outros eventos acadêmicos. Trilhando disciplinas na pós, também aprimorei meu projeto, que foi se reformatando, a ponto de eu perceber que havia uma necessidade de se expor detalhes importantes a respeito do universo das histórias em quadrinhos que eram pouco vislumbradas em importância, para que as HQ fossem mais bem entendidas.
Vi que a mídia em geral, os jornalistas e mesmo teóricos de HQ não percebiam que aos quadrinhos faltava uma melhor divulgação no que concerne à sua nomenclatura. Mais ainda, imprescindia-se uma distinção entre os quadrinhos comerciais (industriais) - aqueles feitos por equipes com base em vendagens -, e dos quadrinhos autorais (artísticos) (figs. 1 e 2), bem como era necessária a alusão às três faixas etárias: há quadrinhos, tanto exclusiva (fig. 3), como inclusivamente (fig. 4), produzidos para crianças, para adolescentes e para adultos, como também acontece na literatura convencional e no cinema. Mas nos quadrinhos isto tudo não era percebido, bem como o fato de haver gêneros literários variados para eles: o ficcional, o romântico, o poético, o documental, o fantástico-filosófico etc (fig. 5).
Tudo isso era necessário ser divulgado e esclarecido, ainda mais de uma forma coerentemente científica, que foi o que fiz na dissertação.
Ainda assim, após quase três anos cursando o mestrado (naquela época – final do século XX – o mestrado no Brasil podia ser feito até 4 anos), eu ainda não estava satisfeito com meu projeto. Embora tivesse encontrado tais pontos, o cerne de meu objetivo ainda não me satisfazia...eu estava querendo, além dos itens que mencionei, explorar o gênero de HQ filosóficas (ou algo semelhante), das quais eu também elaborava artisticamente.
Por fim, após crises na busca de soluções para minha dissertação, deparei-me em uma banca com um livro de zen-budismo, que tinha um curioso título: “A vaca de ferro do zen” de Albert Low (fig. 6),que trazia exemplos e explicações de “koans”...eu já havia ouvido falar em koan, mas não havia dado atenção. Foi então que compreendi, como que tendo tido um “insight”, o que era um koan zen budista: uma frase-questão racional, elaborada de forma objetiva, mas sem uma resposta plausível que pudesse por termo à insólita questão.
A qual poderia ser mais ou menos como:
“Qual o som que faz uma das mãos ao bater das palmas?”, ou então:
“Como era o seu rosto antes de você nascer?”.
À primeira vista, qual a relação que teriam tais frases, ou questões zen-budistas, elaboradas por mestres a que seus discípulos tenham insights, com os quadrinhos que eu pesquisava? Justamente, os quadrinhos, dos quais também fazia parte minha produção, tinham um “quê” de filosófico, ao mesmo tempo que fantástico e aparentemente de difícil solução ao nível do pensamento estritamente racional.
Foi no momento que pus os olhos em alguns pontos do livro, ainda dentro de uma banca, que numa fração de segundos me “caiu” o cerne principal de meu projeto: as HQ que eu intentava explicar eram “koanicas”!!!
E estava feita a descoberta, faltando ainda (somente) um ano para eu finalizar a dissertação.
Mas daí por diante tudo se modificou, e se engrenou: descobri que os koans também estavam sendo usados para explicações da física quântica, como no livro “O Tao da Física” de Fritjof Capra (fig.7).
A partir daí houve uma mistura de HQ (arte), com Física Quântica (com sua teoria paradoxal como eram os koans) e pensamento zen (filosofia oriental), que obtive de forma “alquímica” acadêmica vanguardista, mas com uma base retórica pertinente que se auto-sustentava, criando uma inusitada dissertação de mestrado (fig. 8: a capa dela).
Nela pude usar as HQ que eu mesmo fazia (fig. 9), bem como outros autores nacionais e estrangeiros, como Edgar Franco, Flávio Calazans, Antonio Amaral, Caza, Crumb etc, resultando numa dissertação que me satisfez totalmente, e me serviu de trampolim para um pensamento cada vez mais sistêmico, que viria a eclodir depois no doutorado (e esta, é claro, será outra história).

Gazy Andraus; São Vicente, 31 de julho e 02 de agosto de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

06 de agosto de 2008

 


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