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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
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Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XXI: Interstício Koânico...

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Após terminar o mestrado que durou de 1996 a 1999, iniciei nova jornada. Tendo viajado duas vezes ao exterior (a segunda apenas ao Líbano), com uma bagagem renovada graças a uma dissertação que já se sustentava e me deixava satisfeito, comecei a divulgar meu trabalho em palestras e pequenos cursos, tanto em faculdades particulares como em algumas públicas. De toda maneira, eu buscava também ingressar na carreira acadêmica universitária como professor universitário. Por quase dois anos – enquanto ministrava meus cursos e palestras – tentei isso em vários estados, tendo prestado por duas vezes concursos em universidades (a primeira na faculdade de artes da Unesp de Bauru, e na segunda, como professor substituto no Instituto de Artes da UFG em Goiânia). Ambas infrutíferas, mas me serviram como experiência. Para aprender também a respeitar meus conhecimentos: nas duas vezes não enfoquei apropriadamente os quadrinhos, respeitando os temas dos concursos. Mas vi que foi bobagem: se eu tivesse me atido a meus conhecimentos, a aula teria resultado muito melhor, independente dos temas...hoje sei misturar os quadrinhos aos temas, já que percebi claramente a interdisciplinaridade que os quadrinhos oferecem. Aliás, muito do conhecimento versátil que adquiri provém da leitura de histórias em quadrinhos, que faço desde a infância. Muitos roteiros têm a escrita bem elaborada, sofisticada até, e no caso dos roteiros de quadrinhos de super-heróis, há também a inclusão de termos científicos e de ficção científica, já que muitos dos argumentistas e roteiristas tinham formação graduada e eram ecléticos (hoje, pelo que percebo, essa já não é a regra nas revistas de linha...).
Termos como ciência, lasers, raios, teletransporte, mutações, genes, energia atômica etc acabaram por povoar minha psique, e aliados a outras literaturas, como os livros de ficção científica, tais como de Ray Bradbury e Isaac Asimov, bem como na fase adulta (à época da graduação e mestrado), outros como Jorge Luis Borges, e nos quadrinhos com Frank Miller e Alan Moore, completaram o ciclo desta amplitude e versatilidade de noções interdisciplinares.
As pessoas que lêem pouco, e que desconhecem a gama rica dos quadrinhos, não imaginam o quão abrangente (e até bem escrita) é sua área.
As leituras ditas científicas, como de ciência quântica e nova biologia, e até sobre a mente (cérebro) me vieram impulsionadas pelas curiosidades que eu passei a ter na leitura de tais termos dentro dos quadrinhos.
A mente, sendo neuroplástica, com tais leituras, parece se abrir para as grandes questões da vida, que são retomadas na filosofia e até na ciência acadêmica.
A ficção faz parte da nossa existência, e como disse Einstein: “A criatividade é mais importante do que o conhecimento”; ou seja: busquemos antes a elaboração imaginativa...dela vem as racionalizações, concatenações etc que permitirão a construção e engendramentos de toda a sorte, com suas utilizações em prol à sociedade, tanto necessariamente para a sobrevivência, como também para a contemplação e absorção estético-mental.
Minha busca e avidez pela área da física teórica e da cognição, no mestrado e doutorado, motivou-se mesmo a partir da fantasia “irreal” dos quadrinhos e congêneres (desenhos animados e filmes de tv com aportes fantásticos também).
Mas em meio a tudo isso, minha psique emocional ia igualmente buscando compreender as maneiras de pensar e agir...como qualquer ser humano me deparei com minhas limitações emocionais, meus desgastes, os estresses etc...o refúgio, e também farol, foram tais leituras panvisuais (escrita/imagem/sonora) de quadrinhos, livros e filmes: ao mesmo tempo que me divertiam, me tornavam curioso, me assombravam, também me forneciam, além de novas questões, respostas para perguntas existencialistas e além...
Mister se faz perceber o quão importante são as informações imaginadas pelos autores e escritores, e desenhistas, e artistas etc, pois deles também vêm dúvidas, temores, assombros, medos, alegrias e novas respostas...compartilham-nos, assim, com suas idéias, que vêm de suas psiques...e tal como Carl Gustav Jung asseverou, a função do artista é maior do que a do “homem comum”. Como homem, o artista também tem um dever maior, de trazer da psique aquilo que ainda não está materializado: como missão imperiosa a si mesmo e a seus contemporâneos, pois traz a vanguarda, aquilo que precisa ser materializado e comungado, simplesmente para auxiliar na continuidade do caminho da “evolução” humana, do devir, do descobrir-se e ir além, transcender-se...
As tais das interdisciplinaridades nada mais são do que pontes para a transcendência (transdisciplinaridades)...
Termino este interstício citando um pensamento de um artista que compreendeu isto também:

“O artista não deve levar em consideração as distinções entre convenções formais ”reconhecidas” ou “não reconhecidas”, os ensinos e desejos da sua época. Deve estar atento à vida interior e às demandas da necessidade interna. Assim, poderá servir-se com impunidade de todos os meios proibidos aos seus contemporâneos. Esta é a única forma de expressar a necessidade mística. Todos os meios resultantes são sagrados. Todos os meios que não são justificados pela necessidade interna são pecaminosos.” (Wassili Kandinski)

Os artistas, como os grandes sábios e “místicos” não são pessoas que fogem da tal “realidade” (que a ciência tem descoberto ser uma das possibilidades de muitas dimensões e de mundos e até universos paralelos)...são seres que conseguiram afinar seu hemisfério direito (da criatividade e intuição), utilizando-o mais do que as que se acostumaram ao cotidiano lógico e linear (deflagrando mais o hemisfério esquerdo).
Por isso, não são quimeras o que imaginam, mas possibilidades (quânticas), que podem se formatar e passar a existir.
Os artistas, assim, não são apenas profissionais da arte e estética, mas acima e antes de tudo isso, trazedores e formadores de novas realidades!




Gazy Andraus; São Vicente, 17 de setembro de 2008.

P.S: (Neste artigo resolvi inserir apenas uma “HQ de arte, de minha autoria, intitulada: “Multi-“. Ela serve para ilustrar a essência do tema de minha reflexão);

(Este texto e arte foram escritos/desenhados sob a audição da música “Castle Walls” do disco “The Grande Illusion” do grupo de art-rock Styx)

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

17 de setembro de 2008

 


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