instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Início da Maturidade – XXII: O Início da Tese...

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Entre o final do mestrado e início de meu doutorado pude desenvolver um pouco melhor minhas HQ, continuando as publicações alternativas, e participando de fanzines. Ao mesmo tempo, dava mini-cursos e palestras sobre quadrinhos e zines, em vários estados do Brasil.
Mas como disse, buscava colocação em alguma faculdade, como professor.
Porém, em 2002 surgiu uma oportunidade diferente. Pouco antes, já começando a participar do NPHQ da ECA – USP, coordenado pelo prof. Waldomiro Vergueiro, fui ampliando meus estudos sobre a Nona Arte. As reuniões, que acontecem até hoje, ocorriam uma vez por mês, nas sextas-feiras, das 20 às 22 horas. Em geral estudamos um livro até esgotar seus capítulos, e partilhamos notícias gerais e específicas acerca do universo das HQ, desde os lançamentos até questões acadêmicas.
Com tais pressupostos, e meu envolvimento cada vez maior no grupo, resolvi tentar montar um projeto para o doutorado.
Porém, devo lembrar que intentei por duas vezes, após o mestrado e antes dessa tentativa na USP, ingressar com projeto de doutoramento, daquela vez, na Unicamp. Na primeira, foi na área de multimeios, com um projeto em que eu mesclava HQ com as questões que usei no mestrado, com alguns diferenciais. O título era: “As HQs Koânicas multimidiáticas e os novos paradigmas científicos: da mente hilotrópica à holotrópica”. Eu buscava aperfeiçoar os estudos com relação ao que abordei no mestrado, já que inseria física quântica e koans zen-budistas. Para o doutorado, usaria Stanislav Grof, que vinha nessa esteira de minhas pesquisas, afirmando que a mente humana tinha dois chaveamentos possíveis: um era ao cotidiano (racional e linear: hilotropismo) e outro para além desses limites (intuitivo, alinear: holotropismo), como queriam os koans e as HQ koanicas. Eu unificaria isto tudo tentando bolar e estudar HQ mulmidiáticas que auxiliassem nessa incidência mental.
Nem fui aprovado para a segunda fase (mas admito que o projeto estava ainda inconsistente na questão das HQ multimidiáticas).
A seguir, pouco tempo depois, readaptei o projeto para o curso de pós-graduação em Educação da Unicamp, com o título: “As HQs Autorais como meio artístico-comunicacional de estruturação ético-estético do discente universitário: rumo a novos paradigmas científicos (da mente hilotrópica à holotrópica)”.
Dessa vez, fui à segunda fase, mas lá me barraram.
O interessante é que, quando adentrei a sala de entrevistas, percebi uns 4 professores (apenas um do sexo masculino, que parecia ser o líder).
Inicialmente, em posse de meu projeto, a pergunta que ele me fez foi assim:
“- O que você está querendo aqui?”
No momento exato percebi que ele estava criticando meu projeto, como se fosse um devaneio ou algo fora de lógica, distante de um trabalho “sério” acadêmico.
Após algumas explicações e a intervenção de uma das professoras, querendo saber se eu mexeria com desenho animado (área de interesse de uma delas), em que retruquei que poderia ser, mas não como principal foco, retirei-me intuindo que não seria aprovado.
E não fui!
Até hoje percebo a grande diferença entre o preconceito, as questões de mudanças paradigmáticas, e como o lado racional pode tolher as mentes das pessoas (isto vocês perceberão daqui a pouco).
Passei, antes disso, a achar, vez ou outra, que meu projeto estava mesmo um pouco “irreal”. Talvez o educador da Unicamp estivesse certo e eu muito imaturo...mas isto remete à questão de quando prestei vestibular para Artes na USP, quando eu tinha 19 anos. Não tendo sido aprovado, percebi pelas notas da prova de aptidão que queriam alunos com base artística teórica mais madura...ora, para uma faculdade que pretende desenvolver estes quesitos, só os que possuem conhecimentos amplos seriam contemplados? De que adiantaria aos que aspiram conhecer mais na área artística, se já se impede o ingresso desses?
Retornando à questão do doutorado, foi somente após a fase que ingressei no NPHQ da USP, e tendo mostrado interesse em continuar os estudos acadêmicos, que expus ao Prof. Waldomiro Vergueiro as possibilidades dos projetos que eu possuía. Além daqueles anteriormente mencionados, expliquei de um outro que estava montando, que pressupunha a defesa do uso de HQ para a área universitária. O tema deste último, particularmente, estava me despertando cada vez mais interesse, conforme eu assitia as reuniões do NPHQ, incentivando-me a completá-lo e provavelmente submetê-lo em lugar dos anteriores.
Resolvi prestar o doutorado, então, bastando escolher qual seria o orientador: havia, além de Waldomiro, outro professor da USP com quem eu falei por telefone, mas na área de artes, e estava por definir a escolha para poder finalizar a inscrição e prestar os exames (já que o Waldomiro era da área de Ciências da Comunicação).
Por fim, optei pelo Waldomiro, devido à proximidade com quadrinhos, fiz as provas, submeti o projeto, e fui admitido.
Iniciei então um novo percurso, muito diferente do anterior no mestrado, com mais incisão nas pesquisas, com mais envolvimentos e mais buscas. De um trabalho extremamente exaustivo, tendo feito várias disciplinas na pós que me angariaram diversas monografias pertinentes, incluindo novos encaminhamentos, fui amplificando o alcance inicial de meu projeto, até que desembocou em uma pesquisa também tripla, como o foi no mestrado (lá aglutinei HQ aos koans zen-budistas e à física quântica). No doutorado, juntei as HQ para uso universitário a uma pesquisa do funcionamento mental dos dois hemisférios cerebrais e as respostas no ato da leitura, além da mudança paradigmática do pensamento da física clássica para a quântica, que também fez cair o sistema puramente e exclusivamente cartesiano do ensino: a deixa para inserções de arte na educação, em especial dos quadrinhos, que têm em sua linguagem a imagem desenhada aliada ao texto escrito, incidindo diferentemente nos hemisférios cerebrais: no direito a imagem, no esquerdo a escrita, o que é mais vantajoso do que apenas o uso da escrita fonética cartesiana no ensino, a qual amplifica o hemisfério esquerdo (racional e linear) em detrimento ao direito (intuitivo, criativo), mas que pode ser impulsionado pelas histórias em quadrinhos, como mostrei depois na tese.
Dessa forma, foi uma tese bastante complexa, pois tive que me embrenhar na área do funcionamento cognitivo cerebral e no histórico da mudança paradigmática da física, além de muitos outros detalhes, como a distinção das HQ de entretenimento e as que são exclusivamente para fins didáticos.
Mas gostaria de finalizar o caso do meu projeto que não foi aprovado na Unicamp, e até rejeitado de forma quase irônica (a meu ver).
Será um fato curioso que ajuda a ilustrar que realmente o ser humano é presa de sua própria psique limitante, devendo ter o cuidado para que não deixe de expandi-la (advirto que a mente é neuroplástica, o que possibilita isso, caso haja estímulos).
No último ano de meu doutorado, em 2006, conheci o Prof. Elydio dos Santos Neto, da UMESP, que muito me auxiliou na finalização da tese. Ele lançou seu livro em 2006, que logo adquiri: “Por uma educação transpessoal. A ação pedagógica e o pensamento de Stanislav Grof.” (vide fig. 1 e 2).
O curioso é que foi fruto de seu doutoramento pela PUC-SP, que trazia, através do pensamento e prática de Grof, uma ampliação da consciência dos educadores! Ou seja: o que parecia ser maluquice de minha parte para os professores da UNICAMP, na área de Educação, em 2001, surgiu em 2006 em forma de livro (cujo doutorado deve ter se iniciado quase no mesmo período que intentei ingressar com meu projeto na UNICAMP), o que mostra que tudo depende mesmo de abrir a mente, a percepção, para outras formas de interação com a realidade. Coisa que, ao que parece, ainda não está muito bem colocado em muitas universidades, ainda mais em seus cursos que se dizem de Educação. Dessa forma, meu projeto que incluía Stanislav Grof (Fig. 3), embora tendo sido desprezado na Unicamp, pois que parecia ser absurdo, talvez, aos da banca examinadora do projeto, se mostrou interdisciplinar e atualizado aos que permitiram o Elydio seu ingresso visando a questão da transpessoalidade da teoria de Grof, pela PUC! Ou seja: aquilo que parece estultícia a uns, pode ser, em realidade, algo mais afeito aos novos tempos, mas que não está sendo percebido como tal, devido a paradigmas antiquados.
Portanto, é preciso dirimir nossas respostas automatizadas a quaisquer fatos que ainda nos causem estranheza: nem sempre são as quimeras que aparentam... Mas muitas vezes partes da natureza, da lógica, ainda não vislumbradas, por pertencerem a um novo paradigma a ser descoberto: o que auxilia na expansão de nossas mentes neuroplásticas! Como a arte nos faz...como os quadrinhos nos trazem.


Fontes das Imagens:
SANTOS Neto, Elydio dos. Por uma educação transpessoal: a ação pedagógica e o pensamento de Stanislav Grof. São Bernardo do campo: Metodista; Rio de Janeiro: Lucerna, 2006. (Figs. 1 e 2)
Association for Transpersonal Psychology – ATP. Stanislav and Christina Grof Photo Archive. http://www.atpweb.org/grof/slideshow2/image-pages/pix.asp?cp=58&pp=0. Acesso em out. 2008. (Fig. 3)


Gazy Andraus; São Vicente, 10-14 de outubro de 2008.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

17 de outubro de 2008

 


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