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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXVI: O Cérebro Triuno

Meu projeto de doutorado havia se iniciado com o pressuposto de buscar justificativas para a utilização das histórias em quadrinhos nos cursos universitários. Eu usava essa prerrogativa, pois acreditava que, assim como eu possuo conhecimentos gerais devido à leitura de HQ durante a minha vida, muitos adultos universitários poderiam singrar pelo mesmo caminho, ainda mais com quadrinhos especificamente para leitura paradidática.

Porém, meu projeto foi sofrendo modificações enquanto eu cursava disciplinas na pós-graduação da USP, como a "Linguagens e Tecnologias" que teceu a importância da ficcionalidade numa visão antropológica à comunicação humana, e "A mente e a Máquina:leituras em inteligência artificial e comunicações" – esta dada na Escola do Futuro – que me fez estudar e ler textos das mais variadas vertentes científicas, indo da cognitiva à robótica incluindo questões do funcionamento cerebral.

Essas novas informações, mais meu histórico no mestrado (em que havia exposto as HQ "Fantástico-filosóficas" que se prestavam como koans zen-budistas, cujas mensagens eram para a mente intuitiva eclodir) contribuíram para uma tese cada vez mais complexa, cujo embasamento à utilização dos quadrinhos como material informacional foi sendo mais atinente às questões cognitivas, mas também às mudanças paradigmáticas na ciência, em especial, da física clássica à quântica. Curiosamente, a mesma mistura eu havia gerado no mestrado: às HQ fantástico-filosóficas eu abordei a ruptura de uma ciência clássica linear para outra quântica, alinear e paradoxal, incluindo os quadrinhos no rol das artes, já que eu fazia mestrado em Artes Visuais pela Unesp (fig. 1). No doutorado, culminei na área de Ciências da Comunicação, explorando os desenhos dos quadrinhos como elementos de informação que atuam no hemisfério direito cerebral, enquanto que a linearidade da leitura e dos textos fonéticos se prestam ao hemisfério esquerdo (racional).

Porém, eu não cheguei fácil a compor a tese: precisei ir organizando os tópicos, e minha cabeça, delineando primeiro a necessidade da ficcionalidade e imagem para o ser humano (fig. 2). Depois revisei a evolução da história científica, expondo como se foi dando o encaminhamento de uma ciência clássica, cartesiana, para outra distinta, quântica e que pede uma abertura mental maior para que se interprete seu funcionamento paradoxal (fig. 3). Isso foi importante, pois mostrou que os próprios físicos não entendiam racionalmente a estrutura funcional do microuniverso...eles precisaram passar a aceitá-lo! Ou seja, suas mentes tinham que entrar em outras lógicas, paraconsistentes, e não apenas a lógica racional (que o senso comum pensa ser a única). Daí, associando isso, pus em andamento um pouco do histórico das descobertas neurocognitivas, principalmente a partir da década de 1950, quando operações cindindo os hemisférios cerebrais para curar epilepsias, acusaram as funções diferenciadas de ambos hemisférios. Depois, graças às tomografias computadorizadas (e toda a ciência tecnológica atual, incluindo lasers graças à física quântica) foi-se aprendendo como o cérebro funciona, em que áreas se dão atividades como leituras, sonhos, meditações etc (fig. 4). Com isso descobriu-se, por exemplo, que a leitura dos ideogramas pelos chineses se dá em alocações do hemisfério direito também, diferentemente da leitura pelo esquerdo, dos fonemas (fig. 5).

Esse foi o mote para eu defender uma mente abrangente, sistêmica e alinear, não apenas cartesiana, e que se dá mediante um ensino também complexo e que une a arte ao cartesiano: justamente a falha na educação acadêmica. O exagero na racionalidade atrofia a intuição e criatividade: o hemisfério esquerdo expande enquanto o direito tem seu potencial minimizado. Os quadrinhos, por serem arte, feitos de desenhos (elaborados por hemisférios direito/esquerdo de seus autores), podem melhorar esse ensino, instaurando uma dinâmica, a emoção, a fraternidade, a sensibilidade na leitura. E há quadrinhos adultos, e de entretenimento, bem como de divulgação científica especialmente para o ensino. E mais: o cérebro, como sabe agora, sendo neuroplástico, pode ter sua inteligência sempre estimulada, inclusive na fase adulta!

Waldemar de Gregori, pesquisador cibernético, foi minha principal bibliografia na tese, nesta parte: ele também inseriu, além dos dois hemisférios, a porção central reptiliana, responsável pela subsistência vital dos animais. No caso, associou, além da racionalidade ao hemisfério esquerdo, a criatividade ao direito, a praticidade, o pragmatismo à porção central (fig. 6).

Foi assim que deslindei o fio de "Ariadne" de minha tese, tendo conseguido me embrenhar nesse labirinto, mas voltando dele são e salvo, com um novo conceito que pode ser usado para defender a incorporação dos quadrinhos (das artes) em toda a estrutura do ensino, não simplesmente para torná-lo "agradável", mas essencialmente como parte olvidada, porém necessária à estruturação completa da mente inteligente sistêmica humana! A seguir trarei mais alguns detalhes desta questão tri-cerebral. Para ter acesso à minha tese basta acessar o blog: http://tesegazy.blogspot.com/ que dá links também para minha dissertação de mestrado e outros trabalhos meus, incluindo os artísticos com histórias em quadrinhos e ilustrações.




Gazy Andraus; São Vicente, 26 de março de 2009

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

07 de abril de 2009

 


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