instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXVIII: Processo Criativo na Elaboração de Uma HQ

No último texto eu já havia chegado à fase do final do doutorado, e por essa razão dei uma pequena parada na minha biografia, retornando agora. Vou falar de um evento que participei recentemente, em que tive a oportunidade de demonstrar como se dá o processo criativo de uma HQ de minha autoria, e que de certa forma, tem a ver com a tese (e com minha proporia vida e a busca do saber).
Foi no II seminário de Pesquisa em Cultura Visual, evento acadêmico realizado pelo curso de Pós-Graduação da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da Universidade Federal de Goiás (UFG), com o meu trabalho intitulado “O Processo criativo na elaboração de uma HQ fantástico-filosófica: o sistêmico em contraponto ao fragmentado”, elaborando ao vivo, sob a audição de música, uma história em quadrinhos, para que o público pudesse perceber como se dá esse processo num autor, e as diferenças possíveis entre o fazer artístico e o elaborar cartesiano racional de uma pesquisa, quer seja a própria escrita do artigo sobre o trabalho, ancorada em teses de criatividade reconhecidas academicamente. Na verdade, um pouco do que tenho feito e vivido em minha vida adulta, especialmente na profissional, já se encontrava entranhada desde meu passado integral. Quando criança, conforme já expliquei nos textos iniciais, eu desenhava muito, mas havia em mim uma inquirição acerca da vida e da existência. Nunca deixei de imaginar o que é isto tudo, e como temos o dom de nos colocar como observadores deste enigma que é a vida. Creio que os quadrinhos, com seus desenhos criativos e cores me alimentaram mais ainda na questão desse deslumbramento! Na adolescência, o poder das HQ de super-heróis que aliavam tópicos de ficção-científica, me mantiveram curioso e apaixonado pelos desenhos naturalistas, em que cada autor deixava seu estilo pessoal, como uma marca caligráfica. Os traços de John Aparo, Jim Starlin, Michael Golden, Joe Kubert, Neal Adams, Gil Kane e muitos outros me davam vontade de desenhar, de tal ímpeto que somente quem passou pela experiência pode conceber!
Nos meus escritos redacionais ginasiais e colegiais havia muito de criativo e também de filosófico. No decurso da faculdade de artes desenvolvi, como trabalhos teóricos, um texto sobre Will Eisner (e principalmente sua obra magnífica e humana “O Edifício”, com toques fantásticos), e um trabalho que prenunciou minha tese: junto de outro amigo montamos um projeto do que seria um plano de aula, um mini-curso, que envolvia o ato de desenhar com a ampliação da consciência, embasando-me com o livro “Desenhando com o Lado Direito do Cérebro”, de Betty Edwards. Olhando para trás vejo como os embriões do que sou hoje no terreno acadêmico já estavam sendo germinados, em meio às agruras (plantas daninhas?), que me fizeram crescer em consciência face às vicissitudes (as quais até hoje colho), embora tenham mudado um pouco de aspectos, mas mantendo o mesmo enfoque: a busca da solução do enigma do que é a vida, e de como ser feliz nela, como bem lembrou Santo Agostinho.
Talvez seja por isso que quis demonstrar nesse último trabalho apresentado em Goiás, o processo criativo que me inunda e como me faz trazer uma arte, em paralelo à minha busca interna de autoconhecimento. Para a proposta eu mixei alguns trechos de músicas, como rock e árabe: Saxon (com uma introdução à La Canto Gregoriano) + Black Sabbath (a belíssima canção Dying for Love) + Helloween e Jose Fernandez com Wadih el Safi. Iniciei a apresentação desenhando durante 4 minutos sob audição musical, e depois parti para a explicação teórica, utilizando-me principalmente de Amit Goswami e seu livro “Criatividade Quântica”. Nele há o básico teórico concernente ao processo criativo, com as 4 etapas consagradas: 1-Preparação (reunião de fatos e ideias sobre uma questão formulada); 2-Incubação (deixar as idéias fluirem sem se preocupar), 3-Iluminação ou insight (perceber um momento-chave, eureka, um “ah-há!”, como resolução da questão) e 4-Verificação ou manifestação (etapa final, para por em prática o achado, avaliando e verificando o desenvolvimento da resposta). Além disso, o físico situou três parâmetros teóricos sobre a criatividade, quais sejam:
1-A perspectiva material realista e a classe mecanicista de teorias da criatividade;
2-A perspectiva organicista e a classe organicista de teorias da criatividade e
3-A metafísica idealista monista e a classe idealista de teorias da criatividade.
Obviamente, vali-me também de minha tese e dos três cérebros (hemisférios esquerdo, direito e porção central) da teoria de Waldemar De Gregori, sustentando que o processamento criativo deve se dar inicialmente pela intuição criadora, deixando a organização para o racional. O interessante é que, ao fim, a HQ que criei realmente tinha uma seqüência hai-kainiana como as que costumo elaborar (e que chamo de fantasia-filosófica), e nesse caso, não só influenciada pela música, mas também pela palestra antecessora, dada por Elydio dos Santos Neto, em que ele mostrou um pouco da teoria de Stanislav Grof, defendendo o homem hilo e holotrópico, tendo como imagens desenhos de bebês no período perinatal (fig. 1). Isto explica o bebê que desenhei no primeiro quadrinho (fig. 2). Mas note que na seqüência há um olho em close com os dizeres: “da clausura ao despertar” (fig. 3), para em seguida surgir um “sol” com o texto: “há uma união” (fig. 4), finalizando numa mão que sustenta algo que parece o sol com a lua, aparecendo: “do todo ao uno” (fig. 5). Em síntese, a frase separada dentro da HQ,diz o seguinte:
“da clausura ao despertar...há uma união...do todo ao uno”.
E os desenhos sugerem que o bebê (o ser humano) sai de uma “clausura”, uma “cela” (que pode ser vista num cubo no segundo quadrinho), despertando, acordando na vida tridimensional, supondo uma união evidenciada do universal (do uno, o diverso, como dizia Huberto Rohden). Aqui, a clausura bem poderia ser o útero materno, e ao ser inserido em nossa realidade, o bebê (futuro adulto), tornar-se-ía uno com todos...lembrando que do “Um” (“1”) vem o diverso: assim, todos formam uma união que vem do que se supõe chamar “Deus” (cosmo etc). Interessante reiterar que a palestra precedente de Elydio enfocou justamente nascimento, sofrimento e luta para uma “vitória” do espírito humano para com a vida, fazendo a leitura de uma história em quadrinhos do Homem-Aranha roteirizada por Stan Lee e desenhada por Steve Ditko, em contraponto às HQ de Edgar Franco (tendo como base nisso tudo, conforme mencionei, a teoria de Stan Grof). Assim, concluo que, realmente, a consciência intuitiva abrange informações cósmicas e de um inconsciente coletivo universal: ao permitir que o hemisfério direito atue primeiro, ele se sintoniza como uma antena para captar tais informações, sendo agrupadas, filtradas e organizadas posteriormente pelo hemisfério esquerdo do cérebro, que é racional (mas também não criativo). Se meu processo criativo fosse outro, em que eu desse vazão primeiro à racionalidade, provavelmente o resultado seria diferente, similar ao que é uma elaboração racional cartesiana de um artigo (como esse que busco tecer). Não que fosse ausente de criatividade (e vice-versa), pois ambos hemisférios trabalham juntos: aqui, o que ponho em pauta é o enfoque, em que a “coragem” de forçar a criatividade antes, causa diferenciais entre os processamentos: no caso do exercício que propus (similar ao ato criativo que tenho em casa ao desenhar), o enfoque em me deixar levar pelo intuitivo (propiciado por outro estado alterado de percepção, graças, no caso, às músicas ouvidas). Eu permiti, assim, que o processamento intuitivo/criativo do hemisfério direito antecedesse o racional, concluindo que a HQ que produzi é diferente daquela que é produzida primeiramente por um processamento, digamos, mais racional em primazia: nesse caso, dou exemplos que são histórias em quadrinhos padrões cujos roteiros são mais lineares e mais continuados, como as HQ de super-heróis que buscam ficar explicando detalhadamente seus meandros. Nesse segundo caso há muita interferência racional, em que os autores vão elaborando detalhes linearmente às histórias
Mas estas questões aqui estão apenas esboçadas, pois as pesquisas nesses campos não são muito difundidas, e por isso, aparentemente em menor quantidades. Como exemplo: o impacto que a leitura de desenhos dá em nossa psique, ou a música: esta última sim, tenho visto mais artigos a respeito, em revistas especializadas científicas. Mas quanto aos desenhos, ainda, a meu ver, carecem de um estudo mais aprofundado, e que pedem medições com tomografias computadorizadas na leitura dos desenhos (e por que não, das HQ).

Para ver minha apresentação (figs. 6 e 7), há dois links no youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=KK9SiWCSsyw (este é um trecho curto)

http://www.youtube.com/watch?v=k3d_xuog7Uk (este é o video completo)


Referencial:

ANDRAUS, Gazy. As histórias em quadrinhos como informação imagética integrada ao ensino universitário. Tese de doutorado. São Paulo: ECA-USP, 2006.
CAPRA, Fritjof. O Tao da Física. São Paulo: Cultrix, 1990.
DE GREGORI, WALDEMAR. Os poderes dos seus três cérebros. São Paulo: Pancast, 1999.
GOSWAMI, Amit. A física da alma. São Paulo: Aleph, 2005.
MOORE, Alan. Argumentos. Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, Câmara Municipal de Amadora, Devir. Amadora: setembro de 2002.


Gazy Andraus; São Vicente, 14 e 15 de julho de 2009.

Professor da UNIFIG, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

31 de julho de 2009

 


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