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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXX: A Atualidade Acadêmico-Artística

Neste texto gostaria de repassar as impressões acerca de meu envolvimento atual com as histórias em quadrinhos, após mais de duas décadas trabalhando nelas, tanto artística como academicamente. Percebo que a valorização a qual eu e muitos outros autores e pesquisadores brasileiros de minha geração buscavam, começou a tornar-se real nesta década de 2000 que ora finda. Era impensável anos atrás achar que quadrinhistas nacionais teriam seus álbuns publicados, como Laudo Jr. Com seu recente Yeshuah (fig. 1)ou Luciano Irrthum e a adaptação do Corvo de Edgar Alan Poe (fig. 2). Todos nos conhecemos via fanzines a partir de meados de 1980, e algumas vezes indo a eventos esparsos de HQ e fanzines montados por outros faneditores. Atualmente, o MEC e o governo Federal valorizam a autoria dos quadrinhos, e por sua vez editoras brasileiras publicam em formato de álbuns. E não são poucas as editoras. Waldomiro Vergueiro e Paulo Ramos (organizadores do livro “Quadrinhos na Educação”, lançado pela Contexto em 2009 (fig. 3), advertem que no Brasil, especialmente desde a mudança da Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (LDB), ocorrida em 1996, os quadrinhos começaram a ser usados aconselhados pelos PCNs a partir de 1997, e de lá para cá além de um aumento na sua utilização, o PNBE passou a adquirir álbuns de HQ para bibliotecas escolares.
Porém, a demanda atual brasileira de adquirir HQ para bibliotecas e escolas, tem se pautado especialmente pelos quadrinhos literários e históricos. Ainda assim, o crescimento do mercado editorial brasileiro com quadrinhos em formato de álbuns tem melhorado a situação da valorização dos quadrinhos, que antes nem chegavam perto das escolas, e existiam mais em formatos de revistas recicláveis. Enquanto na Europa já era corriqueira sua venda em livrarias, e em formatos de álbuns (fig. 4) , aqui no Brasil isso começou a tomar mais força, especialmente da última década para cá, modificando o conceito de “gibis” (revistas recicláveis), para edições que podem ser mantidos para consulta, o que valoriza em muito sua apreciação. Com isso os autores brasileiros têm seu trabalho melhor valorizado, reconhecido e adquirido por editoras que disputam suas publicações.
É claro que na década de 1980 editoras como L&PM e Martins Fontes fizeram tentativas ótimas de publicar HQ em formato de álbuns (figs. 5), e os jornais daquela época principiaram a falar mais das HQ (fig. 6), como há muito não se lia...porém, foi um “bum” que definhou devido, principalmente à política financeira do país e uma inflação homérica que chegara aos 80% ao mês!
Ainda assim, todos os esforços de valorizar os quadrinhos, embora aparentemente efêmeros algumas vezes, foram os que, somados, trouxeram esse valor inusitado e até – de certa maneira – mais rápido nessa valorização, do que eu e muitos outros acreditavam (ou imaginavam que se demoraria bem mais...).
Obviamente, essas edições dos anos de 1980, as miríades de fanzines (fig. 7) e trabalhos árduos dos autores, muitos tendo se tornado também pesquisadores, fizeram a diferença e conseguiram penetrar em todos os setores da mídia e principalmente educação: hoje em dia, uma grande parcela dessa valorização dos quadrinhos, sem dúvida, merece ter sua causa creditada a esses autores/pesquisadores: Henrique Magalhães com sua editora Marca de Fantasia, agraciado nesse ano de 2010 com o prêmio Angelo Agostini de mestre nacional por sua obra autoral (fig. 8), Edgard Guimarães com seu QI (outro premiado), André Diniz, Calazans, Edgar Franco, Moacy Cirne, Sonia Luyten, Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos, Gian Danton etc formaram um “exército” de ideias e ideais levando suas artes e pesquisas a todos os cantos nacionais (e internacionais), num estandarte que não deixa dúvidas quanto ao valor dos quadrinhos...
Ou ainda deixa?
Para os próximos artigos, é possível que eu traga em pauta mais questões acerca dessa intricada questão do valor dos quadrinhos, e do arraigamento preconceituoso quanto a seu valor cultural, que ainda grassa em algumas mentes desavisadas...sempre há tempo de se esclarecer e trazer à luz conceitos embaralhados e “mofados”, limpando-os e atualizando-os! E também devo falar da HQ “A vida em um Corazon” que fiz para o ZineRoyale 4 bem como a HQ “Deinomon” para a Camiño di rato 3, já que indiquei isso no último artigo e acabei substituindo por essa reflexão sobre a valoração quadrinhística...

Gazy Andraus; São Vicente, fevereiro/março de 2010.

Coordenador do Curso de Artes da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

31 de março de 2010

 


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