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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXXI: A Atualização dos Sentimentos e Além (parte 1)

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http://tesegazy.blogspot.com/

Neste e nos próximo 4 artigos eu traçarei uma fase diferente em que sentimentos pessoais influenciaram mais ostensivamente na minha elaboração de algumas HQ.
Meu pai se foi deste plano no mês de abril desse ano, e tenho algumas considerações a tecer, mas antes, gostaria de expor duas histórias em quadrinhos mais antigas e que têm a ver com minha formação cultural, incluindo questões ético/estéticas.
Na adolescência, quando convivia no bar-restaurante comercial de meus pais, e desenhava compulsivamente para equilibrar meu sentimento contrário de ter que estar naquele estabelecimento em vez de ter uma vida “normal” como os outros meus amigos que viviam em suas casas (e não no trabalho), eu passei por duas fases interessantes.
A primeira foi aos 13 anos quando minha avó materna veio e conviveu conosco por um ano. Quando ela nos deixou para retornar ao Líbano fiquei praticamente mais um ano entristecido com essa “perda”, pois em alguns momentos durante o dia eu ficava com ela em nosso apartamento (quando eu tinha que estudar).
Foi uma grande tristeza para mim, pois ela “substituía” a figura da mãe na residência, e simulava aquela “normalidade” que eu queria, visto que minha mãe muito trabalhava no restaurante.
Foi a primeira vez que senti uma tristeza tão grande, a qual me foi preparando para outras situações e reconhecimento de que o ser humano tinha coisas a desvendar acerca de sua existência.
Mais um tempo depois e um amigo da família oriundo do Líbano e que se “virava” vendendo queijadinhas na cidade de São Vicente/SP (sendo que almoçava sempre no nosso restaurante), teve uma morte por ataque cardíaco...mas a vida dele me sensibilizou, pois que aqui no Brasil vivia humildemente em um quartinho alugado em alguma pensão e vivia da venda dos doces, sendo um homem solitário e muito humilde. Sua morte me deixou perceptivo e sensível quanto ao que cabe a cada um de nós na Terra. Parecia, a meu ver, que a vida dele não deixou marca alguma, pois não tinha mais família aqui e de repente deixara de existir!
Anos depois, eu já adulto e realizando minhas HQ “fantástico-poético-filosóficas”, fiz uma HQ que deixava transparecer meus sentimentos quanto a essa situação que muito me marcou, em que a batizei de “Homenagem ao homem esquecido” (figs 1 a 5), e publicada na excelente e infelizmente extinta revista Tyli-Tyli (n. 3, agosto de 1995), editada pela Marca de Fantasia, de Henrique Magalhães.

(leia, por favor, a HQ a seguir, antes de continuar esse meu texto).



Como se vê pela leitura dela, a existência daquele ser humano não foi nula, mas contribuiu da sua maneira na formatação da consciência de outro ser (no caso, eu). Ou seja, a existência de cada um de nós já se me revelava como importante pois influenciável, ainda que não pudéssemos perceber de forma mais ampla...quase como a questão da ciência fractal e o efeito “borboleta” em que se exemplifica com o bater de asas de um lepidóptero em determinada região criando até um furacão tempos depois em outro local distante, sendo todos os fenômenos interligados, ainda que perceptivamente difíceis de conceber!
A seguir, como uma continuação desse meu relato, exponho mais um fato que muito repercutiu em minha psique, só que já adulto...

Gazy Andraus; São Vicente, maio/junho de 2010.

Coordenador do Curso de Artes da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

16 de junho de 2010

 


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