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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXXIII: A Atualização dos Sentimentos e Além (parte 3)

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Para visualizarem melhor as HQ e desenhos desse texto, salve cada imagem numa pasta e depois abra e dê zoom. Assim será possível ler as histórias em quadrinhos).

Como dito anteriormente, uma fase muito forte para mim ocorreu esse ano, mas que não deflagrou uma HQ, e sim uma carta-dedicatória a meu pai, que novamente fraturou o fêmur, dessa vez o esquerdo (já havia fraturado o direito em 2006), e por fim veio a falecer após a cirurgia bem sucedida, por outras complicações, como a pneumonia.
Porém, a fase me deixou ainda mais reflexivo, apesar de eu já ter bem mais conhecimento e maturidade emocional para sustentar o que adveio...como disse, não realizei nenhuma HQ após sua ida, recente, mas deixei um texto bastante inspirado, que pode ser lido a seguir, e que se coliga a meu percurso nesse encaminhamento profissional, e antes de tudo, humano (fig. 10):



A alma de meu pai se apresenta apenas em estado ondulatório a partir de agora

Pessoas fraternas

Nesse dia 24 de abril de 2010, a alma de meu pai abandonou sua formatação corpórea, e, de acordo com o físico e espiritualista indiano Amit Goswami, se porta agora apenas como onda, na possibilidade crível da existência. Ou seja, nós, ainda “vivos” na tridimensão, nos apresentamos como resposta possível de nossa alma, como existência “corporal” (partícula) e ao mesmo tempo como “ondulatória” (a alma). A partir do momento da “morte” física, a alma passa a singrar novamente apenas em estado de onda, buscando, quando necessário, outra possível futura formatação corporal para co-existir no tempo/espaço material.
Nesse caso, meu pai, Said Ibrahim Hanna, passa agora a não mais integrar essa tridimensão na qual nos inserimos.
Sua tarefa nessa parte vivencial fora cumprida. Construiu duas famílias e deixou um legado de boas ações que frutificaram.
Por parte da primeira família, embora tenha havido problemas, reatou com Edouard (meu meio-irmão de seu primeiro casamento), em que temos vivido um bom relacionamento. Meu pai já o visitou antes e conheceu seu lar na França, enquanto que meu irmão já veio umas três vezes ao Brasil. Do segundo casamento, minha mãe, Victória, já falecida, era professora no Líbano mas no Brasil trabalhou com meu pai no restaurante. Dessa união vieram eu e minha irmã May, que agora possui uma filha de 6 para 7 anos chamada Victória, extremamente vivaz e inteligente.
Por meu lado, meu pai sempre me incentivou nas coisas que eu queria da infância. O mais marcante era a compra semanal de um gibi, que ele permitia e me dava que acabou sendo meu carro chefe na minha vida, já que me tornei autor de HQ e pesquisador. Além disso, a ética e idoneidade de meu pai sempre emanaram naturalmente dele, o que me influenciou na educação real.
É verdade que foi bem depois que meu pai passou a se tornar um pouco mais calmo, e menos “bravo”, como eram alguns pais árabes. Mas sua “braveza” residia mais em tentar dar o melhor à família e aos filhos.
Desde que minha mãe faleceu em 1992 até hoje, acabei convivendo mais com meu pai, e ele, quase que inadvertidamente, foi se tornando mais vegetariano por minha culpa, embora ainda comesse vez ou outra carne, como frangos, peixes e hambúrgueres e kibes e esfihas. Mesmo assim, ele acabou ficando mais tranqüilo durante os anos (acredito por consumir menos carne), e sua alma cada vez mais apurada, penso eu.
Nesses últimos anos, desde a primeira fratura de sua perna, em 2006, quando eu ainda acabava a tese, eu aprendi a lidar com algo novo: auxiliá-lo na recuperação. Na verdade, um pouco antes disso, em 2002, mais ou menos, eu me “iniciei” nesse caminho quando ele operou em Minas Gerais da próstata. Ali começou minha formação de atenção e cuidado com ele, em que aprendi a lidar com paciência e a desenvolver melhor o caráter no auxílio.
Em 2007 ele achatou uma vértebra e lá fomos nós de novo para auxiliar no seu restabelecimento que não foi muito difícil.
Dessa vez, a fratura do outro femur, teve um desfecho inusitado, pro bem ou pro mal!
Foram 40 dias ao todo no hospital (advertindo que em outubro de 2009 ele ficou uns 10 dias se restabelecendo de uma pneumonia), o que simbolicamente tem a ver com um ciclo de 40 (dilúvio de 40 dias, quaresma etc) de apuro de alma.
Foi como uma preparação para sua alma ir desprendendo sua partícula corpórea. Assim, depois da operação e de sair do hospital, ficou mais uns 5 a 6 dias piorando, até que foi parar na UTI (pneumonia e desidratação), e finalmente, após bastante trabalho de sua alma, conseguiu ir-se para um novo caminho!

Fica aqui esse registro, e de que nesses últimos anos meu amor e apreço por meu pai aumentou consideravelmente, o que contribuiu para eu sentir melhor a fraternidade entre as pessoas, o valor dos que lidam na saúde (principalmente as enfermeiras e enfermeiros!), lembrando que no hospital todos acabavam gostando do meu pai, que tinha uma face bela, a paciência e a amorosidade principalmente com as pessoas que dele tratavam (tinha um médico que o trava por “vozinho”...e quando teve alta da pneumonia em 2009, meu pai pegou e beijou rapidamente a mão de outro médico para agradecer. O jovem médico ficou até sem jeito, pois nunca lhe tinha acontecido isso).
Foi como um rito geral, em que todos se movimentaram para um trabalho de apuração de auxílio e amor, quase como aquela história em que dois grupos aparecem no céu e inferno, e que têm braços tortos. Os do inferno não conseguem se alimentar porque seus braços não levam comida às suas bocas...já os do céu perceberam que direcionando o braço na boca da pessoa à frente conseguiam alimentá-la, que por sua vez era alimentado pela subseqüente e assim por diante.

Enfim, tudo serve para nos mostrar que a espécie humana tem que continuar insistindo em abandonar seu ego e ajudar ao próximo: essa é a chave e o “mistério” que abre as portas da vida real!
Meu pai, com sua face iluminada e feliz à sua maneira, me propiciou esse maravilhoso convívio com ele, o que me deixa lisonjeado e contente de tê-lo tido como pai, e de ter podido ajudá-lo nas necessidades físicas, enquanto que isso me auxiliava em meu apuro no desenvolvimento do amor incondicional!

E até me lembro de Gibran Khalil Gibran, poeta e artista libanês que advertiu em seus belos poemas que os filhos não pertencem aos pais...mas que apenas vêm através deles. E isso me deixa mais contente ainda, porque o que fiz não o foi por obrigação: foi porque eu quis ajudar um ser humano que estava a meu lado.

Assim, é por isso que escrevo dessa maneira, não como uma despedida, mas como uma semente que está frutificando a todos nós, que partilhamos tudo e em todos os lugares do universo: vez ou outra como partícula, ou como onda, bem como ambas ao mesmo tempo.
E assim, sempre nos encontraremos, mesmo que ainda não entendamos e nem saibamos que seja real.

Há Deus, Pai e pai!
Beijo em ti, e te amo.
De seu filho. E de seus amigos.

Gazy Andraus, cujo nome dado por você muito aprecio, na data de 25 de abril de 2010, em São Vicente-SP, mas no Cosmo! Irmanados!


Assim, a carta com base em conhecimento teórico da ciência quântica devido principalmente à teoria do físico e indiano Amit Goswami, se espalhou entre meus amigos e parentes, donde um amigo que comunga comigo os quadrinhos, fanzines e pensamentos espirituais elevados, o Elydio dos Santos Neto, teve duas visões intuídas no dia do velório de meu pai, que serão relatadas no próximo artigo.

Gazy Andraus; São Vicente, maio/junho de 2010.

Coordenador do Curso de Artes da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

30 de agosto de 2010

 


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