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2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

História em Quadrinhos, Imagética e Maturidade – XXXV: A Atualização dos Sentimentos e Além: Um Nefelibata em Busca da Pareidolia Explicada (Parte 5)

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Antes desta queda de meu pai, sonhei que estava acuado num cômodo vazio, só com um telefone à mão e transmitindo uma informação de que algo que eu não gostava se repetia...a sensação era de impotência e de reprise de uma situação desgostosa: vim a saber que vaticinava a segunda operação de prótese de fêmur de meu pai e todos os males decorrentes disso, pelo que ele e eu já passáramos antes em 2006!
Aliado a isso, sempre tenho visualizações de imagens em nuvens, paredes, solos etc, em conformidade com o que Leonardo Da Vinci já havia alertado: para que buscássemos visualizar desenhos em paredes e pedras, desenvolvendo a criatividade inerente. Mas para mim, isso também tem a ver com o que os nefelibatas, que são apreciadores de nuvens e suas ricas formas, têm ao olhar para o céu. A pareidolia (que remete a encontrar semelhança de uma imagem em outra, como por exemplo a visualização de uma santa em uma janela molhada), igualmente me é conhecida e exercitada.
Como estudei um pouco as funções cerebrais principalmente coligadas a imagens, na época da tese, tenho que esses exercícios ajudam no desenvolvimento não só da criatividade, mas têm função semelhante aos sonhos, que podem levar à intuição desperta e alusão ao vaticínio.
Essa lida não é mística nem imaginativa e sim se escora em conceitos da física quântica, se bem aplicada. Esta ciência adverte que o passado, presente e futuro coexistem atemporalmente como possibilidades de conexão. O filme “Quem somos nós” expõe didaticamente como isso se dá: um menino numa quadra de basquete e uma mulher olhando para ele, “ativa” a conexão tempo/espaço ali mesmo (figs. 12 e 13).Mas quando ela se vira de costas, o menino e a bola podem aparecer quanticamente em todas as posições possíveis na quadra...quem vai estipular a posição presente é a interconexão entre a consciência da visão do observador (mulher) ao olhar para a quadra em determinado tempo/espaço, quando se “materializam” a bola e o menino. Este é o “presente” dela, mas como há infinitas possibilidades de conexão, o “futuro” poderia ser outro, dependendo de seu olhar e do momentum...ou seja, o futuro pode ser percebido de antemão e até modificado dependendo de fatores, pois suas possibilidades já preexistem. Mas isso não ocorre talvez porque a “sucessão” de eventos esteja mesmo ligada causalmente à maneira com que o ser humano se coloca e “pensa”. Interessante verificar que numa mesma página de história em quadrinhos pode-se ver passado/presente e futuro: ao focar num dos quadrinhos, o olhar periférico vê o passado lido e prevê as imagens do futuro a ser lidas nos quadrinhos subseqüentes (vide fig. 14).



No dia do falecimento de meu pai, sábado, eu passei antes na UTI e o vi. Depois me encaminhei a São Paulo para um jantar com amigos. Apesar de saber o estado dele, nada mais podia ser feito, a não ser que eu aguardasse. E no metrô eu vaticinei como costumo fazer aleatoriamente e sem premeditar, quando me vêm “visões” de imagens em superfícies: no chão do vagão de metrô visualizei uma mancha parecendo o rosto de meu pai de olhos fechados e acima de sua cabeça um crânio: apesar de eu “ver” sua morte uma hora antes (eu vi isso perto das 19h e ele faleceu às 20h), o semblante dele era tranqüilo!
No dia seguinte, no velório, antes do coveiro fechar a gaveta onde colocou o caixão, vi o desenho de uma ave alçando vôo no cimento que iria ser coberto, e mencionei rapidamente ao meu amigo Elydio para que testemunhasse (lembrando que ele já tinha tido as suas duas visões antes descritas), ao que ele concordou ser o formato mesmo de um pássaro.
A ave simbolizava a partida tranqüila de meu pai, o que muito me reconfortou.
Mas para que os psicólogos não digam que estas visualizações são formas que eu desejo ver, esclareço que não tenho controle sobre elas. Poucos dias antes de meu pai falecer, vi numa superfície um ser alado monstruoso, ao que imediatamente tomei como um mau sinal de que as coisas degringolariam...e foi o que aconteceu, logo após ele sair da cirurgia e aparentar estar tudo bem.
As imagens que visualizo vêm ao encontro, claro, de minha psique: elas têm mesmo a ver com meus sentimentos, e como lido com os fatos, similar à questão quântica das bolas de basquete na quadra: possibilidades que se realizam.
Situações ruins me deixam um mal estar antes, tal como Jung, o idealizador do inconsciente coletivo, tinha ao buscar saber se as pesquisas que fazia eram verossímeis ou não: ele mesmo declarou que se aquietava e deixava seu ser sentir os influxos...dependendo de seu estado, ele acatava ou descartava as teorias, por isso até hoje os alemães não consideram Jung científico...mas ele era sim. A ciência atual, com os prognósticos da tomografia computadorizada e das teorias quânticas mostram que a realidade (e o ser humano) são muito mais complexos do que limitadamente pensávamos, e que nossas mentes ainda não operam tanto quanto repousam possíveis!
É dessa maneira que também tento continuar meus estudos nesse quesito do potencial imagético como parte integrante do ser em sua busca de explicações: para isso criei o fanzine “Nefelibantes Pareidólicos: um nefelibata em busca da pareidolia explicada” (fig. 15) e que irei apresentar como “Narrativa Visual” no “III Seminário de Cultura visual” da UFG em meados de junho desse ano.
Mas essa é outra história...
Ficam aqui estes textos como relatos destas fases, culminadas pela ida de meu pai, e também como homenagem à sua memória!

Gazy Andraus; São Vicente, maio/junho de 2010.

Coordenador do Curso de Artes da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

15 de novembro de 2010

 


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