instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
013
 
 
 
 
 
Gazy Andraus

O Programa Formação em HQ e Zine no CCJ Ruth Cardoso

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Aqui retomo meus textos no IBAC, nessa seção em que exponho minha biografia com especial foco ao objeto que me tem movido tanto artística como academicamente: os quadrinhos, mas também, com bastante ênfase atualmente aos fanzines.
E é assim que quero expor um evento ao qual fui novamente chamado como curador pela Dolores Biruel, gestora de programação cultural do Centro Cultural da Juventude de São Paulo – Ruth Cardoso (anteriormente conhecido como CCJ-SP): o Programa de Formação em HQ e Zine que ocorre nesse centro de cultura destinado aos jovens adultos teve início nesse mês de abril, estendendo-se até novembro e releva a importância do tema ampliando e levando ao público geral e especialmente aos (jovens) educadores uma discussão e formação da cultura das histórias em quadrinhos e fanzines através de debates, palestras e mini-cursos.
Sabe-se que as histórias em quadrinhos (HQ) e zines são especialmente revistas de conteúdo para os jovens (mas obviamente há para crianças e adultos, como quaisquer outras expressões artísticas). Porém, apesar de sua desvalorização e pouco reconhecimento em décadas passadas, há uma inversão salutar na atualidade: professores jovens que cresceram com menos obstáculos aos quadrinhos estão sendo os educadores da atualidade, e podem, graças aos quadrinhos adquiridos pelos projetos dos governos federais e estaduais, utilizar as histórias em quadrinhos e fanzines em casa e nas escolas, formando novos leitores mais conscientes da importância de entretenimento e de informação que tais veículos de comunicação e arte podem trazer incluindo neles a interdisciplinaridade tão em voga. Além disso, podem travar um diálogo mais profícuo e criativo com os jovens (e até com as gerações mais velhas que ainda lecionam e convivem), resplandecendo novos rumos de interação entre o público e os quadrinhos em geral, de uma maneira muito mais salutar à nossa mente neuroplástica (da qual já falei bastante em artigos pretéritos aqui no IBAC)!
Assim, tal evento tem como premissa suprir uma lacuna de maneira pioneira, já que atualiza um decurso durante esse ano de 2011 trazendo a todos os jovens debates, palestras e minicursos oferecidos por autores e pesquisadores renomados de ambas as áreas, que integram HQ, fanzines, entretenimento e conhecimento discutindo e atualizando essas linguagens num momento em que ambas gozam de maior valorização por parte do sistema educacional e pelas mídias, como bem mostram eventos realizados desde o ano passado até agora que enfocaram os fanzines em que eu também participei, tais como a "IV Mostra Nacional de Fanzines e Publicações Autorais HQ – apresentando a nova Fanzinoteca de Santos para o Catálogo 2010" e o "1º Ugra Zine Fest e do Anuário" (e que retomarei em artigos seguintes a esse aqui nessa seção do IBAC).
Eventos como aqueles demonstram claramente como desde o ano 2000 para cá, o que era praticamente inviável foi se tornando realizável: os quadrinhos até então subvalorizados, já que pouco se discutia acerca de seu potencial, foram sendo elevados a outro patamar devido a trabalhos teóricos como tccs, dissertações de mestrado e teses de doutorado, muito graças aos impulsos de núcleos de pesquisa como o "Observatório de Quadrinhos" (antigo NPHQ) da ECA-USP coordenado pelo Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro, e outros, que assentaram o local correto para a Nona Arte demonstrando seu valor real, tanto às artes como no ensino. Aliás, esse ano ocorrem no Brasil as “I Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos” (fig. 1), evento organizado pelo mesmo Observatório de HQ da USP e que vem na esteira do ocorrido ano passado em Buenos Aires na Argentina quando ocorreu o "1º Congreso Internacional de Historietas-Viñetas Serias" (fig. 2) que eu tive o prazer de também participar apresentando meu artigo "Histórias em Quadrinhos como informação imagética".
Hoje, o governo federal brasileiro e prefeituras como a de São Paulo buscam incentivar a utilização das HQ e zines em salas de aula comprando álbuns de quadrinhos e redirecionando-os às salas de leitura das escolas. E muitas dessas escolas entendem que precisam melhorar e modificar suas metodologias arcaicas. Projetos como o PROVE – Projeto de Valorização do educador e Melhoria da Qualidade de Ensino, montado há mais de uma década como uma experiência em uma série de escolas municipais de São Paulo para melhorar a relação aluno/professor, trazem cursos que se estendem durante um ano, para os professores, indo da alfabetização, arte, astronomia e...quadrinhos e zines!
Aliado a isso, expandem-se Gibitecas como a própria HQteca Jayme Cortez no "CCJ Ruth Cardoso" e fanzinotecas, como a "Mutação" do Rio Grande do Sul e a de Santos.
Aliás, os fanzines (do inglês: fan+magazine, que significa revista amadora feita por fãs de variados temas, como ficção científica, quadrinhos, rock, política, consciência, ativismo etc), começam a ser usados não só em escolas, mas em faculdades e até em mestrados de pedagogia (como os "Biograficzines", projeto criado pelo Prof. Pós-Dr. Elydio dos Santos Neto pela Unimetodista).
Agora é o momento da expansão e de chegar em outros locais, como o próprio CCJ que já vem trabalhando com quadrinhos há anos. Porém, este novo evento tem duas particularidades:
1- Aproxima as HQ e zines à comunidade e os jovens da região do CCJ e São Paulo em geral, promovendo uma interatividade;
2- e amplia empregando não só palestras, workshops e mesas-redondas para tal público, como para professores que precisam reconhecer as HQ e os fanzines, não só para possibilitar-lhes um diálogo mais profícuo com seu alunado, bem como a aprender a usar os álbuns de quadrinhos que são adquiridos às suas escolas.
Porém, há um motivo principal e mais geral, embora não facilmente detectado, conforme já expliquei diversas vezes em meus textos no IBAC: ao se depararem com essas artes, as pessoas têm a chance de expandir sua mente neuroplástica. Isso porque as histórias em quadrinhos unem desenhos seqüenciados com textos, sendo que a arte desenhada incide mais no hemisfério cerebral direito enquanto que os textos lineares fonéticos mais nas áreas do esquerdo, o que amplia sobremaneira a inteligência sistêmica. Com os progressos científicos da atualidade, graças aos computadores e à geração de fotografias do cérebro em atividade no tempo real, sabe-se que as imagens (desenhos, arte em geral) propiciam uma ativação do lado direito cerebral – que é atinente à criatividade, intuição, enquanto que a escrita fonética linear atua no esquerdo, que é racional e linear.
Para que haja um equilíbrio mental, diferentemente do que era tido antes na educação, não bastam os exercícios cartesianos e a lógica racional, mas deve-se unir a isso as artes, a música, o desenho, amplificando a inteligência para além do que os conteúdos escolares criam como suficientes (eis porque são falhos e afugentam os alunos).
Os quadrinhos (e os fanzines pela sua variedade de temas e formatos), como quaisquer outras expressões de arte, propiciam isso.
Sendo assim, o evento que o CCJ Ruth Cardoso ora traz (fig. 3), é de suma importância e num momento mais do que oportuno. Alguns dos temas que serão abordados, e autores e pesquisadores que fazem/farão parte do evento são mesas/palestras e oficinas de HQ e Zines como educação e criatividade, o feminino nas HQ, Mangá e zines, caricaturas, os super-heróis, a autoralidade nas HQ de Walt Disney, discussões acerca de editoras e fanzinotecas, bem como convidados especiais como Laerte (fig. 4) e possivelmente Maurício de Souza, Mastrotti, Bira Dantas, Laudo e outros.
Em paralelo ao Projeto Formação em Quadrinhos e Zines há o evento da prefeitura de São Paulo com a Programação Cultural promovida pela Divisão de Planejamento da Coordenadoria do Sistema Municipal de Bibliotecas, visando o estímulo e desenvolvimento de ações de promoção da leitura, difusão e formação cultural, com várias oficinas, especialmente a do Projeto "Fanzines nas zonas de Sampa". A intenção é de coincidir ambos perto do mês de setembro, quando este último (projeto de zines em Sampa) se encerrará (mas o outro do CCJ de formação em HQ e Zines continuará até novembro).
O Centro Cultural da Juventude de São Paulo-Ruth Cardoso fica na Av. Dep. Emílio Carlos, 3.641 - Vila Nova Cachoeirinha - São Paulo/SP - CEP.02720-200; Fone:3984-2466 r.33 (http://ccjuve.prefeitura.sp.gov.br/)

Gazy Andraus; São Vicente, março de 2011.

Coordenador Pós em Docência e Professor de Design da FIG-UNIMESP, Pesquisador do Observatório de Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), Doutor em Ciências da Comunicação da ECA-USP (melhor tese de 2006 pelo HQMIX em 2007), Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP, e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica.

26 de abril de 2011

 


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