instituto brasileiro arte e cultura
2016 - ano martins pena

Martins Pena
 
017
 
 
 
 
 
Aurélio Juruba

Logradouro Presidencial... Nobreza de Bar!

[email protected]

Ah, reminiscências que tomam de assalto a alma desse vosso cronista. Peço licença ao nobre e ibaquiano amigo de aí, para interromper a série didática que de antanho percorro a cá: hoje vou de saudade, posto que esta não tem idade, mas asas de voar.

Ficava ali no centro velho da aniversariante metrópole dos Campos de Piratininga. E justificava palmo a palmo, gesto a gesto, a nobre condição de botequim. Ainda às primeiras nesgas de luz, pela hora da chegada da avassaladora turba, começava a saltar delícias aos olhos de quem adentrava.

Era então a hora do café de operários, comerciantes, negociantes diversos, profissionais liberais, moças mais que liberais e tantos outros. Degustava-se então um dos mais preciosos pães na chapa de que tive notícia: generoso, na manteiga pura, derretida na medida, e na borda crocante e macia, veja lá!

E também os bolos de mandioca e fubá, pãezinhos de queijo e doces. Tudo regado ao pingado honesto e farto, chá e chocolate quentes, vitaminas de todos os paladares e iogurtes naturais batidos com açúcar e frutas. Naturais deveras, fabricados na própria casa em velhos potes de leite (da época da entrega em domicílio), mesclas da sobra do conteúdo anterior com leite fresco, novinho em folha: a boa e velha coalhada. Sem falar no ponto alto da festa, o chá preto, acondicionado de véspera em garrafas similares, batido com limão e gelo, servido em copo alto, espumante, porções individuais que davam para até três pessoas.

Os de fortes vísceras, encaravam desde então a vasta carta de lanches, da tradicional mortadela ao lagarto assado. Salames, copas, rosbifes, pernis, queijos, presuntos, frios e embutidos sem fim, com salada ou sem, maionese artesanal, molho tártaro ou inglês, sempre ao gosto e combinação do freguês. Delícias que se juntavam aos quibes, coxinhas (com e sem osso), bolinhos de carne, de bacalhau, esfihas, almôndegas e afins. Moldura perfeita à manhã que se arrastava respeitosa e lenta até o almoço, brindando de aromas e sabores os desocupados, boêmios, desesperançados, sonhadores, batalhadores, artistas, homens de negócios, autoridades públicas e privadas.

Ao enlace dos ponteiros digna-se capítulo à parte. Junto ao bom e velho comercial (feijão de grosso caldo, arroz soltinho, salada de folhas novas e tomates firmes, batatas fritas sequinhas, filé ao ponto do freguês e um ovo na chapa, de “chorinho”), desfilavam os pratos do dia: Virado à Paulista, às segundas; Dobradinha, às terças; Feijoada, às quartas e sábados; Macarronada, às quintas; e Peixe Ensopado, às sextas. Sempre com aquela disponibilidade à improvisação típica das grandes verves criadoras. Por quê não um belo prato de feijão preto, com arroz branquinho, omelete de queijo e salsicha ao molho? Se alma e fome pediam, saltava à mesa sem delongas, no intervalo minimamente necessário à lubrificação de ânimos e goela.

Encerrava-se a comilança sempre com um belo pedaço de mamão ou melancia, salada de frutas, sorvete de creme ou pudim de leite (às vezes de pão). E, claro, o cafezinho cheiroso passado a coador de pano, nada de máquina expresso. Preâmbulo perfeito para os goles que invadiam a tarde, inundando a vida, entrecortados por petiscos e porções de toda sorte: Moelas ao molho, lingüiças, churrasquinhos, torresminhos, almôndegas, frios e queijos, legumes em conserva, ovinhos de codorna e o diabo a quatro.

Ali sorvia-se de toda sorte: Cachaças, cervejas, licores, genebras, bitters, fernets, bourbons, scotchs, brandys, conhaques, gins, runs, vermutes, vinhos, vodcas, steinhägers e aperitivos diversos, puros ou em drinques, com gelo, frutas, sucos, refrigerantes e tudo quanto pedisse o coração. Rótulos de toda ordem, que fogem à lembrança pela quase total ausência das prateleiras de ora.

Rolando a tarde, deitava-se copos das saudosas Antarctica Pilsen e Müchen, de Brahma Bock e Colonial, doses de bom alambique mescladas a Crush, Gini, Ginger Ale e Grapette (sem falar no Guaraná Caçulinha e na Soda Laranjada). Assistia-se embates da mais variada fauna urbana: investigadores do DOPS (então donos da ordem), promotores públicos, doutos de porta de cadeia e toda trupe de contraventores à margem da proteção oficial.

Cerrava as portas com o começo da noite, ali pelas oito, deixando às escuras o amplo salão, de balcão paralelo e azulejos de meia parede. Isso antes que as moças da vida e seus “protetores” tomassem de assalto as calçadas, anunciando as fortes emoções da madrugada. Vez por outra, tomava-se uma gemada ou Caracu com ovo, de saideira, pra garantir a empreitada noturna, já que seguro morreu de velho.

Ficava ali na Rua Washington Luís, quase esquina da Avenida Cásper Líbero, portal da Boca do Lixo. O nome de verdade nunca soube, chamavam-no apenas Bar do Toninho. E como quase tudo de bom nessa vida, não existe mais. Virou saudade, fotografia de uma época em que indigentes e loucos de rua beliscavam uma sobrinha ao cair da tarde, com direito até a opinião sobre política e futebol, cara a cara com os “home” e sem medo de arranhão. Quiçá de queimadura! Até.

Aurélio Juruba é cachaceiro profissional, embora dedique grande parte do seu tempo a outros afazeres lúdicos e de grande valia.

01 de fevereiro de 2008

 


botão voltar
 
 

|| página inicial || apoio e patrocínio || institucional || sítios indicados || ||